Este crânio com 4 mil anos acabou de receber um novo rosto

Sepultada durante a Idade da Pedra, esta mulher outrora vagueou pelas florestas do norte da Suécia. Agora, os arqueólogos reconstruíram o seu rosto.

Publicado 7/03/2022, 15:26
Mulher viveu há cerca de 4.000 anos

Esta mulher viveu há cerca de 4.000 anos onde atualmente fica o nordeste da Suécia. Oscar Nilsson, pioneiro em arqueologia reconstrutiva, deu vida à sua aparência.

Fotografia por Oscar Nillson

Durante 4.000 anos, uma mulher permaneceu intocada num túmulo de pedra nas florestas do nordeste da Suécia. Esta mulher provavelmente seguia as migrações de animais junto às árvores e ao longo do rio Indalsälven. Quando morreu, na casa dos trinta anos, devido a uma causa desconhecida, foi enterrada com um rapaz, talvez seu filho, que teria cerca de sete anos.

Avançando até ao ano de 2020, quando Oscar Nilsson, um arqueólogo que usa argila para reconstruir meticulosamente rostos de há milhares de anos, foi abordado por curadores do Museu Västernorrlands, na Suécia. O museu tinha em seu poder os dois esqueletos escavados há um século numa aldeia conhecida por Lagmansören.

Foi criada uma réplica do crânio da mulher com uma impressora 3D. A argila representa os músculos faciais. Os pinos indicam a profundidade do tecido e vão ser cobertos por uma camada de pele feita de plasticina de argila.

Fotografia por Oscar Nillson

Estes exemplares da Idade da Pedra eram os esqueletos mais antigos encontrados naquela região da Suécia, onde as condições inóspitas dificultam a preservação. O museu estava a elaborar uma exposição que rastreava 9.500 anos de habitação humana na Suécia e queria mostrar o rosto mais antigo da região norte – a mulher de Lagmansören. Mas como seria o seu rosto?

Nas últimas duas décadas, Oscar Nilsson tornou-se pioneiro em arqueologia reconstrutiva, dando vida a mais de uma centena de antepassados humanos há muito desaparecidos. Reconstruir estes rostos oferece a Oscar, e aos milhões de visitantes que veem as suas reconstruções em museus pelo mundo inteiro, um portal para o passado.

Reconstruções faciais revelam 40.000 anos de ancestralidade inglesa

Oscar Nilsson começa por colocar uma dezena de músculos feitos de argila numa réplica impressa em 3D do crânio recuperado. Depois, coloca pequenos pinos para indicar a profundidade do tecido, que varia de acordo com o sexo, idade, peso e etnia do indivíduo. Estes pinos seguram uma camada de pele feita de plasticina de argila.

Há muitas características que podem ser previstas com precisão usando o registo deixado nos ossos. Quando Oscar Nilsson começou a reconstruir o rosto desta mulher da Idade da Pedra, levou em consideração o que já sabia: a mulher tinha pouco menos de um metro e meio – era baixa, mesmo para aquela época – e tinha dentes salientes que moldavam a sua boca de uma forma distinta. O nariz era um pouco assimétrico; pelo perfil, Oscar consegue dizer que era virado para cima. Os olhos eram baixos no rosto, e o osso da mandíbula – o maxilar inferior – era bastante masculino. Esta mulher tinha uma mistura interessante de características masculinas e femininas, pensou Oscar Nilsson.

Os restos mortais da mulher, juntamente com os de um menino, foram descobertos há um século numa sepultura de pedra que fica numa aldeia conhecida por Lagmansören.

Fotografia por Alamy

Desde que Oscar começou a reconstruir estes rostos, a impressão 3D e a tecnologia de ADN avançaram muito, permitindo-lhe atingir um novo nível de detalhe. O ADN extraído de ossos bem preservados pode revelar a cor do cabelo, da pele e dos olhos – três partes da reconstrução que antigamente eram especulativas. Agora, estão entre as características mais confiáveis.

Veja a reconstrução do rosto de uma adolescente com 9.000 anos

Mas no caso da mulher encontrada em Lagmansören, não foi possível recuperar qualquer ADN legível. Em vez disso, Oscar Nilsson analisou os padrões históricos de migração da região. Esta mulher viveu numa época em que os agricultores tinham entrado na Escandinávia há relativamente pouco tempo e tinham começado a misturar-se com os grupos de caçadores-coletores. Oscar determinou que a mulher provavelmente teria pele clara e cabelos escuros.

Após este processo, que Oscar diz ter sido rigorosamente testado, o trabalho sai do reino da probabilidade científica e entra na fase dois: a imaginação. Ao contrário do sexo, tom de pele e dentes, uma expressão não pode ser preservada nos ossos. “Preciso de dar vida ao rosto, para ficarmos com a sensação de que há alguém a olhar para nós atrás daqueles olhos”, diz Oscar Nilsson.

Mas Oscar evita ser demasiado criativo – “retratar um sentimento forte como raiva, por exemplo, é estritamente proibido”. O que Oscar pode fazer é entrelaçar emoções para dar a sensação de que o rosto está em movimento e, portanto, vivo. O rosto finalizado é remodelado com silicone em tom de pele e Oscar começa a trabalhar nos detalhes.

Quando Oscar Nilsson estava a pensar nos olhos da mulher, levou em consideração o menino que foi enterrado com ela. O esqueleto do menino estava demasiado degradado para oferecer informações, mas Oscar queria incluí-lo. E imaginou que o menino era filho daquela mulher, e que ela o observava enquanto ele corria à sua frente. Estas pessoas provavelmente eram caçadores-coletores, viajando atrás das migrações de animais. Talvez, pensou Oscar, estivessem a caminho de um acampamento de inverno.

“Ela não se sente ameaçada, está em casa e olha para este menino”, diz Oscar Nilsson. “É uma sensação de segurança, mas também quase um pouco arrogante. Mesmo que esta mulher tivesse uma baixa estatura, certamente não iriamos querer ter problemas com ela.”

Oscar Nillson estudou os padrões históricos de migração para determinar que esta mulher provavelmente tinha pele clara e cabelos escuros. A mulher está vestida com peles de animais feitas com técnicas da Idade da Pedra.

Fotografia por Oscar Nillson

Oscar sabe que o seu trabalho está bem feito quando um visitante de um museu se inclina em direção ao rosto para examinar os detalhes e depois salta para trás, desconfortável com as semelhanças. Isto acontece muitas vezes quando dois pares de olhos – vivos e reconstruídos – estão a cerca de meio metro de distância. “É algo que despoleta uma contrariedade no cérebro”, diz Oscar. “A parte lógica do cérebro diz que aquilo é falso, mas a experiência emocional é a de estarmos perante alguém.”

Oscar Nilsson demorou 350 horas para concluir esta reconstrução. Quando terminou o trabalho, a mulher foi vestida com peles de animais feitas com técnicas da Idade da Pedra por Helena Gjaerum, colega de Oscar. Com um colar ao pescoço que exibe uma garra de pássaro e o cabelo apanhado para ver bem o caminho, esta mulher percorria as florestas do norte da Suécia há 4.000 anos.

Oscar Nilsson conhece bem as florestas desta região. Quando Oscar era criança em Estocolmo, a sua família passava férias numa casa de campo a poucos quilómetros de onde o túmulo foi encontrado. Oscar pode ter caminhado por entre as árvores, colhido cogumelos e procurado alces, ou até mesmo ursos, nos mesmos trilhos que a mulher de Lagmansören.

 “O ADN e a impressão 3D são coisas boas”, diz Oscar Nilsson. “Mas o mais importante é o vínculo emocional que eu – e muitas pessoas – sentimos quando olhamos para um rosto reconstruído. É essa ligação que vem primeiro.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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