Este homem ajudou a abrir o oceano aos mergulhadores negros

Ao fundar o primeiro clube de mergulho afro-americano, Albert José Jones abriu caminho para os mergulhadores negros explorarem o oceano – e a sua própria história.

Publicado 11/03/2022, 11:25
Albert José Jones

Albert José Jones é considerado o padrinho do mergulho negro nos EUA. Albert Jones fundou o clube de mergulho negro mais antigo do país, o Underwater Adventure Seekers, em Washington D.C., em 1959, e foi cofundador da Associação Nacional de Mergulhadores Negros, em 1991.

Fotografia por Albert José Jones

Não há melhor parceiro de mergulho do que Albert José Jones, diz o seu colega Jay Haigler, que descreve Albert Jones como sendo “scuba fit” – aerobicamente ágil, no comando total dos músculos do seu corpo enquanto atravessa as correntes do oceano.

Albert Jones, natural de Washington D.C., obteve a sua certificação de mergulho numa piscina da Universidade Howard. Doc Jones, como é conhecido, mudou a face deste desporto de elite em 1959, quando fundou o Underwater Adventure Seekers, o primeiro clube para afro-americanos entusiastas de mergulho. Os seus esforços naquela época e ao longo da sua carreira de mergulhador, explorador e cientista abriram as portas para os mergulhadores negros explorarem o oceano – e a sua própria história – de formas que até então eram inéditas.

De facto, quando Jay Haigler mergulhou pela última vez com Albert Jones em 2019, perto de Key West, na Flórida, ambos estavam a celebrar dois marcos no mergulho afro-americano: o Underwater Adventure Seekers fazia 60 anos e a Diving with a Purpose, uma organização que documenta naufrágios do tráfico transatlântico de escravos, fazia 15 anos.

“Como é que Doc Jones alterou o futuro?” diz Jay Haigler. “Agora as coisas parecem ser mais representativas do mundo em que vivemos. Parece um lugar onde qualquer jovem negro que tenha curiosidade sobre o mar e sobre a sua história se pode autointitular de explorador. Isto permite aos jovens perceber que têm as mesmas probabilidades de todos os outros de ver o incrível mundo que está escondido sob a superfície do oceano.”

Um jovem Doutor Dolittle

Albert Jones, condecorado com um Coração Púrpura e biólogo marinho, é surpreendentemente modesto sobre a sua influência. Para quem o ouvir falar, o trabalho da sua vida foi apenas a progressão natural para um rapaz que dominava a natação nas piscinas da cidade e adorava mergulhar em riachos e lagoas, colecionar sapos, tartarugas e lagartos e quaisquer outras criaturas que conseguisse apanhar.

A história de como Albert Jones passou de um jovem Doutor Doolittle para uma lenda nos campos da arqueologia marinha e exploração submarina é um capítulo intrigante na história afro-americana, uma narrativa com origem em restrições raciais e nas descobertas feitas por aqueles que as questionavam.

Albert José Jones, que já fez mais de 7.000 mergulhos, começou em Washington D.C. – aprendeu a nadar nas piscinas da cidade e obteve a certificação de mergulho na Universidade Howard.

Fotografia por Christian K. Lee, Washington Post / Getty Images

Albert Jones criou o Underwater Adventure Seekers por uma razão puramente pragmática. Os clubes de mergulho existentes nas décadas de 1950 e 1960 não permitiam a participação de afro-americanos, e os custos associados ao mergulho acabavam muitas vezes por dissuadir as pessoas interessadas nesta prática. Albert Jones, tendo obtido a sua certificação e estando profundamente imerso na sua própria paixão pelo mergulho, diz que não teve outra escolha a não ser tentar criar igualdade no acesso.

“Eu sabia que havia outras pessoas como eu, que adoravam a água, que também tinham o mesmo desejo de ver o mundo”, diz Albert Jones. “Não fazia sentido haver pessoas que sentiam um desejo tão forte quanto eu sobre isso, e que nunca iriam ter a oportunidade de ver como era o mundo debaixo de água.”

Jay Haigler conheceu Albert Jones em 2004 em Washington D.C., numa reunião da Associação Nacional de Mergulhadores Afro-americanos, formada em 1991, da qual Albert Jones é um dos cofundadores. Jay Haigler diz que aquele encontro mudou a sua vida. Jay Haigler e a sua esposa Vanessa tinham feito mergulho durante as férias nas ilhas Caimão no início daquele ano, mas sentiram-se isolados porque eram as únicas pessoas de cor na visita.

“Mas quando entrei numa sala e vi 70 pessoas parecidas comigo, e todas elas gostavam tanto de mergulhar como eu, fiquei logo entusiasmado”, diz Jay Haigler. “Percebi naquele momento que isto era mais do que apenas um desporto para mim.”

Ligação espiritual

Ao tornar o mergulho acessível para os afro-americanos, Albert Jones possibilitou um reenquadramento da narrativa sobre o transporte de africanos escravizados para as Américas. Albert e os seus companheiros aventureiros exploraram os destroços de navios afundados, encontraram correntes e algemas enferrujadas que podem ter amarrado os seus antepassados, e navegaram pelas águas que transportaram africanos para uma terra nova – ou acolheram os seus corpos durante a travessia oceânica.

Jay Haigler, membro do conselho fundador da organização Diving With a Purpose (DWP), sublinha que o compromisso de Albert Jones em treinar homens e mulheres como ele criou um canal para campos onde a representação afro-americana era mínima ou inexistente. Por exemplo, a organização DWP tem parcerias estratégicas com grupos como a Sociedade de Arqueólogos Negros, para ajudar a formar membros que poderão ter carreiras de investigação ou em museus. O Serviço Nacional de Parques, outro dos parceiros, fornece o apoio técnico e financeiro para alguns dos empreendimentos da DWP.

Jay Haigler, membro do conselho fundador da organização Diving With a Purpose, formou mergulhadores e procurou naufrágios de escravos durante 15 anos. Jay diz que conhecer Albert José Jones mudou a sua vida.

Fotografia por Wayne Lawrence, National Geographic

De facto, em 2012, quando Jay Haigler contactou Ayana Flewellen, cofundadora da Sociedade de Arqueólogos Negros, a colaboração parecia predestinada. Menos de 1% de todos os arqueólogos a nível mundial são afro-americanos, diz Ayana Flewellen, e a oportunidade de fundir a ciência com a história perdida dos afro-americanos era demasiado boa para deixar passar.

“Estamos a tentar acabar com os estereótipos através de pessoas que têm uma formação formal neste espaço”, diz Ayana Flewellen. “É algo que adiciona uma camada extra ao trabalho, quase como uma ligação espiritual com as pessoas cujas histórias terminaram no fundo do oceano.”

“Parece realmente um trabalho sagrado”, diz Tara Roberts, Exploradora da National Geographic, que escreveu sobre a organização DWP para a National Geographic. “E também parece um trabalho cheio de coerência, cheio de poder. Há algo sobre nós, as pessoas comuns que levantaram as mãos e disseram que queriam ajudar a tirar esta história perdida das profundezas. Não vamos esperar que alguém com uma aparência diferente da nossa coloque isto num livro e nos diga que esta é a nossa história. Estamos a dizer que agora temos o poder, a capacidade para procurar esta história e dizer que ela é importante.”

Como diz Jay Haigler, todas estas águas vão dar a um mergulhador: Albert José Jones. Jay espera fazer parceria mais uma vez com o homem que esculpiu uma porta para o mar, que a emoldurou e abriu para tantos afro-americanos, tanto os vivos como aqueles cujas vozes sussurram debaixo das ondas.

“Vê-lo dentro de água, é a perfeição”, diz Jay Haigler. “É como ver Moisés com os Dez Mandamentos. É uma honra e um privilégio.”

Rachel Jones é Diretora de Iniciativas de Jornalismo da National Press Foundation e colaboradora frequente da National Geographic.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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