Este mágico fugiu da escravatura ao enviar-se pelo correio

Em 1849, quando um homem chamado Henry Brown escapou da escravatura numa caixa, os Estados Unidos interrogaram-se se a abolição também podia ser entregue pelo correio.

Publicado 9/03/2022, 10:50
A viagem de Henry Brown

Esta ilustração mostra o momento em que Henry Brown emergiu da caixa em que viajou desde a Virgínia até à Pensilvânia. A viagem de Henry Brown foi muito falada e expôs os avanços feitos recentemente no serviço postal.

Fotografia por Library of Congress

Em 1849, numa manhã de primavera, um homem negro escravizado chamado Henry Brown dobrou-se no interior de uma caixa de madeira com 90x60 centímetros. Vinte e sete horas e 560 quilómetros depois, Henry Brown chegou à casa de William Johnson, um barbeiro de Filadélfia que colaborava com a Underground Railroad, uma rede de pessoas, casas seguras e rotas que guiavam os escravos até à liberdade.

O serviço postal americano estava a caminho de se tornar numa avançada autoestrada de informação, e os abolicionistas rapidamente perceberam o seu potencial. À medida que os abolicionistas inundavam os estados do sul com panfletos antiesclavagistas, havia pessoas a favor da escravatura que queimavam os sacos de correio. O serviço postal foi colocado no centro de uma discussão nacional sobre liberdade de expressão, censura e escravatura.

No meio deste período conturbado, uma empresa de transportes privada chamada Adams Express entregou Henry Brown na casa de William Johnson. Henry Brown nasceu na escravatura e passou os primeiros 35 anos da sua vida enquanto propriedade do dono de uma plantação na Virgínia. Em agosto de 1848, Henry regressava para casa vindo do trabalho quando descobriu que a sua esposa e os seus três filhos tinham sido vendidos a um reverendo na Carolina do Norte. Henry escreveu mais tarde que, quando começou a orar por ajuda, ouviu as palavras: “Pega numa caixa e mete-te lá dentro.”

Quando emergiu da sua jornada, Henry Brown era uma sensação com um apelido a condizer: Henry “Box” Brown. A fuga fez de Henry um herói popular, um fugitivo procurado e um orador público. Para Hollis Robbins, estudiosa da literatura afro-americana, Henry Brown tornou-se no melhor exemplo do poder da entrega de correspondência nos Estados Unidos.

Quando Henry Brown emergiu da caixa de transporte, supostamente cantou esta música, que mais tarde seria publicada nos jornais. A descida nos preços de envio expandiu muito o uso do correio em meados de 1800, permitindo que a comunicação fluísse por todo o país.

Fotografia por Library of Congress, Rare Book and Special Collections Division, Printed Ephemera Collection

‘Distribuidores de liberdade’

Em meados da década de 2000, Hollis Robbins assistiu a uma palestra sobre Henry Brown na Universidade de Yale. O orador comparou a jornada de Henry Brown à chamada Passagem do Meio, a rota que levava homens e mulheres escravizados em navios apinhados e repletos de doenças de África para o Novo Mundo. Enquanto o palestrante falava sobre o sofrimento de “Box” a caminho da Pensilvânia – as condições apertadas, as reviravoltas, o tratamento da caixa – Hollis Robbins ficou comovida.

Do seu ponto de vista, os trabalhadores postais eram “distribuidores de liberdade”. Hollis Robbins, cujo avô trabalhava a bordo do Serviço Postal Ferroviário dos EUA, estava a fazer uma dissertação sobre burocracias americanas. Um dos capítulos da dissertação, que Hollis intitulou de “Correio Fugitivo”, era sobre Henry Brown.

Para Hollis Robbins, agora reitora da Escola de Artes e Humanidades da Universidade de Sonoma, na Califórnia, foram os avanços na entrega de correspondência que possibilitaram a fuga de Henry Brown – e o serviço postal forneceu uma ferramenta para acabar com o reduto da escravatura.

Os abolicionistas do norte lançaram uma campanha para entregar milhares de exemplares de jornais e panfletos antiesclavagistas, como o Registo Antiesclavalista (na imagem), no sul a partir de 1835. O correio era por vezes queimado por multidões a favor da escravatura e este tipo de correspondência provocou indignação entre os políticos do sul. O diretor dos correios, nomeado pelo governo federal, recusava-se a censurar a correspondência, mas as estações dos correios apanhavam a correspondência abolicionista.

Fotografia por Library Company of Philadelphia

O serviço postal nacional já faz parte do tecido da América desde que a Constituição foi ratificada em 1789. Mas desde o início, “os interesses políticos do sul estiveram sempre de olho na política postal dos EUA”, escreveu Hollis Robbins em “Correio Fugitivo”. Não foi difícil perceber o poder que os correios tinham para ameaçar o sistema económico do sul.

Inicialmente, os africanos escravizados eram usados para entregar a correspondência, mas uma rebelião liderada por escravos nas Caraíbas semeou o medo no sul dos Estados Unidos. Em 1802, o Diretor Postal Gideon Granger expôs estas preocupações numa carta dirigida a um senador da Geórgia:

“Os [escravos] mais ativos e inteligentes são empregados como mensageiros… Eles viajam diariamente e misturam-se a toda a hora com as pessoas… eles vão adquirir informações. Vão aprender que os direitos de um homem não dependem da sua cor. Com o tempo, tornar-se-ão professores para os seus irmãos... Um homem capaz entre eles, se perceber o valor desta máquina, pode traçar um plano que será comunicado através dos seus mensageiros de cidade em cidade, e produzir uma operação geral e unida contra si.”

Na primavera desse ano, o Congresso proibiu que os escravos entregassem correspondência.

Em julho de 1835, uma multidão de proprietários proeminentes de escravos do sul invadiu a estação dos correios em Charleston, na Carolina do Sul. Estes homens queimaram resmas de jornais abolicionistas. Muitos estados do sul iriam aprovar medidas para banir a entrega deste tipo de materiais, mesmo que isso entrasse em conflito com as leis federais.

Fotografia por Courtesy Library of Congress

Correio disruptivo

Em meados da década de 1830, os abolicionistas do norte já estavam apegados ao sistema postal para fomentar o seu movimento. Na época, cerca de 100 jornais que defendiam a abolição da escravatura eram impressos no norte. Uma campanha para entregar esta informação às mãos de editores, líderes religiosos e outros indivíduos simpatizantes no sul resultou num fluxo constante de jornais, panfletos e denúncias.

Os sacos de correio transportavam ativismo aos eleitores do sul e aos homens e mulheres escravizados, revelando críticas generalizadas à escravatura e encorajando os escravos a erguerem-se contra o sistema. Mas o correio também levava para o norte os detalhes sobre a vida dos escravos. A escravatura, escreveu Ralph Waldo Emerson, “não gosta do apito do comboio, não gosta do jornal, do saco do correio, de uma universidade, de um livro…”.

“O pressuposto”, diz Hollis Robbins, “era o de que a liberdade iria vir do acesso sem restrições ao correio – à comunicação”. 

Em 1831, Nat Turner organizou uma rebelião de escravos na Virgínia, e esta campanha feita pelos correios, apenas alguns anos depois, aterrorizou os proprietários de terras no sul. Em 1835, multidões de defensores da escravatura invadiram os correios de Charleston, na Carolina do Sul, e incendiaram uma pilha de jornais abolicionistas. Milhares de pessoas reuniram-se em torno da fogueira, queimando panfletos e efígies de líderes do norte.

Os políticos do sul dirigiram-se ao Congresso para exigir que os correios reduzissem a entrega de materiais abolicionistas. Estes conteúdos, argumentavam os políticos sulistas, desafiavam as leis dos estados do sul que proibiam a disseminação de mensagens inflamatórias. O Congresso afirmou que os diretores das estações de correios não tinham permissão para recusar a entrega de correspondência e emitiu uma multa e ordem de prisão para as estações que o fizessem. Ainda assim, alguns estados do sul aprovaram regulamentos sobre este tipo de materiais, e as centrais dos correios ficaram conhecidas por vasculhar a correspondência.

Apesar de tudo isto, chegavam anualmente centenas de milhares de entregas abolicionistas aos estados do sul. Estas campanhas podem ter aprofundado a divisão nacional, unindo os sulistas contra o norte intrometido.

“Foi um momento conturbado para o governo federal e os estados que se debatiam se deviam controlar esta rede de comunicação”, diz Lynn Heidelbaugh, curadora do Museu Postal Nacional do Smithsonian. “É sobre quem controla a informação [e] o receio em torno do discurso político, quando as pessoas começam a trocar opiniões.”

Embora o diretor dos correios, nomeado pelo governo federal, tenha fechado os olhos à entrega seletiva de correspondência, os abolicionistas começaram a usar empresas privadas. Estas empresas não estavam sujeitas aos protocolos federais e tinham interesse empresarial em garantir uma entrega segura.

A Adams Express Company ganhou fama pela sua fiabilidade, velocidade e privacidade. Para o provar, a empresa enviava publicamente caixas de pó de ouro extraído na Corrida ao Ouro da Califórnia para os bancos na Costa Leste. Isto atraiu abolicionistas e, eventualmente, a atenção dos homens que planearam a fuga de Henry Brown.

A fuga

A caixa de madeira feita para Henry Brown tinha 90 centímetros de comprimento, 60 centímetros de largura e incluía três orifícios de ventilação. No dia 29 de março de 1849, Henry dobrou-se na caixa com um recipiente com água, alguns biscoitos e uma ferramenta afiada para fazer mais furos para respirar. A caixa foi transportada por vagões de comboio, barcos a vapor e carroças. Apesar de a caixa ter marcado “Cuidado: Este lado para cima”, a caixa foi invertida durante o transporte, e Henry Brown passou parte da viagem de cabeça para baixo, convencido de que podia morrer. Sem saber se o ocupante deste pacote tinha sobrevivido à viagem, as pessoas que o acolheram bateram na caixa e perguntaram se estava tudo bem.

“Está tudo bem, senhor”, foi a resposta.

A fuga de Henry Brown foi elogiada como um milagre dos tempos modernos. Os Estados Unidos ainda estavam a 12 anos de abolir a escravatura, mas esta rede crescente de transportes era robusta o suficiente para entregar um homem em pouco mais de um dia.

“A mensagem era a de que este meio funcionava”, diz Hollis Robbins. “E de que a entrega de encomendas – este progresso americano – apesar de ainda não ter acabado com a escravatura, permitia a entrega de correspondência entre o norte e o sul, e permitiu a criação destas redes de comunicação que rapidamente iriam trazer liberdade e emancipação.”

Um ano depois, a Lei do Escravo Fugitivo de 1850 e um acidente com um caçador de recompensas forçaram Henry Brown a abandonar a América. Henry viajou por Inglaterra, muitas vezes numa réplica da sua caixa original que era aberta em frente a plateias ao vivo. Henry Brown criou “O Grande Panorama da Escravatura Americana” e chegou a fazer digressões com antigos homens e mulheres escravizados.

Quando era criança a viver na plantação, Henry Brown aprendeu truques de ilusionismo com outro homem escravizado, e agora usava essas aptidões para construir um espetáculo completo. No palco, Henry praticava mentalismo, fugas, prestidigitação e hipnotismo.

Henry Brown era um Cavalo de Tróia, um clandestino e a revelação de um truque de magia, mas os principais abolicionistas não sabiam o que fazer com ele. Frederick Douglass também escapou de forma famosa da escravatura, mas nunca falou sobre o seu modo de fuga. Por outro lado, a história de Henry Brown estava quase inteiramente enraizada na exposição pública.

E embora Frederick Douglass e outros falassem apaixonadamente sobre o sofrimento que tinham passado, Henry Brown descrevia as suas experiências como sendo o “lado bonito da imagem da escravatura” e falava gentilmente sobre o dono da plantação. Em Inglaterra, Henry Brown casou-se novamente e não se sabe se conseguiu comprar a liberdade da sua família nos EUA ou se a viu novamente.

“Se Henry Box Brown não tivesse atraído tanta atenção para a forma como escapou, poderíamos ter mil Box Browns por ano”, escreveu Frederick Douglass na sua autobiografia de 1855, My Bondage and My Freedom.

Como seria de esperar, no mesmo ano em que Henry Brown escapou, a penitenciária de Richmond adicionou uma nova entrada à sua lista de crimes: “Incitar escravos a fugir em caixas”. Um dos prisioneiros detidos por este delito, Samuel Alexander Smith, o homem que enviou Henry Brown, foi apanhado a tentar enviar mais escravos e foi condenado a seis anos de prisão. Pouco tempo depois, um negro livre foi detido a tentar fazer o mesmo. Não se sabe se outros escravos conseguiram fugir para a liberdade através dos correios.

As políticas do correio

O que é certo é que nos anos que se seguiram à fuga de Henry Brown, o correio começou a fluir pela América de uma forma inédita. O custo de distribuição de jornais era financiado há muito tempo, mas as taxas de correspondência pessoal eram elevadas – uma pessoa podia fazer um ou dois envios por ano – até se registar uma descida dramática nas taxas em 1845 e 1851. Em 1847, foi emitido o primeiro selo postal, permitindo aos remetentes pagar a correspondência antecipadamente, em vez de serem os destinatários no momento da entrega, e oferecendo a ambas as partes um anonimato muito desejado. Entre 1845 e 1850, o volume de correspondência aumentou 66%, segundo Hollis Robbins.

“O impacto desta nova via de comunicação foi imensurável, mas outros relatos sugerem que, por causa de Frederick Douglass e dos abolicionistas usarem o correio, os escravos no sul tinham agora consciência de que havia este serviço”, diz Hollis.

Por exemplo, há o caso de Harriet Jacobs, que recorreu à ajuda de uma amiga em Nova Iorque para enviar uma carta ao seu “mestre”, enquanto esta se escondia, sabendo que o carimbo postal desviaria o mestre do seu rasto. E o caso de Anthony Burns, um fugitivo detido em Richmond que enviava cartas ao seu advogado através da janela da cela. Frederick Douglass escreveu que muitas das pessoas escravizadas usavam documentos emprestados de afro-americanos livres e enviavam-nos de regresso aos seus antigos “donos” quando ficavam em liberdade.

A história de Henry Brown nunca deixou de surpreender o público. Tony Kushner (o dramaturgo responsável por Angels in America) transformou esta história numa peça. Alguns escritores usaram a jornada de Henry Brown para explorar temas sobre a vida em cativeiro. E outros artistas tentaram enviar-se pelo correio em sua homenagem. Para os historiadores do serviço postal, esta saga cruza-se com um período formativo da história americana.

“Qual é o papel dos correios? Quem é que deve ter acesso ao correio? O que devemos enviar pelo correio?” pergunta Lynn Heidelbaugh, a curadora do Museu Postal Nacional do Smithsonian. “Estávamos a emergir do início da república até chegarmos a este ponto de crise, nas décadas que levaram à Guerra Civil… é emblemático de todos os debates que acontecem nos EUA sobre o papel do governo.”

Não é diferente do que acontece atualmente, acrescenta Lynn Heidelbaugh, com conversas que abordam o acesso às redes sociais, às notícias, à internet e como a liberdade de expressão deve ser regulamentada.

“O correio”, diz Lynn, “é uma coisa muito política”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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