O navio lendário de Ernest Shackleton foi finalmente encontrado, um século depois, ao largo da Antártida

O “Endurance” foi descoberto debaixo do gelo marinho, a cerca de três mil metros de profundidade.

fotografias de Esther Horvath
Publicado 14/03/2022, 09:21 , Atualizado 17/03/2022, 09:36
O Endurance, um navio de 43 metros de comprimento do explorador irlandês Ernest Henry Shackleton, esteve desaparecido durante mais de um século ao largo da Antártida, sob o gélido Mar de Weddell. Em 2022, a embarcação foi encontrada a 3.000 metros de profundidade em condições de preservação surpreendentemente boas.


No outono de 1915, o navio Endurance, do explorador polar Ernest Shackleton, naufragou ao largo da Antártida, deixando a sua tripulação retida no gelo marinho à deriva e dando início a uma das narrativas mais dramáticas da história sobre sobrevivência contra todas as probabilidades. Apesar de todos os 28 tripulantes da expedição terem sido resgatados, o local de descanso final do navio permaneceu um mistério marítimo – o capítulo final por escrever de uma história lendária de sobrevivência e triunfo. Mas tudo isso mudou. Uma equipa de investigadores anunciou que localizou o naufrágio do Endurance no traiçoeiro fundo do Mar de Weddell, adjacente à parte mais a norte da Antártida.

As primeiras imagens do navio foram transmitidas no dia 5 de março através de veículos autónomos submarinos (AUV), a mais de três mil metros de profundidade. À medida que a câmara deslizava sobre o convés de madeira do navio, as imagens captadas revelavam cordas centenárias, ferramentas, vigias, grades – e até os mastros e o leme – tudo em condições quase imaculadas devido às baixas temperaturas, à ausência de luz e ao pouco oxigénio presente nesta sepultura aquática.

Apesar das tentativas feitas para libertar o Endurance do gelo nos dias 14 e 15 de fevereiro de 1915, o navio estava completamente preso. “O que o gelo apanha, o gelo guarda”, disse uma vez Ernest Shackleton. Nos dias de neblina que antecederam o naufrágio do Endurance, o comandante e navegador Frank Worsley não conseguiu fazer uma leitura precisa sobre a sua localização. Sem dados concretos, a localização do navio permaneceu um mistério durante mais de um século.

Fotografia por Frank Hurley, ROYAL GEOGRAPHICAL SOCIETY, GETTY IMAGES
Esquerda: Superior:

Ernest Henry Shackleton deixou a tripulação do Endurance na Ilha Elefante a aguardar o resgate enquanto ele e outros cinco homens viajaram quase 1.300 quilómetros para procurar ajuda numa estação baleeira na ilha Geórgia do Sul. Quando Ernest Shackleton chegou à estação, estava tão magro e mal tratado que era quase irreconhecível.

Fotografia por PA IMAGES, GETTY IMAGES
Direita: Fundo:

O Endurance esmagado pelo gelo enquanto se afundava durante a Expedição Transantártica Imperial.

Fotografia por Frank Hurley, SCOTT POLAR RESEARCH INSTITUTE, UNIVERSITY OF CAMBRIDGE, GETTY IMAGES

“Eu procuro destroços desde os meus vinte e poucos anos, e nunca encontrei um naufrágio tão coerente como este”, disse o arqueólogo marinho Mensun Bound, de 69 anos, por telefone via satélite, enquanto ele e outros membros da tripulação iniciavam a sua longa jornada de regresso para a Cidade do Cabo, depois de mais de um mês à procura do navio de Ernest Shackleton. “Até conseguíamos ver os buracos dos parafusos.”

Mensun Bound, diretor da expedição Endurance22, diz que quando a equipa viu as primeiras imagens transmitidas pelos AUV, ele e outros colegas de um grupo de 65 pessoas estavam confiantes de que se tratava do Endurance e não de outro naufrágio. Mas a prova inequívoca rapidamente apareceu nos ecrãs: uma imagem aproximada da popa revelou letras de latão a brilhar que soletravam Endurance por cima de uma estrela polar. “Nós vemos algo assim e os nossos olhos ficam todos arregalados”, diz Mensun Bound. “Foi um daqueles momentos em que parece que viajámos no tempo. Eu conseguia sentir a respiração de Ernest Shackleton no meu pescoço.”

O quebra-gelo sul-africano Agulhas II consegue atravessar enormes placas de gelo enquanto se move a uma velocidade de cinco nós. Em meados de fevereiro, depois de ficar preso no gelo marinho por breves momentos, o Agulhas II chegou ao local onde os membros da equipa acreditavam que navio o navio Endurance tinha naufragado.

“Nunca encontrei um naufrágio tão coerente como este.”

por MENSUN BOUND, ARQUEÓLOGO MARINHO

Qual era o objetivo de Ernest Shackleton?

O Endurance fazia parte da grandiosamente denominada Expedição Transantártica Imperial de Ernest Shackleton. Apoiado pelo governo britânico e doadores privados, incluindo Winston Churchill, que então era o Primeiro Lorde do Almirantado, o plano era levar um grupo de exploradores até à costa da Antártida, onde desembarcariam e depois viajariam por terra pelo continente através do Polo Sul.

O Endurance, um navio de 43 metros e três mastros construído propositadamente para navegar em águas polares, tinha cascos sólidos de carvalho com 75 centímetros de espessura. A embarcação partiu da Geórgia do Sul no dia 5 de dezembro de 1914, logos após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Contudo, apesar de estarem perto de um dos polos do planeta, a guerra também estava por perto. Quando o Endurance entrou no Mar de Weddell, as frotas britânicas e alemãs batalhavam a norte, na Batalha das Ilhas Malvinas.


Mas o inimigo que Ernest Shackleton e os seus homens enfrentavam era de uma estirpe diferente. O Mar de Weddell, cobrindo uma área com muito mais de um milhão de quilómetros quadrados, é um dos ambientes mais remotos e inóspitos do planeta, repleto de icebergues e agitado por ventos fortes de superfície. Ernest Shackleton dizia que era “o pior mar do mundo”.

Mas se havia alguém preparado para este tipo de aventura, essa pessoa era Ernest Shackleton. Veterano de explorações antárticas, Ernest fez parte da grande corrida para alcançar o Polo Sul antes de o explorador norueguês Roald Amundsen reivindicar para si o primeiro lugar.

Para fazer esta ambiciosa jornada através do continente, Ernest escolheu a dedo a tripulação e gostava de jantar com os homens, contar piadas, liderar as cantorias e organizar jogos. A tripulação referia-se afetuosamente a Ernest por “Chefe”.

A expedição fez um bom progresso ao início, mas à medida que o inverno antártico de 1915 se aproximava, os homens viram-se presos no gelo marinho. “Às 7 horas da noite, desenvolveu-se uma pressão muito forte, com tensões de torção que arrastaram o navio para a frente e para trás”, escreveu Ernest Shackleton na terça-feira, dia 26 de outubro.

Esquerda: Superior:

No momento em que o diretor de exploração, Mensun Bound (segundo da direita), viu o nome e a estrela no leme do navio, descreveu o momento “como se estivesse a sentir a respiração de Shackleton no meu pescoço”.

Direita: Fundo:

A bordo do Agulhas II, os líderes da expedição observam as primeiras imagens do Endurance.

fotografias de Esther Horvath
O Agulhas II colocou dois AUV no mar para procurar o Endurance. Estes dispositivos conseguem operar a mais de 150 quilómetros de distância do navio.

No dia seguinte, os homens retiraram do barco algumas ferramentas, instrumentos e provisões e montaram acampamento num bloco de gelo. Ernest Shackleton escreveu: “Apesar de termos sido obrigados a abandonar o navio, que está danificado para além de qualquer esperança de reparação, estamos vivos e bem de saúde, e temos mantimentos e equipamento para a tarefa que se avizinha.”

O Endurance acabou eventualmente por naufragar no dia 27 de novembro. “Esta noite, enquanto estávamos deitados nas nossas tendas, ouvimos o Chefe gritar: ‘Ele está a ir, rapazes!’”, escreveu um dos tripulantes. “Nós saímos logo das tendas e fomos para a estação de observação e outros locais, e lá estava o nosso pobre navio a poucos quilómetros de distância a lutar na sua agonia de morte. A proa do navio afundou-se primeiro, com a popa erguida no ar. Depois mergulhou rapidamente e o gelo encerrou-se sobre o navio para sempre.”

Durante mais de um século, o Endurance, um navio com 43 metros de comprimento, esteve perdido debaixo do gelo do Mar de Weddell, que se estende ao longo de mais de um milhão de quilómetros quadrados. O navio foi encontrado a 3000 metros de profundidade em condições de preservação surpreendentemente boas.

Fotografia por THE FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST, National Geographic
Esquerda: Superior:

Uma estrela adorna a popa do Endurance enquanto o navio aguarda nas Docas de Millwall, em Londres, em julho de 1914.

Direita: Fundo:

Cinco anos antes, Ernest Shackleton quase que se tornou na primeira pessoa a chegar ao Polo Sul, percorrendo apenas 156 quilómetros até precisar de regressar para trás.

fotografias de HULTON ARCHIVE, GETTY IMAGES

A proa de estibordo do Endurance nas profundezas do Mar de Weddell. O gelo marinho por cima é tão traiçoeiro e imprevisível que atualmente existem poucos dados sobre esta área.

Fotografia por FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST, National Geographic

Porque é que foi tão difícil encontrar o Endurance?

O Endurance ali permaneceu, enterrado sob o gelo polar a uma profundidade de 3.000 metros. Em 2019, a Falklands Heritage Maritime Trust montou a sua primeira expedição para encontrar o navio, mas não conseguiu localizar os destroços. Neste inverno, a instituição tentou novamente, organizando e financiando a expedição Endurance22.

Um dos problemas mais complicados foi estabelecer a localização do navio. Depois de o Endurance ter ficado inicialmente preso no gelo, continuou à deriva enquanto os blocos de gelo se moviam com a corrente. Quando o navio acabou por ser esmagado e se afundou, o comandante do Endurance, Frank Worsley, fez medições sobre a sua localização com um sextante e registou as leituras no diário. Porém, devido à má visibilidade no dia em que os homens abandonaram o navio, Frank Worsley não conseguiu fazer as leituras adequadas que ajudariam a calcular a direção e a velocidade dos blocos de gelo.

Uma das primeiras tarefas da equipa de cientistas e especialistas em navegação da expedição Endurance22 foi rever os registos de Frank Worsley para chegar a uma localização mais precisa.

 “A última observação de Frank Worsley foi no dia 18 de novembro, e depois fez outra no dia 20 de novembro, um dia depois do naufrágio”, diz Mensun Bound. “E fez outra no dia 22, mas já estava longe. Portanto, ele teve de adivinhar a velocidade de deriva do gelo.”

E também havia a questão dos cronómetros da tripulação. Com os mapas do céu muito mais exatos da atualidade, os investigadores calcularam que os relógios do Endurance estavam a operar mais depressa do que a tripulação pensava, um erro que mudaria a localização da embarcação para oeste em relação à última posição registada por Frank Worsley. Usando estes cálculos, a expedição reduziu a área de busca, mas as probabilidades de encontrar a embarcação continuavam baixas.

“Só tínhamos mais três ou quatro dias e ainda não o tínhamos encontrado”, disse Mensun Bound. “Havia três áreas que faltavam observar. Mas muitas vezes o gelo decide para onde é que conseguimos olhar. E o gelo corria de oeste para leste, o que nos levou para a porção sul da nossa área de busca. E ali estava ele!”

O Endurance começou a sua jornada pelo gelo ártico em 1914 como parte da Expedição Transantártica Imperial. Ernest Shackleton recebeu milhares de inscrições de voluntários que queriam participar na viagem e partiu com uma equipa que incluía um artista, um meteorologista e dois cirurgiões.


    

Kerry Taylor (esq.) J.C. Caillens e Frédéric Bassemayousse (dir.) da equipa Sub-sea e tripulação do S.A. Agulhas II, recuperam um AUV após um mergulho no Mar de Weddell para procurar o navio Endurance de Ernest Shacklaton.

Fotografia por Esther Horvath

“Na realidade, estava a apenas 4.16 milhas náuticas da posição especulada por Frank Worsley, o que mostra a incrível precisão dos seus cálculos”, acrescenta John Shears, líder da expedição Endurance22.

Para além de tentar estabelecer a localização do navio, o maior desafio da expedição foi o gelo marinho. “Um especialista em Londres dava-nos 10% de probabilidades de atravessar o gelo”, diz John Shears com um sorriso. Felizmente, o navio de investigação, o S.A. Agulhas II, conseguiu esmagar gelo com um metro de espessura a uma velocidade de cinco nós. Ainda assim, o navio foi “travado” durante breves momentos pelo gelo em fevereiro, quando a temperatura desceu para os mais de 10 graus negativos. “A imprensa fez um grande alarido sobre isto”, diz John Shears. “Mas só ficamos presos durante umas quatro horas, numa pequena plataforma de gelo, até que a maré nos fez flutuar.”

O navio de investigação acabou eventualmente por chegar à área de busca designada no dia 18 de fevereiro, e a equipa começou a sua caça submarina pelo Endurance. Para perscrutar o fundo do mar a 3.000 metros de profundidade, a equipa usou dois AUV equipados com sonar e tecnologia de pesquisa visual. Estes dispositivos com 3,6 metros de comprimento, que são muito utilizados na indústria petrolífera offshore, parecem discos rígidos de computador gigantes. Capazes de operar de forma autónoma até 160 quilómetros de uma embarcação e de suportar pressões e temperaturas extremas, os AUV conseguiram recuperar as primeiras imagens do local de naufrágio do Endurance.

Mensun Bound e John Shears estavam a fazer uma caminhada no gelo quando os AUV transmitiram as primeiras imagens. “No momento em que regressámos ao navio, fomos a correr disparados para a ponte. Um dos membros da equipa estava com um sorriso de orelha a orelha. Quando ele me mostrou uma captura de ecrã, foi como se toda a minha vida se tivesse afunilado até àquele momento.”

O navio Agulhas II atravessa camadas espessas de gelo no Mar de Weddell, que continua a ser uma das regiões mais remotas e inóspitas do planeta.

Fotografia por Esther Horvath

Revelação do último capítulo da saga Shackleton

A famosa citação “o que o gelo apanha, o gelo guarda”, pertence a Ernest Shackleton. Mas a história do Endurance não terminou com o naufrágio do navio. A jornada de Ernest Shackleton de regresso ao Mar de Weddell para conseguir ajuda para a sua tripulação tornar-se-ia numa das narrativas mais célebres sobre exploração e sobrevivência.

No dia 4 de abril de 1916, Ernest Shackleton deixou a sua tripulação na Ilha Elefante, e ele e outros cinco homens partiram num dos botes salva-vidas modificados do Endurance em direção à ilha Geórgia do Sul. Foi uma jornada de 1.300 quilómetros e 16 dias através de mares gelados e agitados, fustigados por fortes vendavais. “O vento simplesmente gritava quando arrancava o topo das ondas”, escreveu Ernest Shackleton. “Descendo os vales criados pelas ondas até alturas de arremesso, esticando-se até que as suas costuras se abrissem, assim balançou o nosso pequeno bote.”

Quando os homens chegaram à costa sul da ilha Geórgia do Sul, enfrentaram uma caminhada de 36 horas pela ilha montanhosa e acidentada, para chegar a uma estação baleeira em Stromness. Ernest Shackleton fez um esforço para o conseguir, embora, como sugerem as novas investigações, provavelmente tivesse problemas cardíacos.

Quando os homens entraram a cambalear, o diretor da estação, Thoralf Sorlle, mal conseguia acreditar no que estava a ver. “As nossas barbas eram longas e os nossos cabelos estavam todos emaranhados”, escreveu Ernest Shackleton. “Estávamos sujos e as roupas que já usávamos há quase um ano sem mudar estavam esfarrapadas e manchadas.”

Quase seis anos depois, enquanto se preparava para fazer outra expedição à Antártida, Ernest Shackleton iria falecer de ataque cardíaco na ilha Geórgia do Sul. Ernest foi enterrado no local no dia 5 de março de 1922. Exatamente 100 anos depois, a equipa do Endurance22 captou as primeiras imagens do famoso Endurance.

Mensun Bound diz que tanto ele como os seus companheiros da equipa vão passar pela ilha Geórgia do Sul a caminho de casa para visitar o túmulo de Ernest Shackleton. “Estamos tristes por abandonar o local”, diz Mensun. “Mas temos um grande sentimento de orgulho e realização. E vamos parar para prestar a nossa homenagem ao Chefe.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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