A Hollywood do Porto nos anos 20: produtora Invicta Film

Invicta Film: do estúdio ao laboratório, esta era a Hollywood do Porto nos anos 20, a primeira grande produtora de cinema que existiu em Portugal.

   

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Por Catarina Fernandes
Publicado 4/04/2022, 15:07

Para contarmos a história da Invicta Film precisamos de recuar até 1896, quando se registam as principais etapas da história do cinema em Portugal. Foi, entretanto, a adaptação do conto “Frei Bonifácio”, de Júlio Dantas, que levou aos primeiros passos para que, anos mais tarde, o Porto se tornasse uma peça de extrema importância para a Sétima Arte em Portugal.

A Invicta Film fez do Porto a Cidade do Cinema, cuja obra foi sonhada por Alfredo Nunes de Mattos, em 1910, um promotor de espetáculos, exposições e projeção de filmes da época, do recém-inaugurado Jardim Passos Manuel. Da vontade de produzir exclusivamente filmes sobres assuntos portugueses, nasceu então a Invicta Film, no n.º 135 da Rua de Santo Ildefonso, a Nunes de Mattos & Cia.

Esta primeira experiência industrial de cinema em Portugal surgiu sob o lema “Romance Português – Filme Português – Cenas Portuguesas – Artistas Portugueses” e sucederam-se adaptações de grandes obras literárias, mesmo com realizadores quase todos estrangeiros, apesar da presença de Palmira Bastos ou da vedeta francesa Francine Mussey.

Inicialmente, a produção do Invicta Film dedicava-se a panorâmicas, documentários de propaganda comercial, industrial e de atualidades, com relativo reconhecimento tanto em Portugal como no estrangeiro. Foi o documentário sobre uma tragédia marítima em Leixões, “O Naufrágio do Veronese” (1913) que levou à venda de mais de cem cópias para a Europa e Brasil.

Leia: Como era o Porto antigamente?

Várias personalidades portuenses contribuíram para a constituição do Invicta Film

Até à constituição como empresa e à produção de longas-metragens, passaram-se alguns anos. O investimento chegava pelo banqueiro portuense José Augusto Dias e, do comerciante de vinho do Porto, António de Oliveira Calém, entre outras personalidades que pagavam cotas na ordem dos cinco a sete contos. Estes apoios, que culminavam num capital de 150 mil escudos, permitiram assinar a escritura da sociedade Invicta Film Lda, em novembro de 1917.

Um ano depois da realização da escritura a empresa adquiriu a Quinta da Prelada, conhecida como Casa do Carvalhido, por cerca de 27 contos, à Misericórdia do Porto. Nesses 50 mil metros quadrados e num palácio com traço de Nicolau Nasoni nasce a que viria a tornar-se a “fábrica de cinema” do Porto, a Invicta Film.

Nessa época, a produtora passa a ter um estúdio, um laboratório, uma casa de máquinas, camarins e um espaço para carpintaria e pintura. A empresa adquiriu duas máquinas de filmas, dois projetores, uma bateria de arcos voltaicos, geradores, vinte mil metros de negativos impressionados e o Cine-Magic, um processo inovador de reflexão cinematográfica de terceira dimensão, a chamada realidade virtual da época.

Do cinema mudo ao cinema falado e cantado em português

A par de na vida política e social sucederem-se contrações, da presença na I Grande Guerra e do assassinato de Sidónio Pais à tomada do poder por Gomes da Costa e posterior ascensão de Salazar, passando pela glória da travessia aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, o cinema português ia vivendo de experiências parcelares e empresas e autores sem futuro. Da época destacam-se os filmes “Os Lobos” (1923), de Rino Lupo para a Ibéria Film, e “O Táxi 9297” (1927), de Reinaldo Ferreira para a Repórter X Film.

O cinema sonoro começava a chegar até nós, com filmes falados em outras línguas, e o cinema mudo português atingia a maturidade estética. O sonoro chega por fim, pelas mãos de Leitão de Barros, e chegava a história “A Severa” (1931). A esperança renascia com o cinema falado e cantado em português.

A Invicta Film arranca a todo o vapor em 1920, com uma adaptação de “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, da autoria de Júlio Dinis, tendo vindo a revelar-se um êxito quer em Portugal, quer no Brasil, vendido por 160 contos. Seguidos do mesmo, surgiram “Amor Fatal” e “Barbanegra”.

Nunes de Mattos e Henrique Alegria, diretor artístico da Invicta Film, ligado ao cinema Olympia, viajaram para Paris com o intuito de trazer material e pessoal especializado, como o realizador Georges Pallu. A este, além da realização também fica a cargo a supervisão de toda a produção, tarefa que desempenhou durante os cinco anos que se seguiram.

Pallu foi responsável pela realização de “Frei Bonifácio” (1918), com estreia no Jardim Passos Manuel, “A Rosa do Adro” (1919) e “O Comissário de Polícia” (1919). Mais tarde surgiu a adaptação de “Amor de Perdição” (1921), de Camilo Castelo Branco e recebeu Rino Lupo, que acabou por realizar “Mulheres da Beira” (1923) apenas, sendo que de seguida surgiram os problemas que conduziram a Invicta Film até à sua extinção.

Ainda antes do fim da produtora estrearam-se mais sete filmes, tais como “Quando o Amor Fala…” (1921), “O Primo Basílio” (1923) e “Tempestades da Vida” (1923), contudo, as receitas não eram suficientes e não havia mais interesse nas salas de cinema de filmes nacionais. Apesar disso, “O Destino” (1922), da realização de Pallu, teve sucesso de tal forma que levou a uma forte injeção de capital que trouxe alguma esperança, no entanto, “A Tormenta” (1925) veio a revelar-se a última projeção da Invicta Film.

A necessidade de preservar o património cinematográfico

A Fábrica de Cinema encerrou a sua atividade em 1928 e os seus aparelhos e máquinas acabaram por desaparecer em leilão. Para que este grande feito histórico não caísse em esquecimento, para levar o nome da Invicta como a Cidade do Cinema, a Filmaporto Film Commission, que se traduz numa plataforma cujo projeto, além da promoção e regulamentação de filmagens na cidade, visa atribuir bolsas de produção e apoiar a formação.

Este é um projeto de apoio, comunicação, potenciação, explicação das potencialidades da cidade invicta a nível patrimonial e a nível fílmico, de produção e de capital humano. O Filmaporto visa, assim, dar continuidade à missão de facilitar as filmagens na Invicta, de atração de filmagens para a cidade e densificar o seu papel de interlocução com o setor e os seus agentes, de ligação entre o trabalho artístico e o trabalho técnico.

A casa da Comissão situa-se no Batalha Centro de Cinema e pretende ser uma instituição de acolhimento, de visionamento e de encontro. A Filmaporto também pretende participar internacionalmente em plataformas e encontros da indústria em festivais fora do país, onde seja possível explicar a cidade.

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