Questlove fala sobre ‘Summer of Soul’: Um olhar incrível sobre pessoas bonitas a divertirem-se

Em entrevista, o músico e estreante na realização fala sobre o seu documentário vencedor do Óscar – e como os eventos em torno do Festival Cultural de Harlem de 1969 refletem os acontecimentos da atualidade.

A banda The 5th Dimension, um grupo cujo som único ficou conhecido por “champagne soul”, atua no Festival Cultural de Harlem em 1969. Este festival de música ficou informalmente conhecido por Black Woodstock.

Fotografia por Searchlight Pictures/Entertainment Pictures
Por Debra Adams Simmons, David Beard
Publicado 5/04/2022, 11:24

Summer of Soul (... Ou, Quando a Revolução não Pôde Ser Televisionada) venceu o Óscar de Melhor Documentário na 94ª cerimónia dos Óscares no dia 27 de março.

No verão de 1969, durante seis semanas, cerca de 300.000 pessoas reuniram-se no Parque Mount Morris (agora Parque Marcus Garvey) em Nova Iorque para assistir ao Festival Cultural de Harlem. Com a sua quantidade de estrelas e multidões extasiadas, este evento musical rivalizou com o famoso Woodstock, um evento de quatro dias realizado mais tarde a cerca de 160 quilómetros a norte naquele verão. Mas o festival de Harlem, com nomes lendários como Stevie Wonder e Nina Simone, caiu praticamente no esquecimento – e o seu papel enquanto experiência cultural americana definidora foi ignorado desde então.

Em 2021, Ahmir “Questlove” Thompson, baterista da banda Roots, reintroduziu este festival ao público com o seu documentário Summer of Soul (... Ou, Quando a Revolução não Pôde Ser Televisionada), usando imagens dos espetáculos que nunca tinham sido exibidas. Vencedor do Óscar de Melhor Documentário, este filme destaca a importância da verdade histórica e é um testemunho do poder curativo da música em tempos de agitação, tanto no passado como no presente.

(O festival de música mais popular do qual provavelmente nunca ouviu falar.)

Questlove atua como DJ durante a celebração do 100º aniversário do Serviço de Parques Nacionais no Parque Brooklyn Bridge, em Nova Iorque, no dia 22 de agosto de 2016.

Fotografia por Rebecca Smeyne, The New York Times/Redux

Na véspera da cerimónia dos Óscares, Questlove conversou com Debra Adams Simmons e David Beard, editores da National Geographic, numa longa entrevista onde enfatizou que Summer of Soul é uma celebração da alegria negra e a rejeição da tentativa de apagar o passado dos afro-americanos. Enquanto Questlove e a sua equipa editavam o documentário em 2020, durante um aumento no número de mortes devido à COVID-19 e protestos contra a injustiça racial, Questlove sabia que precisava de repor a verdade histórica.

Questlove: Estou muito orgulhoso de Summer of Soul porque, geralmente, quando vemos filmes daquela época sobre os direitos civis e a agitação, muitas vezes vemos a nossa dor, o nosso sofrimento, a nossa tristeza, as nossas lágrimas e o nosso sangue. Mas a alegria negra é, para mim, provavelmente o elemento mais importante na história da luta pelos direitos civis e na luta dos afro-americanos nos Estados Unidos, porque humaniza-nos e as pessoas identificam-se mais connosco. O Festival Cultural de Harlem é simplesmente uma visão incrível de pessoas bonitas a divertirem-se, a desfrutarem alegremente de uma forma que nunca tinha sido vista antes.

Debra Adams Simmons: Existe uma história afro-americana que tem sido apagada ou enterrada, e depois existem estes esforços para restaurar a história. Como é que as pessoas se podem envolver neste trabalho?

Questlove: Este é um daqueles raros momentos em que a expressão “a verdade libertar-te-á” se aplica realmente. Muitas vezes, temos algum desdém pelo passado. Mesmo no mundo do entretenimento, quando eu toco alguma coisa mais antiga, as pessoas costumam ter uma reação de choque ou trauma a qualquer tipo de exploração do nosso passado. Mas eu acredito que não podemos avançar em direção ao futuro até sabermos como foi o passado. Não estou surpreendido que existam esforços para calar a história. Eu acredito que, para quem quer desvendar a verdade histórica, é preciso encabeçar esta luta e ter noção da responsabilidade associada.

Vou ser muito honesto convosco, isto foi muito intimidante para mim. Eu não encarei isto do género... deixem-me ver quais são as músicas do Stevie Wonder e dos Sly & Family Stone que combinam bem. Eu sabia que estava a restaurar a história e coloquei essa pressão sobre mim próprio, e senti que tinha mesmo de fazer as coisas como deve ser. Era como um jogo de basquetebol onde não podíamos falhar. Esta era a minha única oportunidade para fazer um afundanço para o meu povo, e isso foi muito, muito intimidante. E, como é óbvio, eu tinha medo de errar. Mas mantive-me focado diariamente, meditei e acabei, creio eu, por fazer um trabalho muito bonito do qual me orgulho muito.

Acho que há mais coisas para descobrir. E vou arregaçar as mangas e procurar mais histórias para descobrir e mostrar às pessoas.

Esquerda: Superior:

Com a alcunha de “Alta Sacerdotisa do Soul”, Nina Simone atua no Festival Cultural de Harlem em 1969. Nina Simone é amplamente considerada uma das artistas americanas mais emblemáticas do século XX.

Direita: Inferior:

B.B. King definiu o blues enquanto cantor e compositor para as gerações futuras. Nesta imagem, B.B. King atua no Festival Cultural de Harlem em 1969.

fotografias de Searchlight Pictures/Entertainment Pictures

Debra Adams Simmons: Pode falar sobre o título, Summer of Soul, e o subtítulo completo? E como é que chegou a esta expressão e porquê?

Questlove: Em 1969, quando se realizou o Festival de Woodstock, foi um acontecimento que definiu uma geração. É impensável falar sobre o chamado Summer of Love dos anos 1960 e nos hippies sem dizer a palavra Woodstock. O marketing da palavra Woodstock provavelmente fez mais para definir uma geração do que o próprio evento.

Por volta de 1972-73, Hal Tulchin [o produtor do festival de Harlem que fez as filmagens originais] queria explicar claramente aos seus distribuidores televisivos um determinado visual. Ele falou-lhes sobre Woodstock e de como tinha sido mágico, certo? E depois dizia que também tinha algo mágico, que era a versão negra, ou Black Woodstock. Assim, o nosso documentário ficou identificado como Black Woodstock.

No último dia antes de encerrarmos a produção, acordei a minha namorada e perguntei-lhe o que é que ela achava realmente do título? E ela disse que, se eu ia apresentar o meu novo filme ao mundo como Black Woodstock, bom que o podia atirar para o lixo.

Ela disse que seria contraproducente para a minha comunidade e para a minha história se eu baseasse este concerto em algo que veio depois. Este concerto é o original.

Inicialmente íamos chamar-lhe Summer of Soul. Contudo, eu queria – não sei – queria algo mais, ou a minha versão de mostrar o dedo. Para mim, o verdadeiro título é (...Ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada).

Por muito bom que este trabalho esteja, continua a ser um testemunho da história negra apagada.

David Beard: E vem num oportuno, porque enquanto professor em vários estados, podemos ser demitidos só por mencionar a história negra que tem sido apagada.

Questlove: É engraçado como, à medida em que avançamos em direção ao futuro, também avançamos cada vez mais em direção ao passado, e isso é uma pena. Mas sabe, é nestes momentos que temos de estar focados e é quando temos de ser corajosos e ousados. A revolução não vai ser uma coisa segura. A revolução não vai ser apenas algo que arrumamos e resolvemos sucintamente com uma música de embalar e um aperto de mão. O que é correto é correto e o que é verdade é verdade.

Mavis Staples e Mahalia Jackson atuam no Festival Cultural de Harlem em 1969.

Fotografia por Searchlight Pictures/Entertainment Pictures

David Beard: Para mim, um dos momentos mais comoventes no documentário é quando uma pessoa que foi aos concertos começa a questionar se aquilo tinha realmente acontecido. Questiona se tinha sido uma fantasia. Saber que conseguiu captar algo que estava perdido há quase uma geração e colocar isso no ecrã – que conselho tem para dar a todas as pessoas que desejam preencher estas lacunas perdidas na história americana?

Questlove: Sabe qual foi a coisa mais estranha sobre o processo de fazer este filme? Passei o tempo todo a questionar-me se isto seria apenas o único exemplo daquela vez em que filmámos um festival muito bonito e captámos um momento único no tempo. Tinha de haver mais do que isto.

De repente, passadas umas três ou quatro semanas depois do lançamento do documentário, os meus emails e mensagens eram todas semelhantes: “Olá, Questlove, não sei se sabe disto, mas em 1974 fizemos um espetáculo com os Isley Brothers e este e aquele artista”, nomeando todos os espetáculos que fizeram num parque em particular. E tinham cerca de 17 horas de filmagens. Mas estavam na biblioteca da faculdade há décadas e talvez eu estivesse interessado.

Um realizador de renome que na época filmou um programa de concertos semelhante em Chicago, na mesma onda de Summer of Soul, pensou que o seu projeto tinha desaparecido. Mas recentemente encontrou as imagens perdidas e agora está a editar o seu projeto. Há cerca de oito ou nove projetos destes em andamento, mas tenho a sensação desconfortável de que, quando falo sobre uma espécie de ocultação casual da história negra, isso aconteceu por definição – e provavelmente aconteceu centenas de vezes.

Debra Adams Simmons: Pode falar-nos sobre a história que queria contar? Quão importante foi o momento que estávamos a viver em 2020, e em que estamos a viver, para enquadrar a sua perspetiva sobre a direção do documentário?

Questlove: A minha direção criativa para Summer of Soul e a minha intenção eram inicialmente muito diferentes do que acabámos por fazer. Ao início eu só queria fazer uma edição com uma curadoria muito fixe, por assim dizer, de 17 concertos, incluindo todos os espetáculos do dia.

Mas no dia 16 de março de 2020 aconteceu algo. Quando estávamos no início das filmagens, o mundo parou completamente. E a partir de abril, o que estava a acontecer em 2020 começou a parecer um reflexo de 1968-69. De repente, havia tumultos nas ruas e protestos, havia desconfiança sobre o governo, preocupações eleitorais e uma enorme quantidade de mortes. O ar era de cortar à faca, e eu percebi subitamente que o filme que eu pensava que ia fazer ia tomar um rumo completamente diferente.

De alguma forma, com tanto tempo em mãos – porque o mundo tinha parado e eu não estava a dar espetáculos nem trabalhava como DJ – não fiquei distraído. Dediquei o tempo todo a trabalhar neste filme. De repente, sentimos a necessidade de espelhar de alguma forma o que vivemos em 2020, porque sinto que 2020 vai ser tão importante como muitos outros anos nos Estados Unidos, quer seja 1776, 1619, ou 2001, todos anos cruciais que se tornaram em mudanças de paradigma para os Estados Unidos. Portanto, admito que, se não fossem os eventos de março de 2020, o filme que conhecemos agora nunca teria existido. Todos os eventos afetaram o documentário.

Gladys Knight & The Pips atuam no Festival Cultural de Harlem em 1969.

Fotografia por Searchlight Pictures/Entertainment Pictures

Espero que haja uma inundação de revelação após revelação quando este filme sair, porque com base nas cartas de rejeição que Hal Tulchin recebeu pelo seu filme – “Olá, isto é tudo muito interessante... agradecemos o seu contacto, mas não estamos interessados” – este tipo de coisas não ia ter impacto ou interesse. Este é provavelmente um exemplo muito importante sobre o que queremos dizer quando fazemos afirmações como Black lives matter.

Eu tenho amigos que agora me dizem que são os maiores fãs de Gladys Knight & The Pips com base numa cena de dois minutos deste documentário. Portanto, sim, a magia ainda pode acontecer passados 50 anos. E há mais material por aí.

David Beard: As pessoas podem descobrir os Chambers Brothers e depois encontrar a Betty Davis, ou encontrar ligações para as quais Questlove abriu caminho.

Questlove: Bem, sei que vou estar definitivamente muito ocupado nos próximos 10 anos. Quero dizer, praticamente revelei que vou realizar o documentário sobre os Sly & Family Stone. E há cerca de seis ou sete outros projetos em que estou a trabalhar que estão na mesma linha de revelações que estavam escondidas à vista de todos. Mal posso esperar para colocar as mãos nestes projetos para poder restaurar a história.
 

Esta entrevista foi publicada originalmente em inglês no site nationalgeographic.com e editada por motivos de extensão e clareza.

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