Esta mulher navegou 4800 km no Pacífico sem mapas ou tecnologia

A navegação polinésia é uma tradição patriarcal de longa data. Mas Lehua Kamalu está a desafiar os preconceitos – e a ajudar a liderar o renascimento de uma arte antiga.

Por Jordan Salama
Publicado 20/05/2022, 13:52
embarcação Hōkūle'a

A embarcação Hōkūle'a, uma canoa de casco duplo, foi projetada para replicar as embarcações polinésias – e para revitalizar a prática tradicional de navegar pelo sol, estrelas, ondas e vento.

Fotografia por Courtesy of The Polynesian Voyaging Society

Lehua Kamalu tinha apenas alguns minutos para conversar. Lehua estava empoleirada no topo de uma canoa de casco duplo chamada Hōkūle'a no Oceano Pacífico, não muito longe da Grande Ilha do Havai, de onde a sua tripulação tinha acabado de zarpar. Ouvia-se bem o vento a bater no telefone enquanto ela falava. Marinheira e navegadora experiente, Lehua Kamalu estava a chegar a um momento crucial – o início da viagem, onde precisava de toda a sua concentração para determinar o rumo da longa jornada que se avizinhava. “Fazemos uma estimativa sobre o quão longe estamos da ilha”, disse Lehua. “E vamos rumar para sudeste.” Pouco depois, Lehua teve de desligar e já não havia forma de ligar de volta – tanto a Hōkūle'a como os seus 10 tripulantes dirigiam-se para o Taiti, a cerca de 4800 quilómetros e 20 dias de distância.

A Polynesian Voyaging Society é uma organização que navega em alto mar sem a ajuda de tecnologias modernas de navegação. As canoas de casco duplo desta organização, projetadas para replicar as embarcações tradicionais que historicamente cruzaram o Pacífico, têm navegado pelos oceanos nos últimos anos e circum-navegado o globo. O sol e as estrelas são a bússola; as ondas e o vento são os mapas. “É tudo feito mentalmente”, disse Lehua Kamalu, diretora do departamento de navegação da organização. “Rastreamos o vento, avaliamos a nossa velocidade cruzeiro e ajustamos as velas.”

Lehua Kamalu é a primeira mulher comandante e navegadora da embarcação Hōkūle'a – uma das poucas mulheres a liderar o que historicamente tem sido uma tradição patriarcal, passada de avô para neto. Lehua encontra paralelos com a história de Pele, a deusa havaiana do fogo que, reza a lenda, fugiu do Taiti à procura de exílio e atravessou o oceano até ao Havai, abrindo uma “estrada marítima” ancestral entre as duas ilhas – a mesma rota pela qual Lehua Kamalu estava a navegar quando conversámos.

Em 2017, Lehua Kamalu, a primeira mulher comandante e navegadora da Hōkūle'a, navegou com a Polynesian Voyaging Society desde as Ilhas Galápagos até Rapa Nui, mais conhecida por Ilha da Páscoa.

Fotografia por Courtesy of The Polynesian Voyaging Society

“Ela era uma deusa”, disse Lehua Kamalu sobre Pele, “mas também era uma mulher e foi a primeira a navegar realmente e a abrir o caminho desde o Taiti até ao Havai. Portanto, apesar de não ouvirmos falar sobre as histórias das figuras femininas que vieram depois de Pele, esta história é muito, muito poderosa para se levar em consideração.”

Desde a sua viagem inaugural em 1976, a canoa Hōkūle'a já cruzou o Pacífico muitas vezes, incluindo esta viagem em 2017 desde o Taiti ao Havai.

Fotografia por Courtesy of The Polynesian Voyaging Society

‘Uma das grandes histórias da humanidade’

Os especialistas concordam agora amplamente que as ilhas do Pacífico foram colonizadas por marinheiros há vários milhares de anos através de aptidões de navegação baseadas na observação do mundo natural e transmitidas de geração em geração. Contudo, durante os séculos de domínio colonial europeu, as narrativas de “deriva acidental” prevaleceram, sugerindo que os ilhéus indígenas chegaram a estes locais por acaso. Ignorando as tradições orais, os defensores dessa teoria descartaram “as comunidades onde isso faz parte da cultura e da genealogia”, disse Lehua Kamalu. Com o passar do tempo, e com o aparecimento das tecnologias de navegação ocidentais, esta aptidão ancestral de navegação desapareceu gradualmente de muitas partes do Pacífico, incluindo do Havai.

Em 1973, um grupo formado pelo antropólogo Ben Finney, o artista e historiador Herb Kawainui Kāne e pelo marinheiro Charles “Tommy” Holmes tentou revitalizar esta tradição. Estes homens fundaram a Polynesian Voyaging Society, ou PVS, com o objetivo de recuperar os poucos conhecimentos sobre navegação que restavam e testar a hipótese contrária – a da navegação deliberada.

Enquanto procuravam especialistas vivos na Micronésia, os fundadores da PVS encontraram o mestre navegador Mau Piailug no remoto atol de Satawal. Um dos últimos navegadores tradicionais sobreviventes, Mau Piailug tinha aprendido esta arte com o seu avô – recebendo o ritual sagrado de iniciação pwo, de acordo com a tradição micronésia. Mau Piailug estava disposto a partilhar o seu conhecimento com a comunidade havaiana e polinésia em geral.

tripulação
Esquerda: Superior:

Um membro da tripulação comanda o hoe uli, ou remo direcional, numa viagem de Bali até às Maurícias durante a circum-navegação do globo 2014-2017 da embarcação Hōkūle'a.

Direita: Fundo:

Membros da tripulação trabalham juntos para comandar o navio numa viagem das Ilhas Maurícias para a África Sul.

fotografias de Courtesy of The Polynesian Voyaging Society

Com uma equipa de filmagens da National Geographic a bordo, a PVS lançou a sua viagem inaugural em 1976 na recém-criada Hōkūle'a (a mesma canoa que Lehua Kamalu comanda agora). Navegando do Havai para o Taiti com apenas o conhecimento tradicional de Mau Piailug e dos seus aprendizes para os guiar, a tripulação fez a viagem em 34 dias – e foi recebida por cerca de 17.000 pessoas que celebraram efusivamente. Este tipo de viagem não era feito por uma embarcação tradicional há pelo menos 200 anos, e provavelmente há muito mais tempo.

Esquerda: Superior:

A ilustração feita por Ludwig Choris em 1822 mostra os barcos a remo tradicionais usados pelo povo das ilhas Ratak, uma cadeia de ilhas no interior da atual nação das Ilhas Marshall.

Direita: Fundo:

A ilustração feita por Ludwig Choris em 1822 mostra os barcos a remo tradicionais usados usadas no Havai, na altura conhecidas pelos europeus e americanos por Ilhas Sanduíche.

fotografias de Illustration by M. Seemuller, DeA Picture Library, Bridgeman Images

O sucesso da viagem inaugural da Hōkūle'a impulsionou o renascimento da navegação tradicional da Polinésia e um movimento de recuperação histórica e cultural que ainda está em andamento. Quase cinco décadas depois, a PVS já formou milhares de jovens navegadores. O trabalho destes jovens, que é baseado no conhecimento ancestral, na pesquisa de arquivos e na aprendizagem e inovação, tem alcançado os membros das comunidades insulares por todo o Pacífico que estão ansiosos para aprender o que conseguirem sobre as antigas técnicas de navegação.

“As migrações polinésias são uma das grandes histórias da humanidade”, diz Christina Thompson, autora do livro Sea People: The Puzzle of Polynesia. “É muito importante que as pessoas à escala global estejam cientes desta história poderosa.”

“O nascimento da canoa Hōkūle'a aconteceu no meio de um movimento maior de descolonização e recuperação no Pacífico durante a década de 1970, e surgiu especificamente de um movimento que visava recuperar o estudo de outros aspetos da língua e história havaianas. É uma história incrível de poder, de conquista, sucesso e realização. É isso que este tipo de navegação simboliza.”

Respeito pelo mar

“Já consigo ver o ponto de orientação”, disse Lehua Kamalu entre o ruído do vento. “Está a surgir no horizonte.” O nosso tempo ao telefone estava a esgotar-se. Pouco depois, a Hōkūle'a iria chegar ao ponto inicial da sua rota ancestral, a antiga rota marítima entre o Havai e o Taiti, que se faz acompanhar por uma combinação de ventos alísios e correntes – ou “rampas de entrada” e “rampas de saída”. Os ventos tornam a viagem bastante agradável, dizem os navegadores, isto se conseguirem manter uma boa noção de onde estão.

Uma ilustração nos diários de 1773 do explorador britânico James Cook retrata os ilhéus do Taiti a usar embarcações oceânicas de todos os tipos, desde canoas para longas viagens de navegação a barcos e jangadas para passear.

Fotografia por Photograph via Bridgeman Images

Cada comunidade insular tem a sua história particular, explicou Lehua Kamalu. O processo de recuperação envolve quase sempre “um renascimento da cultura, uma lembrança da linguagem, um desejo de olhar para trás e recordar os velhos costumes”. Mas também há novos costumes, sobretudo desde 2008, quando Mau Piailug deu ao presidente do PVS, Nainoa Thompson, permissão para quebrar as fronteiras patriarcais e, eventualmente, conferir a iniciação pwo às mulheres, nomeando-as “mestres navegadoras”.

Esquerda: Superior:
Hōkūle’a relies solely on the wind in its sails for power.
Direita: Fundo:

O sol atinge o pico no horizonte a estibordo da embarcação.

Neste momento, há inúmeras mulheres em formação e, embora nenhuma tenha recebido o chamado pwo, Lehua Kamalu está na linha da frente. “Lehua vai mudar tudo na navegação”, diz o presidente da PVS. “Ela tem o mundo inteiro, todo este mundo incrível, para navegar.”

A PVS também estabeleceu outro objetivo: inspirar maior reverência e respeito pelo mar e pelo mundo natural como um todo, cujo ritmo dita este tipo de navegação. Em 2026, no seu 50º aniversário, a organização espera chegar a mais de 10 milhões de pessoas através de eventos presenciais, aulas online e através das histórias sobre uma circum-navegação de cinco anos e quase 66.000 km do Oceano Pacífico agendada para começar em 2023.

No dia 8 de maio, a Hōkūle'a chegou em segurança ao Taiti. Lehua Kamalu tinha completado a sua viagem histórica — uma viagem que realizou com poucas horas de sono durante quase três semanas, sem qualquer tipo de navegador auxiliar. “Somos a única pessoa que sabe onde estivemos, temos isto tudo na nossa cabeça e é muito difícil transmiti-lo a outra pessoa. Estamos constantemente a acompanhar o nosso progresso ao longo desta rota ancestral.”

Saber de onde viemos é o primeiro passo para saber para onde vamos. Para Lehua Kamalu, as respostas estão escritas nas estrelas.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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