Fotogrametria 3D revela a maior caverna de arte rupestre da América do Norte

Esta obra gigante é praticamente invisível a olho nu, mas a tecnologia avançada ajudou a descobrir a sua composição impressionante.

Publicado 5/05/2022, 14:34
figura humana esculpida no teto de lama da caverna

Uma figura humana esculpida no teto de lama da caverna (delineada a preto) é uma das várias representações em tamanho real – entre as maiores da arte rupestre americana – recentemente descobertas na “19ª Caverna Sem Nome” do Alabama. Esta designação prosaica e sistemática da caverna visa evitar que esta seja danificada por saqueadores ou espeleólogos amadores que desconhecem o ambiente delicado em torno desta obra-prima.

Fotografia por Stephen Alvarez; Ilustração de Jan Simek

No Alabama, nas profundezas escuras de uma caverna de calcário, há figuras em tamanho real que abrangem os reinos terrestre e espiritual. Traçada à luz de tochas há mais de mil anos no teto de lama desta caverna está uma cena tão extensa e ténue que é impossível de discernir a olho nu – ainda assim, estas gravuras antigas estão a ser celebradas como uma das maiores criações de arte rupestre de toda a América do Norte, e a maior alguma vez descoberta numa caverna.

Num estudo publicado esta semana na revista Antiquity, os investigadores descrevem a forma como usaram um processo conhecido por fotogrametria 3D, originalmente desenvolvido para captar vastas extensões da Terra através de fotografias aéreas, para descobrir as imagens enigmáticas que estão escondidas num sistema subterrâneo na região sudeste dos Estados Unidos, conhecido apenas pela designação “19ª Caverna Sem Nome”. A sua localização não é revelada para evitar que saqueadores ou espeleólogos amadores possam danificar ou destruir estas obras de arte antigas, quer seja por motivos de lucro ou inadvertidamente.

Stephen Alvarez, fotógrafo e colaborador da National Geographic, é fundador da organização Ancient Art Archive e está a produzir um modelo 3D foto realista de alta resolução de obras de arte com mil anos de idade, que foram gravadas no teto de lama da 19ª Caverna Sem Nome do Alabama. O espaço no interior da câmara desta caverna para os investigadores da atualidade trabalharem – e artistas da antiguidade – é de menos de um metro na vertical.

Fotografia por Alan Cressler

Jan Simek, arqueólogo da Universidade do Tennessee, em Knoxville, e autor principal do estudo, já tinha estado anteriormente no interior da 19ª Caverna Sem Nome. No primeiro estudo feito sobre esta caverna cársica em 1998, Jan Simek e o coautor do estudo atual, Alan Cressler, descreveram os tetos da caverna cobertos de glifos como “a manifestação mais a sul do que agora reconhecemos como uma tradição artística pré-histórica generalizada” por toda a América da Norte antes da chegada dos colonizadores europeus.

Agora, com a ajuda de um modelo 3D, os investigadores descobriram ainda mais arte rupestre na 19ª Caverna Sem Nome – desta vez, as imagens são praticamente invisíveis a olho nu e estão num local que nunca se imaginou ser o lar de arte rupestre em tamanho real. A altura da câmara da caverna é tão baixa que os espeleólogos precisam de se baixar – ou deitar – para verem o teto. E os antigos criadores destas gravuras devem ter feito o mesmo.

“Existem milhares e milhares de gravuras no teto da caverna”, diz Stephen Alvarez, fotógrafo e coautor do estudo.

Segundo os investigadores, se isto está numa caverna do Alabama, também pode estar noutras.

‘As pessoas que estiveram lá antes’

Traçadas no teto de lama da caverna por artistas ousados e preservadas ao longo de um milénio até serem descobertas, estas gravuras enormes foram criadas – e descobertas – num local inóspito.

Nesta sequência vemos uma forma humana com um traje cerimonial numa fotografia (à esquerda), sobreposta com uma ilustração (ao centro) e a própria ilustração. Apesar de esta figura ter mais de um metro e oitenta de altura, não é possível ser contemplada na sua totalidade, mesmo que uma pessoa esteja deitada no chão da caverna.

Fotografia por Stephen Alvarez; Ilustração de Jan Simek

Jan Simek é dos maiores especialistas em arte rupestre da região sudeste da América do Norte e está plenamente ciente dos muitos inconvenientes existentes na 19ª Caverna Sem Nome: quase 5 quilómetros de corredores húmidos e escuros, com grande parte da arte rupestre visível concentrada nos tetos de passagens com pouco mais de meio metro de altura.

“Os ambientes das cavernas podem ser muito desagradáveis”, diz Jan Simek. “Não exploramos as cavernas porque gostamos, exploramos as cavernas porque é nas cavernas que estão as coisas.”

Stephen Alvarez é colaborador frequente da National Geographic e também fez da espeleologia a sua carreira. Stephen Alvarez também é o fundador da Ancient Art Archive, uma organização sem fins lucrativos que se dedica à utilização de tecnologia de ponta para preservar arte antiga.

“Eu gostava de explorar as maiores cavernas do mundo porque queria ser a primeira pessoa a visitá-las”, diz Stephen Alvarez, que cresceu a explorar as inúmeras cavernas do Tennessee. Mas quando Stephen descobriu arte rupestre, “fiquei muito mais interessado nas pessoas que estiveram lá antes”.

Estas obras-primas da antiguidade foram descobertas graças à fotogrametria 3D, uma tecnologia emergente que cria modelos tridimensionais com base em fotografias sobrepostas. Os cartógrafos já usam esta tecnologia há anos, tirando partido da sobreposição de fotografias aéreas para inferir as características físicas da Terra e criar mapas topográficos.

Mas não é preciso estar num avião para produzir fotogrametria. Com o equipamento adequado, a equipa certa e muita paciência, este processo também pode ser efetuado no subsolo.

Com uma câmara digital, iluminação LED e um equipamento fotográfico montados alternadamente no chão seco da caverna ou em trechos de água pela altura do joelho, a equipa passou dois meses no subsolo a captar cada centímetro do teto da câmara principal da 19ª Caverna Sem Nome— 16.000 imagens no total.

No entanto, grande parte do trabalho ainda estava por vir e exigia a transferência e o processamento de cada imagem de 50 megapixéis para gerar um modelo 3D maior. (“A enorme quantidade de dados derreteu o nosso primeiro computador”, diz Stephen Alvarez.)

À medida que as imagens iam sendo dispostas por camadas e o programa extrapolava um modelo digital do teto da caverna, os investigadores reuniam-se para ver os primeiros resultados, ansiosos para detetar os detalhes mais salientes ou os pormenores demasiado ténues, detalhes impossíveis de discernir através de uma observação presencial ou a partir das fotografias tiradas no local.

Um modelo gerado a partir de cerca de quatro mil fotografias mostra o teto completo da 19ª Caverna Sem Nome, com a localização dos glifos identificados em silhueta. “São milhares e milhares de gravuras”, diz o investigador e fotógrafo Stephen Alvarez.

Fotografia por Stephen Álvarez

“Estava a tentar mostrar ao Jan a nova figura de uma cobra que eu tinha descoberto, quando ele disse: ‘E aquele grandalhão ali mesmo à frente?’”, recorda Stephen Alvarez.

“Grandalhão” era um eufemismo: as figuras que começaram a emergir das fotografias, algumas entalhadas tão finamente que eram invisíveis a olho nu, estavam à escala real. A maior, uma figura semelhante a uma cobra com as marcas distintas de uma cascavel Crotalus adamanteus – um símbolo poderoso nas tradições indígenas do sudeste norte-americano – tinha mais de 3 metros de comprimento. A equipa diz que esta é a maior peça de arte rupestre de que há conhecimento na América do Norte e que, dado o seu tamanho, nunca se pensou que algo assim existisse no sudoeste americano.

‘Criaturas espirituais com características humanas’

Há outros glifos – o estudo só descreve os cinco maiores – que são mais pequenos, mas não menos impressionantes, e retratam figuras humanas que parecem ostentar trajes cerimoniais.

Os glifos são completamente diferentes das outras figuras mais familiares que Jan Simek já encontrou em cavernas nas proximidades, pelo que o arqueólogo é cauteloso ao atribuir qualquer tipo de significado ou intenção a estas obras de arte da antiguidade. Ao mesmo tempo, Jan Simek admite que “as criaturas espirituais com características humanas” têm paralelos com outras formas de arte rupestre encontradas no sudeste da América do Norte e não só.

“As pessoas ‘mapeavam’ o seu universo conceitual no mundo natural onde viviam”, escreve Jan Simek, transformando as cavernas físicas numa representação poderosa dos submundos existentes no seu sistema de crenças.

Com a ajuda de tochas e outras ferramentas, os artistas da antiguidade parecem ter projetado deliberadamente – e executado habilmente – as figuras. Ao contrário da arte rupestre encontrada em lugares como a Caverna de Chauvet, em França, os artistas neste local não dependiam dos pigmentos minerais, e provavelmente criaram os entalhes no teto de lama com ferramentas, ou com os dedos, enquanto estavam agachados ou deitados na câmara da caverna.

“Agora imaginem o que é fazer isto à luz de tochas”, diz Stephen Alvarez. “Só tinham uma oportunidade para fazer as coisas bem. Talvez a forma como se cria arte seja tão importante quanto a própria arte.”

Apesar de os investigadores só conseguirem especular sobre as especificidades das técnicas ou crenças dos artistas que usaram estas cavernas, os especialistas já sabem muito sobre a vida durante o chamado Período da Floresta, entre 1000 a.C. e 1000 d.C, onde atualmente fica o Alabama. Uma análise feita a fragmentos de cerâmica, bem como a datação por radiocarbono do carvão e de uma tocha encontrados no interior da caverna – um trabalho financiado em parte pela National Geographic Society – colocam a criação desta obra de arte algures entre os séculos II e X d.C.

Naquela época, os habitantes indígenas da região estavam envolvidos num processo a longo prazo de domesticação e cultivo de culturas como girassol. Estas inovações deram início a um “período de mudanças económicas e sociais significativas”, diz Jan Simek.

A presença de arte rupestre com esta magnitude na região sudeste da América do Norte “só vem enfatizar que as ideias já estavam a fluir de um lado para o outro neste continente antes de haver contacto com os europeus”, diz Stephen Alvarez. Esta descoberta contraria o conceito de que as grandes figuras de arte rupestre só estavam retratadas mais a oeste, em lugares como Utah, Texas ou na Baixa  Califórnia.

Esta investigação também levanta outras questões sobre quando exatamente é que o trabalho de um arqueólogo está terminado. O estudo sugere que, no mundo subterrâneo, ainda há muito para descobrir – e até mesmo os locais que já foram descartados podem vir a ser candidatos a estudos de fotogrametria, e podem vir a revelar artefactos que ainda ninguém viu.

Jan Simek diz que talvez a arte encontrada na 19ª Caverna Sem Nome seja mais comum do que imaginamos, simplesmente ainda não descobrimos a forma certa de a procurar. “Contudo, os investigadores que procuram outras obras de arte antigas estão a lutar contra a erosão natural destes ambientes delicados e as ações de outros humanos.”

“Basta tocarmos no teto para desaparecerem”, diz Stephen Alvarez.

Ainda mais complicado é o emaranhado de questões levantadas pela localização das próprias cavernas. Muitas destas cavernas nos EUA estão localizadas em propriedades privadas ou pertencem a pessoas que não possuem os recursos financeiros e a segurança necessários para preservar e manter adequadamente a arte rupestre. “E temos um dos programas de proteção patrimonial mais ineficazes de qualquer país civilizado do planeta”, acrescenta Jan Simek.

Os arqueólogos da região sudeste têm tentado combater esta situação, começando com o nome da caverna – que permanece no anonimato para manter os possíveis observadores (ou saqueadores) longe da caverna.

“Nós nunca fornecemos a localização das cavernas”, escreveram Jan Simek e Alan Cressler num artigo apresentado em 1999 durante um simpósio sobre gestão de cavernas. “E nunca confirmamos ou negamos as alegações feitas por arqueólogos e espeleólogos.”

Portanto, o que é que os investigadores podem confirmar sobre a misteriosa caverna e as figuras igualmente enigmáticas gravadas na mesma?

“Vai levar anos até que as pessoas consigam descobrir o que há naqueles tetos”, diz Stephen Alvarez. “Quando penso na totalidade das gravuras presentes naquele teto com 4 mil metros quadrados, é algo que coloco ao lado das coisas mais incríveis que já vi na vida.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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