Túnel secreto revela procissão de antigos deuses

As divindades assírias do trovão e da lua foram reveladas por arqueólogos numa câmara subterrânea originalmente descoberta por saqueadores.

Publicado 12/05/2022, 11:29
escultura rupestre com 3000 anos

Os perfis fantasmagóricos de deuses antigos emergem de uma escultura rupestre com 3000 anos na Turquia. A polícia turca rastreou saqueadores até um complexo subterrâneo, provavelmente construído durante uma época em que o Império Assírio se estava a expandir nesta região durante o século VIII a.C.

Fotografia por Y. Koyuncu e M. Önal , Antiquity Publications Ltd

Esta procissão divina é liderada por Hadad, o deus mesopotâmico das tempestades (à direita, a segurar um trio de relâmpagos); o deus da lua Sîn; o deus do sol Šamaš; e Atargatis, a deusa local da fertilidade, todos identificados com inscrições em aramaico.

Fotografia por M. Önal,, BASEADO EM SCAN A LASER POR CEVHER MIMARLıK, ANTIQUITY PUBLICATIONS LTD, Antiquity Publications Ltd

Os arqueólogos descobriram esculturas raras de antigos deuses assírios num complexo subterrâneo no sudeste da Turquia – uma descoberta sem precedentes que pode apontar para o uso da chamada “política branda” numa região fronteiriça do império mais poderoso do mundo há quase 3000 anos.

A cena esculpida retrata pelo menos seis deuses, incluindo Hadad, o deus mesopotâmico das tempestades; o deus da lua Sîn; o deus do sol Šamaš; e Atargatis, a deusa local da fertilidade. Este achado foi descrito num artigo publicado na revista Antiquity.

A natureza desta descoberta também é invulgar: a polícia encontrou o complexo em 2017, depois de seguir uma passagem secreta desde as passagens subterrâneas até uma casa moderna de dois andares na vila de Başbük, a cerca de 50 quilómetros da cidade de Şanlıurfa.

Segundo o coautor do artigo e filólogo Selim Ferruh Adalı, da Universidade de Ciências Sociais de Ancara, parece que este complexo foi desenterrado pela primeira vez quando a casa estava a ser construída, há muitos anos. Mas a descoberta não foi relatada às autoridades, como exige a lei turca; em vez disso, os saqueadores criaram um túnel desde a casa até às passagens subterrâneas. Mas acabaram por ser capturados e aparentemente não danificaram as esculturas.

Mehmet Önal, autor principal do artigo e diretor do departamento de arqueologia da Universidade de Harran, em Şanlıurfa, viu pela primeira vez as esculturas subterrâneas à luz intermitente de um candeeiro a gás.

“Senti como se estivesse num ritual”, diz Mehmet Önal. “Quando fui confrontado com aqueles olhos expressivos e o rosto majestoso e sério do deus da tempestade Hadad, senti um leve tremor no corpo.”

Estilo imperial, simbolismo local

Este complexo subterrâneo consiste em centenas de metros de passagens, escadas e galerias escavadas na rocha. Tanto o complexo como as esculturas parecem inacabados, e os investigadores especulam que a construção parou inesperadamente, provavelmente no início do século VIII a.C.

Ao lado das esculturas está uma inscrição que revela parcialmente um nome, e que os investigadores acreditam ser Mukīn-abūa. Este pode ser o Mukīn-abūa listado nos registos assírios há cerca de 2700 anos como governador da capital da província de Tušhan, a cerca de 145 quilómetros a leste da atual Başbük.

Selim Ferruh Adalı sugere que, se esta leitura estiver correta, Mukīn-abūa pode ter ordenado a construção deste complexo subterrâneo e da arte rupestre, mas os trabalhos foram interrompidos quando este deixou de ser governador.

Os deuses antigos estão retratados em procissão ao longo de um painel de 3,6 metros inscrito na rocha. Seis rostos podem ser vistos e quatro dos deuses são identificáveis – o deus da tempestade Hadad, por exemplo, exibe um trio de relâmpagos. Cada retrato foi delicadamente esculpido, o maior dos quais tem mais de um metro de altura e mostra a cabeça e a parte superior do corpo de um deus com linhas destacadas a tinta negra, possivelmente usada como um guia enquanto os artistas criavam o relevo das figuras.

Selim Adalı sublinha que, embora algumas das características dos deuses sejam distintamente assírias – como as suas poses rígidas e o estilo particular da barba e do cabelo – há muitos detalhes que mostram fortes influências da cultura aramaica local. Os aramaicos viveram nesta região durante séculos antes de ficarem sob o jugo do Império Assírio, que no século IX estava em rápida expansão, servindo assim os reis que viviam muito a leste, na região norte da Mesopotâmia.

Selim Adalı também salienta que as inscrições ao lado das esculturas estão escritas em aramaico e designam os deuses pelos nomes aramaicos, e não pelos nomes assírios. “Encontramos sobretudo um simbolismo aramaico, fundido com o estilo assírio”, diz Selim, acrescentando que esta mistura deliberada pode ter sido uma tentativa dos governantes assírios se aproximarem dos líderes locais, em vez de governarem pela força.

O arqueólogo Davide Nadali, da Universidade Sapienza de Roma, concorda que esta mistura única de características assírias e aramaicas nas esculturas revela informações interessantes sobre a relação política entre o poderoso império e um dos seus principais territórios.

“As inscrições em aramaico enfatizam a intenção de dialogar com as comunidades locais, [ao passo que] o uso do estilo figurativo assírio mostra a necessidade de interagir com o poder político assírio”, conclui Davide Nadali.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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