‘Esta sou eu, como eu sou’: uma fotógrafa documenta a sua própria mudança de género

Em 2015, Allison Lippy percebeu quem tinha sido desde sempre – e virou a câmara para si própria, para compreender a sua jornada como mulher transgénero.

Por Allison Lippy
Publicado 30/06/2022, 11:21
transformação

Dois pontos no tempo, uma imagem do meu rosto antes da operação à esquerda, retratando o meu antigo eu em 2014, e um rosto pós-operatório à direita, tirada em 2018 após a cirurgia de feminização facial. Ambas as imagens nos extremos são como os suportes de livros que sustentam uma jornada, representando a transformação de um rosto e as mudanças subjacentes. Usar a arte como uma forma de dar sentido ao que eu passei, e para onde me estava a dirigir, foi terapêutico e muito elucidativo.

Fotografia por Photo Illustration by Allison Lippy

Demorei 27 anos a perceber que era transgénero, mas apenas um mês ou dois para decidir fazer a transição física. Contudo, demorei muito menos tempo para perceber que devia documentar a minha transformação – para mim e para qualquer outra pessoa que precisasse de ver.

Devo começar pelo princípio.

A fotografia à esquerda, quando eu tinha 27 anos, marca o primeiro dia da minha transformação, a 7 de abril de 2015. A fotografia ao centro, tirada a 18 de maio de 2015, documenta a desconexão entre mim e meu antigo eu. A fotografia à direita, tirada no dia 25 de julho de 2015, é um reflexo da compreensão sobre a investigação que eu estava a fazer, onde percebi que as hormonas e bloqueadores hormonais iriam provocar mudanças físicas. Sem saber como é que isto ia afetar especificamente o meu corpo, havia uma ansiedade subjacente devido ao desconhecido, dado que os resultados variam de pessoa para pessoa.

Fotografia por Allison Lippy

Quando eu era criança em Baltimore, na década de 1990 e início de 2000, não sabia que as pessoas podiam ser outra coisa para além do género que lhes tinha sido atribuído no nascimento. Não havia recursos ou modelos disponíveis naquele momento para eu começar a compreender quem era.

No entanto, havia pequenos indícios da minha feminilidade, o sentimento de ser diferente, algo intangível. Eu nunca partilhei nem tive a oportunidade de explorar estes sentimentos até aos meus vinte e poucos anos. Quando eu tinha 21 anos, encontrei vídeos de mulheres transgénero no YouTube a falar sobre as suas transições. Eu regressava periodicamente a estes vídeos para ver as atualizações, algo que me intrigava. Durante este tempo eu dizia a mim própria que se tratava apenas de uma pesquisa para um artigo que eu queria fazer sobre a identidade transgénero. Eu ainda não estava pronta para me confrontar sobre a verdade.

No dia 22 de agosto de 2015, já havia algum sentimento de entusiasmo, de querer documentar e ver a minha evolução ao longo do tempo.

Fotografia por Allison Lippy

Mudei-me para Nova Iorque em 2011. A indústria fotográfica manteve a minha mente e corpo ocupados a trabalhar e distraiu-me das introspeções. Em 2015, eu estava sentada no consultório da minha terapeuta quando ela mencionou casualmente uma pessoa – uma celebridade – que se tinha assumido como transgénero. Não me recordo do contexto dessa conversa. Creio que não estava a prestar muita atenção ao que ela estava a dizer. Mas lembro-me de pensar que aquilo era interessante

Aquele comentário inofensivo foi a faísca que faltava para eu parar de ignorar o que andava a marinar no meu subconsciente. Quando estava em casa, sozinha com os meus pensamentos, eu ponderava sobre a minha identidade. Interrogava-me várias vezes. Será que sou transgénero? Será que sou uma mulher? Eu dizia a mim própria que provavelmente não era. Mas depois pensei que, talvez fosse, e andei a remoer nisto. Mas com o passar dos dias e semanas, a resposta ficou clara. Sim, sou.

Eventualmente, percebi que tinha de aceitar quem era.

Esquerda: Superior:

2 de janeiro de 2016. Houve dias em que senti realmente o peso da discrepância entre a forma como me via no reino físico e como isso não estava alinhado com as minhas expectativas.

Direita: Fundo:

26 de março de 2016. Os efeitos que as hormonas por si só têm no corpo humano, sem qualquer intervenção cirúrgica, podem ser bastante significativos. Com o passar do tempo, a minha pele começou a ficar mais macia, o tecido mamário começou a desenvolver-se e as diferenças físicas tornaram-se mais visíveis.

fotografias de Allison Lippy

Todo o desconforto que eu sentia fez finalmente sentido; todas as peças do puzzle encaixaram pela primeira vez. Tudo simplesmente encaixou. Confiante e animada, comecei a tentar fazer as coisas depressa para recuperar o tempo perdido.

Primeiro contei à minha terapeuta, só para testar as águas, e depois à minha mãe, que felizmente foi a minha âncora durante todo este processo. Tenho a sorte de todos na minha vida – incluindo os meus pais, irmão e amigos – estarem genuinamente recetivos.

Esquerda: Superior:

20 de abril de 2016. Cinco dias depois de passar por um procedimento medicamente invasivo e doloroso conhecido por cirurgia de feminização facial, apontei a câmara para mim própria. Esta cirurgia altera a estrutura óssea para remover os efeitos da testosterona que moldaram inicialmente o crânio. Ainda com elementos das minhas características passadas, comecei a perceber que ainda ia demorar algum tempo até que o meu “novo” rosto se estabelecesse por cima do crânio reconstruído.

Direita: Fundo:

28 de maio de 2016. Este foi o meu primeiro vestido, um presente oferecido por outra mulher e amiga transgénero. Eu nem sequer estava a meio do caminho de onde queria estar fisicamente, e sentia-me como um trabalho ambulante em desenvolvimento.

fotografias de Allison Lippy
Esquerda: Superior:

22 de maio de 2017. Deixei de cortar o cabelo durante algum tempo porque demorou a crescer até ficar com um comprimento com o qual eu me sentisse mais confortável.

Direita: Fundo:

Ter um físico feminino não representa a totalidade de quem sou. Para mim, ser uma mulher feminista é ser um indivíduo, onde escolho o meu próprio caminho do que é certo para mim e para o meu corpo.

fotografias de Allison Lippy

Em última análise, devo a minha própria existência aos transgénero mais velhos, sobretudo os queer indígenas, negros, asiáticos e latinos. Eles é que andaram nas ruas e nas nossas comunidades a fazer o trabalho árduo, a abrir o caminho para nós descobrirmos e vivermos autenticamente como somos. Pioneiras, como Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e inúmeras outras, levantaram-se e lutaram pela nossa comunidade numa época em que a visibilidade e representatividade eram praticamente inexistentes.

Poucos meses depois de me assumir, comecei a tomar hormonas – e comecei a fazer autorretratos. Virar a câmara para mim foi uma forma de compreender onde tinha começado e onde ia terminar. Enquanto fotógrafa e alguém que não encontrou imagens positivas de pessoas transgénero quando era criança, senti que tinha a responsabilidade de contar a minha história através da minha própria perspetiva queer.

29 de maio de 2022. Ao ser uma mulher transgénero, que também é fotógrafa, percebo a importância da representação do eu e como isso pode ser uma ferramenta poderosa. Ver a história de uma pessoa queer da sua própria perspetiva revela algo que, de outra forma, poderia passar despercebido.

Fotografia por Allison Lippy

Não pretendo representar todas as pessoas transgénero. Assim como não há uma maneira de ser humano – não há uma maneira correta ou errada de fazer esta transição. Cada um de nós tem o seu próprio caminho.

No meu caso, esse caminho passou por uma transformação médica. Em 2016, passei por cirurgias de feminização facial e redesignação de género. A cirurgia de feminização facial reconstruiu o meu crânio – foi necessário raspar osso para remover os efeitos da testosterona. Embora isto possa parecer extremo, imagine descobrir quem é na realidade e depois olhar para espelho e ver outra pessoa. As cirurgias foram dolorosas, mas a jornada para sermos nós próprios não se faz sem dor, que por vezes é física e mental.

Agora é difícil olhar para as fotografias antigas de família. Eu gostava de ter sido eu antes. Mas quando olho para as fotografias do início deste projeto, vejo uma pessoa que está numa jornada para ser o seu verdadeiro eu. E mais para o final, há algumas imagens em que penso: ‘Esta sou eu, como sou. Não tenho arrependimentos.’

Allison Lippy é uma fotógrafa que vive em Brooklyn e cujo trabalho explora a convergência de identidade, cultura e ciência em espaços transicionais. Pode encontrá-la no Instagram

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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