Nesta parte da China, são as mãos – e não as máquinas – que definem o ritmo da vida

Algumas aldeias na província montanhosa de Yunnan ainda não adotaram a tecnologia mecanizada.

Por Paul Salopek
Publicado 6/06/2022, 11:49
montanha Yunnan

A China é conhecida como a fábrica do mundo, porém, para muitos aldeões escondidos nas montanhas de Yunnan, são as mãos – e não as máquinas – que definem o ritmo da vida.

Fotografia por Paul Salopek

O projeto Out of Eden Walk, do Escritor e Explorador da National Geographic Society Paul Salopek, é uma caminhada narrativa que percorre 38.600 km em todo o mundo, seguindo os passos dos nossos antepassados humanos. Paul Salopek envia este relato da província de Yunnan, na China.

SONGPO, YUNNAN, CHINA – Se olharmos para as mãos de um agricultor, são robustas e estão cheias de calos. Estão bronzeadas pelo sol.

Se as observarmos até ao solo, podemos pensar quantas vezes é que fizeram esta tarefa? Mil vezes? Dez mil? Mais? Contudo, estas mãos são incapazes de uma consistência automatizada. Ao longo da sua vida profissional, nunca irão levantar uma enxada da mesma maneira duas vezes. Ou podemos estudar os dedos de um tecelão de vime: as suas cestas brilham devido aos pequenos e belos erros humanos. Ou as mãos grandes e robustas dos pedreiros – da aldeia – que constroem casas simples que, na verdade, são esculturas habitáveis: cada parede e cada canto são únicos, e nunca estão totalmente aprumados. São mãos confiantes. Mãos inteligentes. Mãos sábias, até. Mãos que realizam tarefas do quotidiano com uma espécie de autoridade, como se tivessem um poder inexplicável.

Enquanto caminho por Yunnan, fico fascinado com um mundo estranho, desigual e feito artesanalmente.

Porquê estranho?

Os feixes debulhados à mão produzem um arroz precioso, um processo feito desde que há memória.

Fotografia por Photo by Zhou Na, National Geographic

Porque estamos na China do século XI – com o seu panorama estereotipado de cidades gigantes hiperativas, comboios de alta velocidade extremamente pontuais, centros comerciais super iluminados e portas de acesso USB de alta tecnologia – a famosa “fábrica do mundo”. Uma economia cuja exportação responde à vasta procura da humanidade por telemóveis, brinquedos de plástico, painéis solares, roupas e inúmeros outros artigos de produção industrial em massa. (Precisa de um portátil? A China exporta 47 milhões de computadores por mês.)

No entanto, nas escarpas e vales da província ocidental de Yunnan, na fronteira com Mianmar e o Tibete, existe um reino surpreendentemente diferente: um reduto de comércio manual e artesanal. Um cosmos de aldeias improvisadas e estradas sinuosas.

“É um local demasiado íngreme para a agricultura industrial”, diz Shen Jisheng, que planta milho e batatas à mão no topo de um vilarejo rodeado por pinheiros chamado Songpo. “Portanto, tudo o que fazemos é orgânico.”

Para quem apanha maçãs em Yunnan, não é preciso para fazer uma pausa para lanchar.

Fotografia por Paul Salopek

Shen Jisheng não está a exagerar. Os fertilizantes que usa são uma mistura caseira de agulhas de pinheiro e fezes de porco. E usa uma vara de madeira esculpida à mão para limpar o milho. As cestas de ombro tecidas artesanalmente guardam as colheitas. Os pequenos campos de cultivo de Shen Jisheng também contrariam a geometria rígida imposta pelo mundo mecânico – são irregulares, disformes, arredondados.

“Compramos o baijiu na cidade”, diz a esposa de Shen, Wang Liusui, referindo-se a uma bebida que muitas vezes é produzida em massa na China e que deixa os lábios dormentes.

Com um fogão a lenha, as refeições preparadas por Wang Liusui incluem produtos selvagens da floresta, como plantas fritas.

 

A muralha montanhosa só explica parte da razão pela qual a região oeste de Yunnan tem escapado ao tsunami da industrialização que se propagou por grande parte da China. Os antigos modos de vida desta região provavelmente também são preservados devido à sua teia complexa de minorias étnicas. Historicamente menos abastados do que a maioria dominante Han, grupos como os Lisu, Mosuo, Naxi e Yi continuam em grande parte ligados às antigas práticas rurais. (Shen Jisheng e Wang Liusui são de etnia Bai.)

Durante uma caminhada de três meses pelo interior acidentado de Yunnan, começando perto de Tengchong, junto à fronteira com Mianmar, e caminhando mais de 800 quilómetros para norte até uma cidade turística chamada Lijiang, encontrei uma variedade tão inimaginável de ocupações medievais que até comecei a fazer uma lista.

Os agricultores de subsistência são abundantes neste canto esquecido da China.

Há reparadores de panelas de alumínio nas montanhas de Gaoligong, ou homens que prensam óleo de noz em Lujiang, destiladores de óleo de eucalipto ao longo do rio Nu e moedores de pimenta em torno de Dali. Conheci cesteiros, transportadores, pessoas que colhem cogumelos selvagens, tecelões que trabalham nos seus quintais e lenhadores que se especializam em retirar colmeias de árvores ocas. Tem sido um prazer – e até reconfortante – atravessar o mundo mais lento, com uma escala mais humana, que estas pessoas construíram.

“É reconfortante” diz Paul Salopek sobre o que sente enquanto caminha pelo mundo antigo de Yunnan.

Fotografia por Photo by Paul Salopek

Eu sei.

Não devemos romantizar a pobreza. Não devemos encarar o subdesenvolvimento como uma coisa exótica. Não nos devemos perder em fantasias ingénuas sobre a ausência de dificuldades na vida pré-industrial. Por outro lado, uma fantasia maior é acreditar que a economia produzida em massa pela humanidade, conforme está configurada atualmente, está perto ser sustentável.

“Há anos atrás, eu tinha dez mulas, mas agora só tenho duas”, diz Luo Shi Ming, um condutor de mulas idoso que ajudou a carregar o meu equipamento pelos trilhos sinuosos da montanha Cang, no oeste de Yunnan.

Luo Shi Ming ganhou bom dinheiro a transportar equipamentos modernos de construção e sacos de cimento para a sua região, que outrora era isolada. Mas estas cargas acabaram com o seu comércio de caravanas. O cimento ajudou a construir estradas novas. Algumas das suas mulas agora aposentadas, diz Luo Ming melancolicamente, eram mais espertas do que as pessoas.

Enquanto isso, as superfícies monótonas do nosso mundo construído por máquinas – super-estradas de betão e produtos embalados em celofane – avançam de forma consistente pela região oeste de Yunnan.

Se estudarmos as mãos de Luo Ming, estão marcadas pelas velhas cordas de couro de búfalo. São mapas humanos. Parecem os trilhos desgastados da Rota da Seda que foram palmilhados durante séculos em Yunnan.

“Ganhei bom dinheiro recentemente”, diz Luo, “a transportar equipamentos de construção e cimento para as montanhas”. Contudo, a carga transportada pelas suas mulas ajudou a acabar com o seu comércio de caravanas. O cimento está a pavimentar novas estradas.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financia desde 2013 o trabalho do Explorador Paul Salopek e o projeto Out of Eden Walk.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

História
Apesar do aviso ‘Icebergue, mesmo à frente!’, o Titanic estava condenado
História
Questlove fala sobre ‘Summer of Soul’: Um olhar incrível sobre pessoas bonitas a divertirem-se
História
Os problemas e triunfos que moldaram 2021
História
O festival de música mais popular do qual provavelmente nunca ouviu falar
Viagem e Aventuras
As peregrinações podem ser a próxima tendência de viagem pós-COVID

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados