Revelado o naufrágio de ‘barco de festas’ da realeza

O H.M.S. Gloucester afundou-se há 340 anos enquanto transportava o futuro rei de Inglaterra.

Por Roff Smith
Publicado 15/06/2022, 15:20
 H.M.S. Gloucester

Os irmãos Lincoln e Julian Barnwell descobriram o H.M.S. Gloucester em 2007, mas esta descoberta foi mantida em segredo até recentemente. “Mergulhei e vi canhões espalhados por todo o lado no fundo do mar”, diz Lincoln. “Foi inesquecível.”

Fotografia por Norfolk Historic Shipwrecks

Uma manhã tempestuosa na primavera em 1682 deve ter oferecido uma visão incrível –  uma fragata magnífica com 50 canhões, uma popa dourada e um estandarte real a estremecer no mastro superior. O navio, o H.M.S. Gloucester, era um veterano da Guerra Anglo-Espanhola. Agora ao serviço real, a embarcação rumava junto à costa até Edimburgo para ir buscar Mary, esposa do duque de York, e levá-la para Londres.

A bordo estava o próprio duque, irmão mais novo do rei Carlos II e herdeiro do trono inglês. O duque e dezenas de acompanhantes viajavam em primeira classe, com iguarias selecionadas para comer, vinhos raros para beber e músicos à disposição para proporcionar entretenimento.

Com 50 canhões, a fragata real H.M.S. Gloucester colidiu com um banco de areia e naufragou em 1682. Este acidente contribuiu para a queda do rei Jaime II.

Fotografia por Photograph via Wikiemedia Commons

“O Gloucester era um festival”, brinca Sean Kingsley, historiador marinho e fundador da revista Wreckwatch. “O duque e os seus companheiros divertiam-se à grande.” Entre esta elite estava o infatigável diarista e alpinista social Samuel Pepys, que escreveu um relato da viagem a bordo de um dos vários iates que acompanhavam o Gloucester.

Na madrugada do dia 6 de maio, esta pequena frota estava a cerca de 50 km da costa de Norfolk e avançava a um bom ritmo, impelida por um vendaval acabado de levantar. Mas o clima festivo tinha azedado na noite anterior devido a uma disputa acalorada entre os vários comandantes e pilotos. Alguns defendiam uma rota mais longe da costa para evitar os bancos de areia que espreitavam ao longo do trecho costeiro. O duque, que outrora tinha servido como Alto Lorde Almirante e via-se como um homem da marinha, interveio e tomou a fatídica decisão de manter o rumo.

Horas depois, às cinco e meia da manhã, o Gloucester, uma embarcação de 755 toneladas, bateu num banco de areia a uma velocidade de seis nós, um ritmo bastante ousado para uma fragata do século XVII. A violência da colisão arrancou o leme, matando também o homem do leme, e afundou o navio em 45 minutos. Entre as cerca de 330 pessoas a bordo, estima-se que 130 a 250 tenham perdido a vida. O futuro rei sobreviveu, mas o acidente fez com que recebesse a desaprovação da Marinha Real, e deu a muitos dos seus inimigos o combustível necessário para arrasar o seu caráter durante um reinado breve e atribulado.

Descoberta secreta

Durante séculos, a localização do malfadado Gloucester era um mistério; mas nos últimos 15 anos tem sido um segredo. A madeira e os canhões deste naufrágio foram descobertos em 2007 por dois arqueólogos amadores. Mas a descoberta foi mantida em sigilo até que a identidade do naufrágio pudesse ser confirmada e a vulnerabilidade do local protegida.

A identidade do naufrágio foi confirmada de forma conclusiva em 2012, quando o sino de bronze do Gloucester foi recuperado.

Esquerda: Superior:

Um rosto com barbas adorna um jarro Bartmann, um dos artefactos do século XVII recuperados no naufrágio. Outros achados incluem equipamentos navais, roupas, sapatos e garrafas de vinho ainda fechadas.

Direita: Inferior:

Uma garrafa de vinho contém o selo de vidro com o brasão da família Legge, antepassados de George Washington.

Os irmãos Lincoln e Julian Barnwell, entusiastas de mergulho que vivem na cidade costeira de Yarmouth, começaram a procurar o naufrágio em 2003. O que começou por ser um passatempo rapidamente se transformou numa obsessão muito dispendiosa. Os irmãos fizeram uma hipoteca para comprar um barco de 12 metros e dedicaram todos os tempos livres da curta época de verão de mergulho a procurar os destroços.

“Percorremos mais de 6.300 km nesta busca e parecia que só encontrávamos areia”, diz Lincoln. “Até que um dia mergulhei e vi canhões espalhados por todo o lado no fundo do mar. Foi inesquecível.”

Contudo, tal como os irmãos Barnwell vieram a descobrir, encontrar um naufrágio e atribuir-lhe um nome são duas coisas diferentes. Para um naufrágio historicamente tão importante quanto o Gloucester, eram necessárias provas. A recuperação do sino do navio em 2012 forneceu a prova que faltava, e o naufrágio provavelmente estava repleto de artefactos, pelo que foi necessário tomar medidas para o proteger. Desta forma, a descoberta permaneceu em segredo até agora.

 “Este naufrágio ajudou literalmente a mudar a história”, diz Claire Jowitt, especialista em história marítima da Universidade de East Anglia. Os debates sobre o que aconteceu, como, e quem foi o culpado arrastaram-se ao longo de vários anos. O duque negou qualquer responsabilidade e pediu o enforcamento imediato do piloto do Gloucester. (Em vez disso, o piloto foi julgado e condenado em tribunal marcial a prisão “perpétua”, mas foi discretamente libertado um ano depois.)

Porém, os muitos detratores do futuro rei pintaram-no alegremente como um devasso imprudente que ordenara o resgate dos seus cães enquanto muitos marinheiros morriam afogados. O facto de ter usado o piloto como bode expiatório criou uma inimizade até ao resto da vida com o Almirantado e deixou até alguns dos seus próprios aliados consternados. A reputação de Jaime estava manchada e, apesar de ter tentado redimir a sua imagem ao pagar indemnizações às famílias dos homens cujas vidas se tinham perdido, esta mancha permaneceu.

O seu reinado, quando chegou, foi breve. Jaime foi deposto em menos de quatro anos e, apesar de ter perdido a coroa principalmente devido à sua religião, política e teimosia, o desastre do Gloucester pairou sempre sobre a sua vida como um mau odor. “Não havia forma de o esquecer”, diz Claire Jowitt.

Um dos blocos de polia expostos no fundo do mar fazia parte dos encaixes do navio. Muitos outros artefactos podem estar enterrados na reia.

E agora também não vai ser esquecido, dado que este naufrágio abre uma janela para um momento importante na história e para as pessoas que a viveram. Entre as descobertas estão garrafas de vinho seladas do século XVII, algumas delas com o brasão de estrelas e listas da família Legge, antepassados de George Washington.

“O que foi encontrado até agora é apenas a ponta do véu”, diz Sean Kingsley, da revista Wreckwatch. “O mais interessante é descobrir os bens que permanecem lá escondidos, sem esquecer o facto de também poder haver bagagem real nos escombros.”

O Gloucester, diz Sean Kingsley, “é uma escotilha que oferece uma visão dramática para o mundo privilegiado dos palácios e da alta sociedade da Casa Stuart em Inglaterra. É uma espécie de Palácio de Buckingham e Downton Abbey no mar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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