Fotografias há muito perdidas revelam um olhar raro sobre a Coreia no pós-guerra

Jovem e bem relacionada, Marie Ann Han Yoo captou imagens vívidas de um país em reconstrução no pós-guerra. Mas depois Marie perdeu as fotografias.

Autocarros pintados com cores vivas param para apanhar passageiros em Seul. Durante uma viagem feita em 1956-57 à Coreia do Sul, Marie Ann Han Yoo tirou fotografias raras a cores da vida no pós-guerra no país.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo
Por Jordan Salama
Publicado 5/08/2022, 09:53

Em 2013, Marie Ann Han Yoo, na altura com 77 anos, estava mudar de casa em Memphis quando ela e a sua família encontraram uma mala estranha cheia de pó escondida num armário. Velha e cinzenta, parecia que não era mexida há anos.

“A mala era da Coreia”, recorda a filha de Marie Yoo, Stephanie Han. “E estava cheia de slides.”

Três harabojis (avôs) posam em finos trajes brancos, chapéus de crina de cavalo e óculos redondos. Marie Ann Han Yoo fotografou cenas da vida quotidiana urbana e rural durante uma viagem feita em 1956-57 à Coreia do Sul.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

Os slides continham imagens raras a cores da vida na Coreia do Sul quando o país se começou a reconstruir após a Guerra da Coreia, um conflito brutal de três anos que ceifou a vida a cerca de cinco milhões de pessoas – mais de metade eram civis. Os temas captados pela câmara da fotógrafa eram na sua maioria pessoas comuns; uma mulher com um hanbok rosa brilhante perto de uma estação rodoviária na cidade; um jovem com um fardo enorme de feno às costas que faz uma pausa para olhar para a câmara. Entre estas imagens da vida quotidiana também se podem vislumbrar as manifestações políticas, as atividades militares e figuras poderosas que marcaram este período drástico de mudança.

Esquerda: Superior:

Devido à proximidade da sua família com o governo, Marie Yoo tinha muitas vezes um acesso incomparável a eventos e locais de elite, onde conseguia captar imagens como esta, do então presidente coreano Syngman Rhee e da primeira-dama Franziska Donner.

Fotografia por Photograph Marie Ann Han Yoo
Direita: Fundo:

Pilotos da Força Aérea Coreana posam para uma fotografia ao lado de um avião.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

Marie Yoo, agora com 85 anos, tirou as fotografias durante uma estadia em 1956-57 em Seul, quando tinha apenas 20 anos. A sua mãe, que era próxima do então presidente Syngman Rhee, aceitou uma oferta para trabalhar como diretora de relações públicas num hotel de alto nível frequentado pelas elites políticas e sociais na capital da Coreia do Sul.

A jovem e curiosa Marie Yoo nunca tinha viajado para o estrangeiro – Marie nasceu no Havai, filha de trabalhadores de plantações que estavam entre os primeiros imigrantes coreanos nos Estados Unidos – e acompanhou ansiosamente a mãe pelo Pacífico, encontrando trabalho numa base militar americana em Seul onde acabou por comprar uma câmara para documentar as suas viagens.

Marie Ann Han Yoo posa com a sua câmara durante as viagens feitas em 1956-57. Mais de seis décadas depois, Marie redescobriu os slides.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

 “Eu queria captar aquele momento específico no tempo”, diz Marie Yoo em entrevista por telefone. “Era tudo completamente estranho para mim.”

A posição única de Marie Yoo enquanto jovem estrangeira e bem relacionada permitiu-lhe vaguear livremente e fotografar uma enorme variedade de cenas – sem ter os olhares mais atentos e redutores que muito provavelmente teriam seguido um fotógrafo local, sobretudo uma mulher, diz Marie. Ao vaguear pelo caótico mercado de Namdaemun de Seul, Marie Yoo encontrou comerciantes que vendiam tecidos, produtos diversos e massa seca. Marie captou imagens do quotidiano ao longo do rio Han – como o chamado dia da lavandaria, um evento comunitário marcado por peças coloridas de vestuário espalhadas nas rochas para secar enquanto as famílias socializavam em torno do local.

O ‘dia da lavandaria’ ao longo do rio Han, na zona rural da Coreia do Sul, era um evento social, com as famílias a reunirem-se nas rochas enquanto estendiam as suas roupas para secar.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

Enquanto passeava pelo caótico mercado de Namdaemun de Seul, Marie Yoo fotografou comerciantes que vendiam tecidos, produtos diversos e massa seca aos clientes que passavam.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

Durante as viagens de fim de semana à zona rural, Marie Yoo fotografou agricultores a trabalhar nos campos verdejantes de arroz e pedreiros a cortar blocos quadrados de pedra. Devido à proximidade da sua família com o governo, Marie tinha muitas vezes acesso a eventos e locais de elite, permitindo-lhe fotografar militares e até mesmo o presidente.

Quando Marie Yoo regressou aos Estados Unidos, decidiu formar-se em história do Leste Asiático, devido ao interesse despertado pelos vários coreanos que conheceu. “Eram pessoas trabalhadoras e resilientes”, diz Marie, “ainda estavam a recuperar dos anos de guerra”.

Mais tarde, Marie Yoo casou-se e passou grande parte da sua vida como dona de casa. Com o passar do tempo, Marie esqueceu-se dos slides, que eram apenas simples fotografias de viagens.

Contudo, estas imagens, redescobertas passados cerca de 65 anos, estão a ser elogiadas por serem uma representação histórica significativa do período pós-guerra na península coreana.

Esquerda: Superior:

Uma jovem sentada ao longo do Rio Han, vestida com um hanbok de mangas coloridas, um estilo emblemático para as jovens da época. Ao seu lado está um estudante, envergando o obrigatório uniforme e boné pretos.

Direita: Fundo:

Um fabricante de massa trabalha no mercado de Namdaemun de Seul. Por cima dele está um sinal escrito em caracteres chineses, mais comum durante este período do que o estilo de escrita hangul coreano.

fotografias de Marie Ann Han Yoo

“É raro encontrar fotografias a cores desta era da história coreana”, diz Jae Won Chung, professor-adjunto de estudos coreanos na Universidade Rutgers, cujo trabalho está focado na literatura e meios visuais coreanos modernos. “Sem duvida que a nitidez da cor, as linhas e a vivacidade das expressões faciais aproximam-nos das vidas destas pessoas.”

A própria identidade de Marie Yoo só vem acrescentar mais ao significado das imagens, diz Jae Chung. “As fotógrafas têm sido historicamente negligenciadas na fotografia, tanto dentro como fora da Coreia, mas sobretudo quando se trata de fotografias da Coreia.” Enquanto filha da diáspora coreana no Havai, a fotografar uma terra dividida que enfrentava a separação familiar e muitas outras feridas de guerra, Marie Yoo pode ter sentido uma ligação muito mais tácita com alguns dos seus assuntos do que ela própria percebeu. “Tal como Marie Yoo, muitas outras pessoas também se podem ter sentido deslocadas, embora num sentido diferente.”

Um jovem que caminha por uma estrada de terra batida, com uma carga de feno de arroz às costas, faz uma pausa para olhar para a câmara de Marie Yoo.

Fotografia por Marie Ann Han Yoo

A própria Marie Yoo sublinha que a sua perspetiva enquanto fotógrafa era simplesmente a de uma jovem curiosa. Ainda assim, com a ajuda das suas filhas, Marie tem organizado várias exposições digitais e físicas das suas fotografias em colaboração com organizações como a Korea Society e várias associações de veteranos.

“Há muitas reações fortes quando as pessoas mostram estas imagens às suas famílias”, diz Stephanie Han, filha de Marie Yoo. “Mas isto permite às pessoas sarar.”

Marie Ann Han Yoo nasceu em 1936 em Honolulu, no Havai, e foi criada na plantação de Kunia Camp, descendente da primeira vaga de imigrantes coreanos para os Estados Unidos. Marie formou-se na Universidade de Oregon e vive no Havai com a sua família. Para mais informações, visite o seu site.

Jordan Salama é escritor residente da National Geographic. O seu primeiro livro, Every Day the River Changes, foi publicado em 2021. Pode encontrá-lo no Instagram e TikTok.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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