Kuwait: uma terra de riqueza e clima extremos

Um fotógrafo italiano passou meses a documentar “o impacto psicológico de um ambiente extremo nas pessoas”.

O Kuwait é um importante centro de criação dos premiados cavalos árabes puro sangue. Esta coudelaria, em Wafra, fica ao lado de uma réplica do Coliseu de Roma.

Fotografia por Gabriele Cecconi, Parallelozero
Por Werner Siefer
Publicado 7/07/2022, 11:13

O minúsculo estado do Kuwait, um emirado localizado no extremo norte do Golfo Pérsico, é uma terra de extremos. As temperaturas de verão estão entre as mais quentes do mundo – só o Vale da Morte nos EUA é que supera o recorde local – a precipitação anual está nos níveis mais baixos e a água doce escasseia. Menos de 1% da sua paisagem desértica é arável, mas estas areias abrigam a sétima maior reserva nacional de petróleo, a fonte da imensa riqueza do Kuwait. Tal como acontece com outras nações ricas em petróleo na região do Golfo, os petrodólares têm dado origem a uma cultura de consumo conspícuo.

Uma mulher caminha por um campo de flores na Blue Lake Farm em Abdali, perto da fronteira com o Iraque. Esta quinta é um destino muito popular para apanhar morangos.

Esquerda: Superior:

A Autoestrada 70 começa na região costeira da Cidade do Kuwait e passa pelo interior remoto e inóspito do país a caminho da fronteira com a Arábia Saudita.

Direita: Fundo:

Torres de água extravagantes na Cidade do Kuwait. O consumo de água neste país está entre os mais elevados do mundo. Sem rios ou lagos permanentes, o acesso do Kuwait aos recursos de água doce é limitado. As centrais de dessalinização são a principal fonte de água potável e para uso doméstico.

Quando visitou o Kuwait pela primeira vez em 2019, Gabriele Cecconi ficou impressionado com os contrastes que encontrou naquela que considerava ser uma cultura conservadora. Este fotógrafo italiano estava a cobrir os efeitos ambientais dos refugiados apátridas Rohingya no Bangladesh, mas sentiu-se compelido a acompanhar a situação do povo Bidoon apátrida do Kuwait. Contudo, no final, o projeto alterou-se. “No Bangladesh, o meu trabalho era sobre o impacto das pessoas em situação extrema no meio ambiente. No Kuwait, eu queria investigar o impacto psicológico de um ambiente extremo nas pessoas.”

Na capital, um de mais de um milhão de expatriados indianos que vivem no Kuwait embala o seu filho no topo das Torres do Kuwait, um marco projetado pelo arquiteto dinamarquês Malene Bjørn que também funciona como depósito de água.

 

Esquerda: Superior:

No Parque Al Shaheed da Cidade do Kuwait, o maior espaço verde do país, os muçulmanos reúnem-se para orar numa mesquita. Quase toda a população é muçulmana, principalmente sunita. Embora o Islão seja a religião oficial, a liberdade de culto está consagrada na constituição. Cerca de 64% da população expatriada é muçulmana, ao passo que 26% é cristã.

Direita: Fundo:

No mesmo parque, os espectadores assistem a uma exposição de arte.

Em Subiya, no Dia Nacional, os kuwaitianos comemoram a independência total do Reino Unido, obtida a 25 de fevereiro de 1961, com um festival de papagaios no deserto.

A prosperidade moderna do Kuwait teve origens humildes. Antes de os campos de petróleo serem descobertos na década de 1930, as pérolas eram um importante produto de exportação – a área abrigava comerciantes portuários, pescadores e nómadas. A indústria petrolífera e os laços mais estreitos com o Ocidente, particularmente após a libertação durante a Guerra do Golfo em 1991, foram trazendo gradualmente os estilos de vida estrangeiros para o país, juntamente com a riqueza. Hoje, aproximadamente 1.3 milhões de cidadãos do Kuwait vivem um estilo de vida luxuoso, suportado por uma indústria de serviços que emprega mais de três milhões de trabalhadores estrangeiros com salários baixos. Através da sua fotografia, Cecconi descobre uma contradição entre o materialismo e a tradição religiosa. “O consumismo extremo é uma forma de compensação para as tensões internas”, diz Cecconi. “O nosso sistema capitalista diz que, se comprarmos coisas, sentimo-nos melhor. Acontece com todos nós. A diferença aqui reside no facto de os kuwaitianos terem dinheiro para fazer o que quiserem.” Para alguns, pode ser um Ferrari ou até mesmo construir uma réplica privada do Coliseu de Roma.

Esquerda: Superior:

Uma mulher posa num salão na Cidade do Kuwait. Este estado do Golfo Pérsico está entre os mais liberais da região. As mulheres não são obrigadas a usar véu e votam desde 2006. Várias mulheres ganharam eleições para a Assembleia Nacional, mas não há mulheres atualmente em funções.

Direita: Fundo:

Na Cidade do Kuwait, um ator que interpreta um político num vídeo satírico promete quatro esposas para quem votar nele. Os kuwaitianos têm uma liberdade de expressão limitada devido à censura do governo. Tópicos como o Islão e a família real são proibidos. A organização Repórteres Sem Fronteiras atribuiu ao Kuwait a melhor classificação no que diz respeito a liberdade de imprensa entre os estados do Golfo, mas em 2022 o Kuwait ficou abaixo do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos.

Os dirigentes do Camel Racing Club, em Al Ahmadi, assistem a uma das corridas semanais. As corridas de camelos na Península Arábica já remontam ao século VII.

Cecconi, que passou quatro meses a fotografar no Kuwait em 2019 e 2020, tem o cuidado de dizer que os kuwaitianos não devem ser culpabilizados pelo tratamento precário da mão de obra estrangeira. “Enquanto observador externo, é muito fácil fazer julgamentos. Mas um dia percebi que existem centenas de milhares de trabalhadores migrantes no mercado negro em Itália, e essas pessoas trabalham para pessoas como eu. Mas lá são invisíveis. Neste país, são visíveis.”

“Foi como se eu me visse a mim, o meu próprio país, revelado. Fica tudo mais claro.”

Na parte ocidental do país, um centro comercial foi construído ao estilo das antigas casas do Kuwait. Os trabalhadores expatriados, aqui fotografados com trajes tradicionais do Kuwait, representam 70% da população.

Gabriele Cecconi é um fotógrafo documental italiano. Pode encontrá-lo no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em alemão no site nationalgeographic.de

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