Nova lei em Espanha pode ajudar as famílias a procurar os parentes perdidos durante a ditadura

A Lei da Memória Democrática de Espanha ajuda a condenar o regime de Francisco Franco e a criar um banco nacional de ADN para ajudar a procurar os desaparecidos.

Uma menina corre pelos terrenos abertos do Vale dos Caídos, um mausoléu construído sob as ordens do falecido ditador espanhol Francisco Franco, que governou de 1939 até 1975. Mais de 33.000 vítimas da Guerra Civil e do regime de Franco foram enterradas neste local sem o consentimento dos seus familiares. Com a aprovação da nova Lei da Memória Democrática em Espanha, os corpos vão ser exumados a pedido dos familiares, e o governo vai converter o local num monumento em memória aos falecidos.

Fotografia por Santi Donaire
Por Jordan Salama
Publicado 27/07/2022, 11:41

Com mais de noventa anos, Rosa Coscollá ainda se lembra com perfeita clareza do dia em que dois polícias entraram na sua casa e levaram o seu pai. Estávamos em 1939, perto do fim da Guerra Civil Espanhola. Rosa tinha apenas 15 anos na época, e vivia na cidade rural de Xeraco, a sul da cidade de Valência.

Quando Rosa Coscollá viu o pai novamente, a última vez em que o viu, ele estava na cadeia – um preso político gravemente ferido e desnutrido. Vicente Coscollá Ibáñez foi rapidamente executado, e Rosa passou o resto da sua vida à espera do dia em que seriam obtidas amostras de ADN da vala comum para confirmar onde é que o seu pai supostamente tinha sido enterrado.

Esquerda: Superior:

Em 2016, um grupo de arqueólogos e voluntários forenses procuravam os restos mortais do poeta espanhol Federico García Lorca, que foi executado perto da cidade de Granada por forças nacionalistas no início da Guerra Civil Espanhola em 1936. Os seus restos mortais ainda não foram encontrados.

Direita: Inferior:

O cientista forense Javier Iglesias escava uma vala comum num cemitério em Paterna, Valência, em 2017.

fotografias de Santi Donaire

“Nos seus últimos anos de vida, ela era obcecada pelo caso do pai”, diz Jaume Coscollá Ferrer, sobrinho de Rosa. “Ela queria trazer o pai de volta – nem que fosse um pedaço do seu corpo, um osso, qualquer coisa – para ser enterrado com ela.”

Sapatos feitos de esparto e pneus para as solas, um casaco e algemas de corda estavam entre os artefactos pessoais das vítimas baleadas por partidários de Franco, que foram encontrados em 2019 numa vala comum em Paterna. Muitos dos corpos descobertos estavam amarrados com cordas.

Fotografia por Santi Donaire

Em 2017, Laura Martín abraçava os seus parentes, depois de saber que um tribunal em Valência ia investigar uma vala comum na área. Em agosto de 2019, com novos testes de ADN, Laura Martín conseguiu confirmar a identidade dos restos mortais do seu bisavô e transferi-los para um cemitério onde estavam sepultados outros familiares.

Fotografia por Santi Donaire
Esquerda: Superior:

Um arqueólogo remove um memorial que foi construído na década de 1980 e colocado no topo de uma vala comum em Paterna. Este túmulo abrigava mais de 150 corpos e a sua escavação em 2020 demorou mais de cinco meses.

Direita: Inferior:

Inma Herranz, restauradora e conservadora da Associação Científica ArqueoAntro, inspeciona itens encontrados durante a exumação de uma vala comum em Paterna em 2017. Inma Herranz é responsável pela conservação destes objetos, que são devolvidos aos familiares nos casos que resultam numa identificação genética positiva.

fotografias de Santi Donaire

Rosa morreu no ano passado aos 98 anos, mas a situação da sua família está longe de ser única. Milhares de pessoas que atualmente vivem em Espanha perderam familiares entre 1939 e 1975, quando a brutal ditadura militar de Francisco Franco matou ou fez desaparecer mais de 114.000 pessoas.

Em 2017, um grupo de especialistas forenses da Associação Científica ArqueoAntro trabalhava na exumação de 41 corpos numa vala comum em Paterna. As famílias precisaram de solicitar financiamento para esta escavação. Sob a nova Lei da Memória Democrática, o governo espanhol é obrigado a cobrir os custos.

Fotografia por Santi Donaire
Esquerda: Superior:

Dois dias antes do Dia de Los Santos, um feriado em Espanha que homenageia os mortos, uma mulher estava sentada ao lado de uma vala comum em Paterna que havia sido exumada semanas antes, no outono de 2018.

Direita: Inferior:

Uma mulher segura o retrato de um familiar, morto na ditadura de Franco, durante uma manifestação em 2015 em Madrid, em apoio a uma nova lei que reconhece os direitos das vítimas.

fotografias de Santi Donaire

Esta semana, o país vizinho deve aprovar uma nova lei: a Ley de Memoria Democrática. Esta lei declara que o regime de Franco e as suas sentenças criminais motivadas politicamente eram ilegais e visa responsabilizar legalmente o governo espanhol pela recuperação dos corpos dos desaparecidos.

Em 1977, dois anos após a morte de Franco, o parlamento espanhol aprovou uma lei de amnistia que declarava que os membros do regime não podiam ser processados por crimes cometidos durante o governo do ditador – ou durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que resultou em meio milhão de mortes e levou à ascensão de Franco ao poder. Esta lei ficou conhecida por El Pacto del Olvido – O Pacto do Esquecimento. As autoridades e aliados de Franco reintegraram-se nas esferas de influência pública e privada sem muita, ou nenhuma, punição pelas violações dos direitos humanos que cometeram.

Pedro Mayor Alaponont was four years old when his father was arrested by Franco's fasciscists. "I only remember one thing: the day they took him away by train," he said before his death in 2022. Mayor passed away never able to identify his father's body.
Fotografia por Santi Donaire
Esquerda: Superior:

O esboço feito por um cientista forense em 2017 revela a disposição dos corpos encontrados numa vala comum em Paterna. Os especialistas tentam individualizar cada corpo para facilitar a sua identificação. Também são recolhidas evidências para determinar a causa de morte.

Direita: Inferior:

Os rostos de pessoas que desapareceram durante a ditadura de Franco são exibidos numa faixa durante uma manifestação feita em 2018, organizada por familiares das vítimas no centro de Madrid, perto da Câmara Municipal.

fotografias de Santi Donaire

O regime de direita de Franco tinha como alvos não apenas membros da oposição política, mas também sindicalistas, membros da comunidade LGBTQ, ciganos e qualquer outra pessoa considerada inimiga do Estado. Acredita-se que cerca de 2500 valas comuns estejam espalhadas por todo o país; e entre as dezenas de milhares de corpos que podem conter, só uma fração é que foi identificada.

Para além disso, pela primeira vez, todos os bens apreendidos pelos militares durante a ditadura vão ser investigados e quaisquer títulos de nobreza concedidos por Franco vão ser retirados. A nova lei também estabelece um Ministério Público Estadual de Direitos Humanos e Memória Democrática, para criar um banco nacional de ADN e investigar casos de violações dos direitos humanos durante a guerra e a ditadura.

Uma família reunida num cemitério nos arredores de Valência em julho de 2021 para o enterro de um familiar cujos restos mortais, de há oito décadas atrás, tinham sido recentemente exumados numa vala comum.

Fotografia por Santi Donaire
Esquerda: Superior:

Rosa Coscollá, que morreu em 2021, segura uma fotografia do pai, que foi morto pela ditadura de Franco em 1940 em Valência. Os testes de ADN determinaram a identidade dos restos mortais do seu pai, mas Rosa Coscollá faleceu sem respostas.

Direita: Inferior:

Iker García Múñoz, de 14 anos, segura numa fotografia do seu tataravô cuja família acredita ter sido enterrado numa vala comum em Paterna. “Quando a sepultura foi aberta, a minha mãe disse-me que o meu bisavô começou a chorar. Eu nunca tinha visto o meu bisavô a chorar na vida.”

fotografias de Santi Donaire

Apesar de ter enfrentado inúmeros obstáculos políticos, a Lei da Memória Democrática de 2022 não é a primeira deste tipo a ser aprovada. A nova lei tem por base a Lei da Memória Histórica de 2007 do país, que ampliou os direitos para as vítimas de guerra e da ditadura, mas foi amplamente criticada por ser pouco ambiciosa.

A nova lei traz uma esperança renovada para as famílias cujos familiares desapareceram nos últimos 80 anos. “Há tantas famílias que, lamentavelmente, ainda não conseguem encontrar os seus familiares”, diz Laura Martín, cujo bisavô, presidente da câmara da cidade, foi assassinado pela sua política de esquerda – e recentemente exumado numa vala comum em Paterna, Valência.

Em 2020, Amparo Orts Granell, de 86 anos, posava a fotografia num sofá da sua casa numa vila em Valência. O seu pai foi assassinado no dia 23 de outubro de 1940 quando Amparo Orts Granell tinha 5 anos. Em março de 2022, Amparo conseguiu enterrar os restos identificados na sua cidade natal de Meliana. “Aqui jaz José Orts Alberto, que foi fuzilado a 23 de outubro de 1940 pelas mãos do regime de Franco por ser vereador em Meliana”, diz a lápide, que agora está ao lado da sua falecida esposa.

Fotografia por Santi Donaire

O crânio de uma pessoa assassinada encontrado em 2017 durante a escavação de uma vala comum de pessoas mortas pela ditadura de Franco na década de 1940. A maioria das vítimas tem buracos de balas no crânio, um sinal do seu destino final.

Fotografia por Santi Donaire
Esquerda: Superior:

A cientista forense María Fortuna limpa um conjunto de dentes encontrados durante a exumação feita em 2017 numa vala comum em Paterna.

Direita: Inferior:

O crânio de uma vítima encontrada numa vala comum em Paterna é examinado durante uma investigação forense realizada pelo Departamento de Biologia da Universidade Autónoma de Madrid em 2021. Todos os corpos encontrados nas valas comuns são enviados para estudos genéticos e antropológicos, de maneira a identificar os corpos e a causa de morte.

fotografias de Santi Donaire

Laura Martín também acredita na necessidade de rever os casos legais em torno dos assassinatos. Muitos foram prejudicados por julgamentos corruptos, diz Laura, e nunca foi feita justiça. “Esta nova lei revela a realidade desses julgamentos, que foram completamente injustos.”

O fotógrafo espanhol Santi Donaire passou os últimos seis anos a documentar a exumação de valas comuns e a visitar as casas de famílias cujos parentes foram assassinados durante a ditadura. As suas fotografias a preto e branco são lembretes poderosos das feridas duradouras da violência política. “Este é um projeto sobre uma sociedade que tenta reparar as suas feridas, tenta procura justiça e quer redescobrir seu passado”, diz Santi.

Em 2020, um grupo de especialistas forenses preparava-se para a escavar uma vala comum em Paterna, que se acreditava conter os corpos de mais de 100 pessoas.

Fotografia por Santi Donaire

O projeto de Santi Donaire começou em 2016, quando se juntou à missão de busca pelos restos ainda desaparecidos de Federico García Lorca. O famoso poeta espanhol foi executado perto da cidade de Granada por forças nacionalistas no início da Guerra Civil Espanhola em 1936 – supostamente pelas suas crenças políticas socialistas e pelos rumores na altura sobre a sua suposta homossexualidade.

“O que mais me surpreendeu foi a ausência de qualquer meio de comunicação televisivo ou jornalístico, e a falta de ajuda institucional na busca por um dos autores mais importantes da literatura ocidental”, diz Santi Donaire. Para Santi, se o interesse em procurar o corpo de Federico García Lorca era tão pouco, então para rastrear as pessoas comuns e anónimas que tinham desaparecido ainda seria pior.

Porém, os traumas históricos e sociais não desaparecem assim tão facilmente com o passar do tempo. Muitas vezes, estes traumas são transmitidos de geração em geração, e muitas famílias preferem remeter-se ao silêncio – quer seja por vergonha ou receio, ou para proteger os membros mais jovens de um passado doloroso. Alguns descendentes, como Rosa, morrem à espera de um desfecho.

Outros familiares formaram associações para continuar a procurar vestígios dos seus parentes perdidos. Mesmo as pessoas que conseguiram enterrar adequadamente os seus familiares, como o bisavô de Laura Martín, dizem que o significado da lei vai muito para além das famílias individuais, porque exige um reconhecimento nacional de memória e justiça.

“O país precisa deste reparo, desta revelação, da constatação de que o governo espanhol cometeu um erro enorme e não o podemos esquecer”, diz Laura Martín. “Em 80 anos, o tempo não curou absolutamente nada. Precisamos de reconhecer esta história para a enterrarmos devidamente.”

O fotojornalista Santi Donaire começou a documentar a escavação de valas comuns em Espanha em 2016, e primeiro fê-lo durante vários meses como freelancer para a Associação Científica ArqueoAntro, que investigava o desaparecimento de pessoas durante o regime de Francisco Franco. Santi Donaire continuou a documentar os casos de pessoas desaparecidas por conta própria. Pode encontrá-lo no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

História
Como uma zona rural abandonada se transformou num paraíso ecológico
História
A história brutal das Olimpíadas Populares de 1936 – um boicote ao fascismo e a Hitler
História
O primeiro desfile do Orgulho LGBTQ – um protesto ruidoso pela libertação homossexual
História
‘Zapping’: A tática de protesto que desencadeou o ativismo LGBTQ
História
Tesouro com 4 mil anos sugere que mulher da antiguidade pode ter sido uma poderosa líder europeia

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados