Música indígena brasileira: da invisibilidade aos palcos internacionais

Com ritmos rap, popular e eletrónico, artistas indígenas ganham espaço no mundo trazendo um futuro ancestral para a música contemporânea brasileira.

Por GABI DI BELLA
Publicado 26/08/2022, 12:35
Dj Eric Terena

O Dj Eric Terena atua durante o Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em julho de 2022. Além dos espetáculos nacionais, Terena leva a cultura e as causas indígenas pelo mundo, com performances na Marcha pelo Clima em Nova Iorque (2019) e na Conferência do Clima em Glasgow, no Reino Unido (2021). 

FOTOGRAFIA POR Gabi di Bella

A gente grita mas ninguém nos ouve, aprendi a sua língua não indígena/ essa é pra você / Quanta tristeza pobreza/ andam lado a lado/ Dentro de um barraco caindo aos pedaços/ Passando fome sem graça/ Bebendo só água suja com a roupinha furada e seu cachorro do lado/ De baixo, de baixo do palco mantendo a gente isolado
Jarahá, Brô MC’s e DJ Alok

Foi debaixo do palco que Bruno Veron, Clemerson Batista, Kelvin Mbaretê e Charlie Peixoto puderam assistir a um espetáculo do DJ Alok pela primeira vez, num evento do agronegócio no Mato Grosso do Sul, há três anos. Os indígenas guarani-kaiowá integram a banda de rap Brô MC’s e tocam desde 2009, mas ainda não conseguiam viver da música. Por isso, trabalhavam nos bastidores daquela feira. Durante o espetáculo, contudo, estavam “ocultos” por outro motivo. Sem que Alok soubesse, “alguém da produção local disse-nos que o artista não queria ver indígenas e que tínhamos que ficar escondidos”, conta Bruno.

Os rappers do Brô MC’s moram nas aldeias Bororo e Jaguapiru, situadas no município de Dourados, no Mato Grosso do Sul, a 235 quilómetros da capital, Campo Grande. Eles e os seus familiares enfrentam um quotidiano conflituoso na cidade, marcado por ameaças, preconceito e falta de oportunidades. A reserva está confinada numa área rodeada por gigantescas monoculturas. A alta densidade populacional nas aldeias resulta em elevados índices de alcoolismo e uma taxa de suicídios três vezes maior do que a média nacional.

“Já nascemos no contexto da resistência. Não tínhamos comida e sofríamos com o preconceito. Eu próprio já ‘morri’ várias vezes no lixão. O que eu encontrava colocava na boca, passava muito mal”, recorda Clemerson. Ele lembra-se de ser ridicularizado na escola por carregar os seus materiais num saco de arroz. “Muitos desistiram de viver, enfrentaram depressões, quem vai ficando é que conta a história.”

Eles mostram as mãos calejadas, marcas que carregam desde a infância pelo trabalho na lavoura, e recordam-se do avião que passava despejando agrotóxicos enquanto cortavam a cana-de-açúcar. Mas era a única maneira de conseguir dinheiro, já que  ouviam com frequência que estudar não daria em nada.

Ao longo da década de 1990, o rádio era praticamente o único meio de comunicação a que os guarani-kaiowá tinham acesso nas aldeias do município. Ao escutar os programas de música, os irmãos Bruno e Clemerson descobriram no rap uma maneira de expressar o sentimento por toda a violência e o preconceito a que eram submetidos pela sociedade não-indígena do entorno das aldeias, como o estereótipo de que os indígenas seriam preguiçosos. “Tudo isso que diziam deixava-me muito irritado. Eu procurava uma maneira de dizer as coisas até que ouvi Negro Drama, do Racionais MC’s, que tocava num programa que passava à tarde, Ritmos na Batida”, recorda Bruno. “Nós gostavamos tanto que chegavamos a fazer uma vaquinha com os nossos amigos para comprar pilhas, e ficávamos todos de volta do rádio até acabar.” 

Da esquerda para a direita: Clemerson Batista, 30, Bruno Veron, 28, Kelvin Mbaretê, 32 e Charlie Peixoto, 30 – membros do Brô MC’s. Há 13 anos, o quarteto tornou-se no primeiro grupo indígena de rap no país.

FOTOGRAFIA POR Gabi di Bella
BRÔ MC'S – BRUNO VERON, CLEMERSON BATISTA, KELVIN MBARETÊ E CHARLIE PEIXOTO
Pioneiros no rap, os Brô Mc's também estão a construir o primeiro estúdio de música numa aldeia indígena do Brasil, na TI Bororo, Mato Grosso do Sul.

Bruno começou a compor letras de música e depois passou a cantar em escolas, incentivado por um professor. Pouco depois, Clemerson juntou-se a ele. Já os irmãos Charlie e Kelvin uniram-se aos parentes em 2007 e 2009, respetivamente, e o quarteto formou oficialmente o Brô MC’s, a primeira banda indígena de rap do Brasil. O nome surgiu “um pouco sem querer”, porque gostavam da gíria. Só descobriram depois que “brô” deriva da palavra inglesa “brothers”, que significa “irmãos”.

“Comecei muito pequeno. Parecia que alguém falava comigo que eu tinha que lutar pela comunidade. Essa ‘voz’ incentiva-me até hoje. As letras saem muito rápido”, conta Bruno. Hoje os quatro compõem e afirmam ter uma forte sintonia. “Existem letras que cada um escreveu um pedaço e, quando se junta tudo, parece que nós combinámos, tudo se encaixa”, continua o rapper. As letras chamaram a atenção logo na primeira demo gravada pelo grupo, em 2010, a música Eju Orendive, que depois rendeu a primeira turné pelo país. 

Em 2021, Bruno recebeu um telefonema que transformaria a trajetória dos Brô MC’s. Como o número era de outro estado, pensou que seria alguém a tentar vender ou cobrar algo. “Mas era a produtora do Alok, a entrar em contato para fazer uma parceria com os Brô”, diz. Os músicos embarcaram para a gravação em Minas Gerais. Chegaram apreensivos, mas decidiram contar a história ocorrida no espetáculo no Mato Grosso do Sul, onde tiveram de assisti-lo debaixo do palco. “Ele ficou super mal, disse-nos que essa ordem jamais partiria dele”, conta Bruno. O acontecimento foi utilizado para a letra da música Jarahá ('estamos levando', no idioma guarani), gravada em parceria com Alok. Em 2022, Alok voltou a tocar em Dourados e decidiu chamar os Brô para participar no espetáculo. Os irmãos indígenas cantaram a favor das causas do seu povo, na língua guarani, desta vez em cima do palco.

Os Brô continuam a fazer um bom trabalho, mas agora por um passo importante na carreira musical: a construção de um estúdio próprio na terra vermelha da aldeia Bororo. Segundo eles, será o primeiro estúdio de música numa aldeia indígena no país, financiado pelo Instituto Alok. As obras estão atrasadas devido ao excesso de chuva fora de época na região e às constantes faltas de eletricidade e água na reserva. Em paralelo, os Brô estão a gravar o seu primeiro álbum.  

No 13º ano de carreira, a música levou os guarani-kaiowá a patamares que não esperavam. A 3 de setembro, o grupo subirá ao palco do Rock in Rio a convite do rapper Xamã. O artista carioca, de 32 anos, tornou-se neste ano o cantor brasileiro com mais ouvintes mensais na plataforma Spotify. Era um menino que vendia rebuçados nas ruas da Lapa, no Rio de Janeiro, quando decidiu viver da música depois de ver um espetáculo na rua do Brô MC’s. Além disso, a música Jahará está na banda sonora da nova edição da novela Pantanal, da Rede Globo. 

Os membros do Brô MC's constroem, com a ajuda de familiares, o que será o primeiro estúdio de música numa terra indígena no Brasil. O projeto é financiado pelo Instituto Alok, do renomado DJ brasileiro. 

Fotografia por Gabi di Bella

Inspiração e exemplo

O Brô MC’s serviu de inspiração para outros artistas indígenas que começaram as suas carreiras nos últimos anos e encontraram, na música, um meio para divulgar a cultura, a língua e as causas dos seus povos. Eric Terena, 29, é conterrâneo dos Brô e também obteve a sua prendizagem a partir das ondas do rádio. Enquanto crescia, mudou-se com a família para a capital sul-mato-grossense, onde a sua mãe fundou a Associação de Moradores Indígenas de Campo Grande e o pai trabalha na rádio pública do estado até hoje. Para Terena, a mudança representou um “processo de embranquecimento”, mas foi necessária pela busca da sobrevivência da família e da sua comunidade. Ao mesmo tempo, foi crucial para a sua introdução à música. 

“O meu pai levava-me para a rádio porque não tinha com quem me deixar. Depois, quando eu ficava em casa, ele ligava avisando que ia tocar determinada música, e eu ficava com a fita no ponto para gravar”, conta Terena. “Quando ia para a aldeia, eu levava aquele mix com rock, pop e MPB para toda a gente ouvir. Os mais velhos que não gostavam muito, queriam ouvir mais chamamé e vanerão.”

Terena aprendeu a tocar violão com os tios, que tinham uma banda chamada Halley. Nos espetáculos, os parentes tocavam clássicos do rock dos anos 70 aos anos 90. Nos intervalos, o sobrinho assumia como DJ – um trabalho que seguiu aos finais de semana, mesmo após Terena conseguir uma bolsa para estudar engenharia da computação. Depois de um ano de estudo, não se identificou com o curso e decidiu mudar para jornalismo. Na comunicação, ele encontrou o seu caminho. Estagiou no portal G1, trabalhou na campanha da candidata Sônia Guajajara à vice-presidência da República, em 2018, e criou o Mídia Índia, uma plataforma focada na divulgação de projetos e notícias de todas as etnias, que conta com uma equipa de 90 pessoas pelo país.

Como DJ, Terena busca manter as raízes ancestrais no processo de criação. Ele começa as suas músicas com cantos tradicionais, cuja batida tem origem na gravação de sons da natureza. “Eu não faço remix de sons originários, é preciso ter respeito”, ele observa. “O que se ouve quando toco é a batida da taquara no chão, o som que ecoa quando batemos numa árvore sumaúma ou o canto de um pássaro, todos os sons da floresta.” Terena realiza ainda parcerias com outros artistas indígenas, como Djuena Tikuna na música Tetchi'arü'ngu.

A carreira de Terena não se restringe aos palcos do Brasil. Ele participou na Marcha pelo Clima de Nova Iorque em 2019; tocou no evento Vozes da Amazónia, durante a Conferência do Clima de 2021, em Glasgow, no Reino Unido; já fez turné pela Europa e, neste ano, integrou o setlist do Festival de Glastonbury, em Inglaterra. Nas plataformas de streaming, a sua música toca em 14 países. “Percebi que há menos barreiras para o Eric DJ do que para o Eric jovem líder da comunidade. A música abre caminhos. Ouvimos o lançamento de algum artista internacional e podemos até nem entender o que ele está a dizer, mas sensibilizamo-nos com a melodia, o tom, a sonoridade, e isso acontece quando eu toco Tetchiarü’ngu, por exemplo.”

Werá Jeguaka Mirim, de 21 anos, é um guarani-mbyá que vive na aldeia Krukutu, na Terra Indígena Tenondé Porã, a 65 quilómetros de São Paulo. Durante a sua carreira de rapper, Owerá já cantou com Caetano Veloso, Maria Gadú e Criolo, além de parcerias com outros grupos indígenas como o Brô MC’s e Oz Guarani.

Fotografia por Gabi di Bella
OWERÁ
O rapper de etnia guarani-mbyá vive na Terra Indígena do Krukutu, situada no extremo sul da cidade de São Paulo.

Já Werá Jeguaka Mirim, mais conhecido como Owerá, é um rapper que vive na aldeia Krukutu, na Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo. Apesar de ser bastante jovem, o guarani-mbyá de 21 anos já tem muito para contar. Ele tornou-se conhecido por um ato que não está relacionado com a música. Na abertura do Mundial de Futebol de 2014, Owerá foi uma das três crianças escolhidas para soltar as pombas da paz antes do jogo de abertura, no estádio Corinthians (hoje chamado Neo Química Arena), em São Paulo. Corajoso, decidiu usar a ocasião para dar palco às causas indígenas. Após soltar a pomba, esticou uma faixa onde se lia: “Demarcação Já”. O gesto foi exibido na transmissão ao vivo para o resto do mundo, mas não apareceu na exibição brasileira. 

Logo depois, a imprensa estrangeira foi atrás de Owerá para saber, afinal, o que estava escrito naquela faixa. Essa frase era só parte da luta que o rapaz herdou do seu pai, Olívio Jekupé, filósofo e escritor com mais de 20 livros publicados. O pai levava-o sempre e estimulava-o a participar nas palestras que fazia em escolas e faculdades, e isso inspirou o filho a escrever. Outras artes também atraíam Owerá. Com apenas sete anos ele produziu a sua primeira curta, sobre a influência da chegada da tecnologia e dos telemóveis na mudança da comunicação de um jovem indígena. Aos 13 anos, publicou um livro em conjunto com o seu irmão, mas foi no rap que encontrou, verdadeiramente, a melhor maneira para comunicar o que sente. 

“Comecei em 2015, sem nenhum apoio ou divulgação, só nas redes sociais. No início o meu pai não gostou muito da ideia. Eu já cantava a música tradicional guarani e passei a fazer letras de rap. Hoje, ele apoia-me e ajuda-me sempre a divulgar a minha música”, conta Owerá. O rapper guarani já fez parcerias com Caetano Veloso, Maria Gadú, Criolo e Novíssimo Edgar, além das parcerias com os próprios Brô MC’s e Oz Guarani.

Neste ano, Owerá lançou a música Existir para Resistir, com o apoio da Universidade de Manchester, em Inglaterra, e está a fazer apresentações sobre o projeto Natura Musical. Apesar da projeção nacional, o rapper prefere reservar-se no quotidiano da aldeia. “Eu não gosto de ter uma vida muito acelerada, isso pode acabar por me prejudicar mais do que ajudar", conta. "Sou bastante caseiro, vivo noutro ritmo, gosto mais de ficar aqui na aldeia para limpar o meu quintal, cuidar do meu filho, ficar com os cães, galinhas e patos."

Owerá sabe que sua situação é bastante diferente da população de Dourados, no Mato Grosso do Sul. A aldeia onde mora, no extremo sul de São Paulo, está rodeada pela maior região metropolitana do país, mas não sofre tantas ameaças enfrentadas por outras terras indígenas. Mesmo assim, ele mantém-se firme na luta pela demarcação de terras e pelo respeito à cultura e à tradição dos povos originários. 

Apesar da projeção nacional, Owerá valoriza os tempos tranquilos no quotidiano na aldeia, rodeado pela Mata Atlântica do extremo sul de São Paulo.

Fotografia por Gabi di Bella

Futuro Ancestral   

O quarteto do Brô MC’s, Eric Terena e Owerá participam – em conjunto com indígenas huni kuî, yawanawá, guarani, kariri xocó, kaingang, xakriabá, guarani kaiowá e guarani nhandeva – no Futuro Ancestral, um projeto gravado em parceria com o DJ Alok, que deve ser lançado em 2023. É uma história que começou em 2014, quando o DJ ouviu uma música yawanawá enquanto procurava inspiração, durante uma vivência na floresta na aldeia dos yawanawá, nas margens do rio Gregório, no Acre. “Ali começou todo este processo. Eu percebi que, enquanto fazia música para entrar no Top 10, seguindo fórmulas, eles faziam música para curar. Isso foi uma mudança de paradigma que me fez repensar várias coisas”, conta Alok. 

Para Alok, a melhor maneira de ouvir a floresta é através dos cantos indígenas. “Falamos muito em preservar a floresta. No entanto, como vamos pedir para as pessoas preservarem algo que elas não entendem? Elas já se desconectaram há muito tempo. Só que não precisamos de entender o que dizem para entender a mensagem.”

Uma prova de que há interesse em ouvir as vozes indígenas foi o espetáculo produzido por Alok para o Global Citizen, evento internacional que aconteceu em 2021. “Eles queriam que eu gravasse no elétrico do Pão de Açúcar. Disse que não, que tinha que ser no meio da Amazónia”, conta. Assim, o concerto que seria apresentado somente no Brasil passou para a abertura internacional do evento, que teve também Elton John e os sul-coreanos BTS.

Alok considera que nada pode ser mais tecnológico que a floresta e que, para pensarmos na sociedade do futuro, é preciso garantir a representatividade dos povos indígenas. Isso envolve combater o preconceito que, por exemplo, fez com que os músicos do Brô MC’s tivessem de assistir escondidos ao espetáculo do Alok. “Quando eles me contaram a história do palco, fiquei extremamente chateado. Foi mais uma mentira contada para que se sentissem inferiores", diz o músico. "É uma situação surreal. Eles sofrem muito com esta falta de representação – não há indígenas nas novelas, não há indígenas a apresentar o telejornal, por exemplo."

Com o uso da tecnologia, Alok quer contribuir para manter as culturas ancestrais. Alguns cantos sagrados sobreviveram na oralidade durante centenas de anos. Entretanto, muitos estão a perder-se com a morte de anciãos e a pressão da cultura urbana sobre muitas etnias. Para manter vivas essas mensagens, o DJ gravou 135 cantos tradicionais, que se tornaram NFTs (token não fungível), um tipo de informação digital que nunca mais pode ser mudada. Os royalties desses projetos com Alok e o seu instituto são convertidos para os povos que integram as ações. 

Rasu Yawanawá é um dos jovens líderes de sua etnia, originária da região do Rio Gregório, do Acre, na fronteira brasileira com o Peru. “Os yawanawá utilizaram basicamente a voz como instrumento durante milhares de anos, alguns utilizavam flauta, mas apenas isso. Hoje trabalhamos em muito cantos com os jovens para manter a nossa espiritualidade viva, e também para a partilharmos com o mundo branco. Sinto que isso ajuda a expandir a consciência das pessoas”, afirma.

Fotografia por Keiny Andrade

A cultura como arma de luta 

As músicas que hoje misturam versos nas línguas originárias do português, além de diferentes ritmos e estilos, têm origem nos conhecimentos que foram transmitidos pela oralidade durante milénios. Sons considerados sagrados não têm uma autoria específica, pois os cantos chegam como mensagens divinas, vindas do mundo espiritual. Algo muito forte para o jovem líder indígena Rasu Yawanawá, de 26 anos, que também gravou com Alok. Rasu é um dos muitos cantores deste povo que vive nas margens do rio Gregório, no coração da Floresta Amazónica, no Acre. A equipa de reportagem encontrou-o na Aldeia Akasha, em Itaipava, Rio de Janeiro, onde Rasu partilhava a sua música e conhecimento com pessoas não indígenas antes de ingressar na sua primeira viagem internacional. O caminho no estrangeiro já foi trilhado por outros representantes yawanawás, povo conhecido pela voz forte, tanto dos homens como das mulheres, como Hushahu e Putani Yawanawá, artistas que há anos divulgam a cultura da sua etnia em viagens pelo mundo.

Os yawanawá encontraram na cultura uma saída para mudar sua história. “Nós quase fomos extintos há muito tempo, mas os nossos ancestrais decidiram expulsar os brancos e passámos a viver a nossa própria realidade”, conta Rasu. Iniciado no fim dos anos 1990, esse processo transformou em fonte de sobrevivência a transmissão de saberes culturais e rituais, mas também teve a incorporação de instrumentos de culturas não-indígenas, como o violão. “Os yawanawá, por milhares de anos, utilizaram basicamente a voz como instrumento. Alguns utilizavam flauta, mas só. Hoje trabalhamos muito os cantos com os jovens para manter a nossa espiritualidade viva, e também os partilhamos com o mundo branco. Sinto que isso ajuda a expandir a consciência das pessoas”, considera Rasu.

O cacique Biraci Nixiwaka, avô de Rasu, foi um dos mentores desse processo de mudança, ao lado de outras lideranças, como Tatá e seu filho Shaneihu, que levou o violão para a aldeia. Para o cacique, a música é capaz de encantar as pessoas, mas é preciso ter cuidado na maneira como são realizadas as gravações. “Já tivemos problemas com muitas pessoas que vêm até a floresta e gravam, às vezes até com boa intenção, mas alguns levam para a cidade e modificam alguma coisa e registam em seu nome, isso é errado”, comenta o cacique. Além da hipótese do roubo de conhecimento, outro problema é o conflito com o modo branco de registo de propriedade intelectual. O registo com um único autor é obrigatório no sistema da União Brasileira de Compositores, que não aceita, por exemplo, composições em línguas indígenas no seu sistema.

Rasu no sítio Akasha, no Rio de Janeiro, um dos lugares onde faz cerimónias e convívios nas quais partilha o seu conhecimento sobre rezas, cantos e tradições do povo yawanawá. 

Fotografia por Keiny Andrade

Carou Trebitsch e Nana Vasconcelos Orlandi, produtoras do canal Mi Mawai, do Rio de Janeiro, tiveram que enfrentar esse problema quando decidiram apoiar a gravação de um álbum com músicos da etnia huni kuî, do Acre. “Além do processo com o tempo da floresta, pois eles tiveram que aprovar a gravação em assembleia, não conseguimos registar o álbum no sistema. Procurámos orientações dos órgãos públicos e ninguém sabe como alterar”, afirma Carou. Assim, elas comprometeram-se a repassar os recursos advindos das músicas gravadas para o povo indígena, num compromisso vitalício.

As produtoras organizaram um ciclo de debates sobre a perceção dos povos indígenas sobre este processo da música na atualidade, que contou com a participação de Ailton Krenak, e produziram o documentário Música é Arma de Luta, filmado durante o Acampamento Luta pela Vida, em Brasília, em 2021.

Para o cacique Biraci, este é o caminho mais eficiente para lutar pelos direitos indígenas. “Não é sábio lutar pela forma física. Temos que usar a beleza. A luta é com amor, com a pureza, e não com a violência. Assim, consegue encantar as pessoas, pois até o mais feroz carniceiro tem coração, até ele se curva diante disto”, diz a liderança yawanawá, que considera que o sucesso dessas experiências trouxe o reconhecimento de toda a região para o povo. “Hoje até os políticos e empresários querem tirar fotografias connosco.”

Esse tipo de alteração é visível em diversos níveis na vida dos músicos indígenas. Afinal, nas palavras de Kelvin Mbaretê, do Brô MC’s: “A música é como uma flecha. Onde a apontamos, ela chega”.

 

Este artigo foi publicado originalmente no site nationalgeographicbrasil.com

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