A história dos livros banidos – e como os alvos de censura foram mudando – nos EUA

Desde textos religiosos e romances antiesclavagistas a obras modernas retiradas das bibliotecas escolares, eis como os alvos de censura têm mudado ao longo dos anos.

Por Erin Blakemore
Publicado 8/09/2022, 15:31
 livros banidos

Os livros banidos são mais comuns do que nunca. As histórias em torno de questões LGBTQ+ são frequentemente alvos – incluindo estes cinco livros que sobreviveram recentemente a uma tentativa de remoção das prateleiras da biblioteca da Escola Secundária de North Hunterdon em Annandale, Nova Jersey.

Fotografia por Bryan Anselm, Redux

​​​​​​Mark Twain. Harriet Beecher Stowe. Judy Blume. William Shakespeare. Estes nomes partilham algo que vai para além do seu legado na literatura clássica e um lugar nos currículos escolares: são alguns dos diversos autores cujo trabalho foi banido das salas de aula ao longo dos anos devido a conteúdos considerados controversos, obscenos ou censuráveis pelas autoridades.

Nos EUA, os livros banidos estão novamente nas notícias. No início deste ano, o estado de Utah aprovou uma lei estadual que suprime o “material sensível” nas salas de aula. Enquanto isso, um grupo de mães no estado da Geórgia provocou alarido quando participaram em reuniões do conselho escolar e leram em voz alta passagens de livros que consideram censuráveis, como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, alegando que são “materiais pornográficos”.

Embora a censura seja tão antiga quanto a própria escrita, os seus alvos têm mudado ao longo dos séculos. Descubra como surgiu a proibição de livros nos Estados Unidos – começando quando alguns dos territórios do país ainda eram colónias britânicas – e como a censura afeta os leitores da atualidade.

Religião no início da era colonial

Muita da censura aos primeiros livros banidos foi estimulada por líderes religiosos e, na época em que a Grã-Bretanha fundou as suas colónias na América, já havia uma longa história de censura de livros. Em 1650, o proeminente colono da Baía de Massachusetts, William Pynchon, publicou The Meritorious Price of Our Redemption, um panfleto que argumentava que qualquer pessoa que fosse obediente a Deus e seguisse os ensinamentos cristãos na Terra podia entrar no céu. Isto contrariava as crenças puritanas calvinistas de que apenas algumas pessoas especiais eram predestinadas aos favores de Deus.

Indignados, os colegas colonos de William Pynchon denunciaram-no como herege, queimaram e baniram o seu panfleto – o primeiro evento deste tipo numa nação que mais tarde se viria a tornar nos EUA. Atualmente, só sobrevivem quatro cópias deste controverso panfleto.

A escravatura e a Guerra Civil

Na primeira metade do século XIX, os materiais sobre a questão mais controversa da nação, a escravatura, alarmou os supostos censores no sul. Na década de 1850, vários estados proibiram a expressão de sentimentos antiesclavagistas – tema que a autora abolicionista Harriet Beecher Stowe desafiou em 1851 com a publicação de A Cabana do Pai Tomás, um romance que visava expor os males da escravatura.

Em 1851, Harriet Beecher Stowe concordou em “pintar uma imagem da escravatura” para um jornal abolicionista. A sua história, A Cabana do Pai Tomás, tornou-se de imediato num best-seller – e atraiu a ira dos proprietários de escravos no sul, que queimaram cópias e baniram o livro.

De acordo com a historiadora Claire Parfait, o livro foi queimado publicamente e banido pelos proprietários de escravos juntamente com outros livros antiesclavagistas. Em Maryland, o ministro negro Sam Green foi condenado a 10 anos na penitenciária estadual por possuir uma cópia deste livro.

Na década de 1860, enquanto se avizinhava a Guerra Civil, o sul pró-escravatura continuou a proibir os materiais abolicionistas, ao passo que as autoridades da União proibiam a literatura pró-sul, como a biografia de Stonewall Jackson de John Esten Cook.

Guerra contra a ‘imoralidade’

Em 1873, a guerra contra os livros tornou-se numa questão federal com a aprovação da Lei Comstock, uma lei do Congresso que tornava ilegal possuir textos ou artigos “obscenos” ou “imorais” ou o seu envio pelo correio. Defendida por Anthony Comstock, esta lei foi projetada para banir tanto os conteúdos sobre a sexualidade como sobre o controlo de natalidade – conteúdos que na época estavam amplamente disponíveis por correspondência.

Esta lei criminalizou as atividades dos defensores do controlo de natalidade e forçou os panfletos populares como o Family Limitation de Margaret Sanger à clandestinidade, restringindo a disseminação do conhecimento sobre contraceção num momento em que os debates abertos sobre sexualidade eram tabu e a mortalidade infantil e materna atingia níveis desenfreados. Esta lei permaneceu em vigor até 1936.

Enquanto isso, a obscenidade também era um alvo preferido em Boston, capital do estado que sancionou a primeira queima de livros nos Estados Unidos. Os censores de livros em Boston contestaram tudo o que consideravam “indecente”, desde Leaves of Grass, de Walt Whitman, que o presidente da sociedade de Boston considerava “um pedaço de lixo literário”, até O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway.

A única cópia de A História de uma Serva de Margaret Atwood é fotografada na Sotheby's no dia 3 de junho de 2022 na cidade de Nova Iorque. Esta edição à prova de fogo de um livro frequentemente banido foi criada para aumentar a consciencialização sobre a proliferação da censura.

Fotografia por Slaven Vlasic, Getty

A New England Watch and Ward Society, uma organização privada que incluía muitos dos habitantes da elite de Boston, fez uma petição contra os materiais impressos que consideravam censuráveis e processou livreiros, pressionou a polícia e os tribunais para apresentarem acusações de obscenidade contra autores e estimulou a Biblioteca Pública de Boston para trancar as cópias dos livros mais controversos, incluindo livros de Balzac e Zola, numa sala restrita conhecida por Inferno.

Na década de 1920, a cidade de Boston era tão notória por proibir livros que os autores imprimiam intencionalmente os seus livros na cidade na esperança de que a sua inevitável interdição lhes desse um impulso publicitário noutras partes do país.

Escolas e bibliotecas transformadas em campos de batalha

Apesar de os costumes sociais se terem tornado mais brandos no século XX, as bibliotecas escolares continuaram a ser locais de batalhas contenciosas sobre os tipos de informação que deviam estar disponíveis para as crianças numa era de progresso social e modernização na sociedade americana. Pais e reitores debatiam sobre as obras de ficção e não-ficção durante as reuniões dos conselhos escolares e das comissões bibliotecárias.

As razões para as propostas de censura eram variadas: alguns livros desafiavam narrativas antigas sobre a história americana ou as normas sociais; outros eram considerados problemáticos devido à sua linguagem e conteúdos sexuais ou políticos.

No sul dos EUA, a era Jim Crow foi um momento particular para a censura de livros. As Filhas Unidas da Confederação fizeram várias tentativas bem-sucedidas para proibir os livros escolares que não ofereciam uma visão simpática sobre a perda do sul na Guerra Civil. E também houve tentativas para banir The Rabbits’ Wedding, um livro infantil de 1954 de Garth Williams que mostrava um coelho branco a casar com um coelho negro, porque os seus oponentes acreditavam que o livro encorajava as relações inter-raciais. (Descubra como as leis Jim Crow criaram escravatura com outro nome.)

Estas tentativas de censura tinham um efeito assustador sobre os bibliotecários, que tinham receio de adquirir materiais que pudessem ser considerados controversos. Contudo, alguns bibliotecários escolares e públicos começaram a organizar-se. E responderam a uma onda de desafios contra os livros que os censores da era McCarthy diziam encorajar o comunismo ou o socialismo durante a década de 1950 e lutaram contra as tentativas de censura de livros como As Aventuras de Huckleberry Finn, O Apanhador no Campo de Centeio, O Sol é Para Todos e até Os Contos da Cantuária.

O direito constitucional de ler

Em 1969, O Supremo Tribunal ponderou sobre o direito dos estudantes à liberdade de expressão. No processo judicial Tinker v. Des Moines, um caso que envolveu estudantes que usavam braçadeiras negras na escola em protesto contra a Guerra do Vietname, o tribunal decidiu com uma maioria de 7 contra 2 que “nem professores nem alunos perdiam os seus direitos constitucionais à liberdade de expressão nos portões das escolas”.

Em 1982, O Supremo Tribunal abordou abertamente os livros escolares num caso que envolveu um grupo de estudantes que processou um conselho escolar em Nova Iorque por remover livros de autores como Kurt Vonnegut e Langston Hughes – que o conselho considerava “antiamericanos, anticristãos, antissemitas e simplesmente lixo”.

“Os conselhos escolares locais não podem remover livros das bibliotecas escolares simplesmente porque não gostam das ideias contidas nesses livros”, decidiu o tribunal no caso Island Trees Union Free School District v. Pico, citando os direitos dos alunos expressos na Primeira Emenda.

Contudo, os bibliotecários enfrentaram tantos desafios no início da década de 1980 que criaram a Semana do Livro Banido, um evento anual centrado na liberdade de leitura. Durante a Semana do Livro Banido, a comunidade literária e bibliotecária trabalha na consciencialização sobre os livros mais contestados e as liberdades da Primeira Emenda.

Censura dos tempos modernos

Ainda assim, os desafios enfrentados pelos livros são mais comuns do que nunca. Entre o dia 1 de julho de 2021 e 31 de março de 2022, registaram-se 1.586 proibições de livros em 86 distritos escolares de 26 estados norte-americanos – afetando mais de dois milhões de alunos, de acordo com a PEN America, uma organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão. As histórias com questões ou protagonistas LGBTQ+ têm sido um dos “alvos principais” desta censura, escreve a organização, e outros alvos incluem livros com histórias sobre raça e racismo, conteúdos sexuais ou sobre agressões sexuais, morte e luto. O estado do Texas está na linha da frente na censura de livros; com 713 proibições, quase o dobro do registado noutros estados.

De acordo com a Associação Americana de Livreiros, o livro mais contestado em 2021 foi Gender Queer, de Maia Kobabe, um livro de memórias sobre o que significa ser não-binário. Os outros livros nesta lista incluem O Ódio Que Semeias, de Angie Thomas, e O Olho Mais Azul, de Toni Morrison.

A defensora da Primeira Emenda Pat Scales, uma bibliotecária veterana do ensino básico e secundário da Carolina do Sul e ex-presidente do Comité de Liberdade Intelectual da Associação Americana de Livreiros, diz que a censura total é apenas uma das faces das proibições de livros. Guardar livros em lugares inacessíveis, desfigurar ou marcar os livros de uma forma que os colocam fora do alcance dos alunos também mantém os livros fora das mãos dos possíveis leitores, e os desafios de qualquer tipo podem criar um efeito assustador entre os bibliotecários.

“A censura é sobre controlo”, escreveu Pat Scales em 2007 no livro Scales on Censorship. “A liberdade intelectual tem que ver com respeito.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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