Como a rainha Isabel II abraçou as novas tecnologias durante o seu reinado

Televisão, exploração espacial e até videochamadas via Zoom – a monarca britânica foi uma defensora de todos estes avanços e muito mais ao longo do seu reinado de 70 anos.

Por Erin Blakemore
Publicado 14/09/2022, 11:24
rainha Isabel II

A rainha Isabel II vista num ecrã de televisão a concluir a sua transmissão anual no dia de Natal, a 25 de dezembro de 1957. Este discurso foi televisionado pela primeira vez nesse ano – 25 anos depois de o seu avô, o rei Jorge V, ter iniciado a tradição com um discurso na rádio.

Fotografia por PA Images, Getty

No final da década de 1990, o mundo apaixonou-se pelo email. Mas o mundo estava um pouco atrasado – a rainha Isabel II já enviava emails há décadas. Em 1976, poucos anos depois de o email ter sido desenvolvido como uma forma de académicos enviarem mensagens entre universidades, a rainha enviou o seu primeiro email num evento que celebrava a chegada da primeira rede de internet a Inglaterra – e fê-lo mais cedo do que a maior parte do resto do mundo em cerca de duas décadas.

Foi um evento apropriado – durante as suas nove décadas de vida, sete das quais passadas no trono, a rainha testemunhou enormes mudanças tecnológicas, sociais e científicas. Enquanto monarca britânica de maior longevidade, Isabel tornou-se numa amada chefe de estado de um império em constante mudança. E durante a sua longa vida, Isabel provou ser uma acérrima defensora da ciência e tecnologia.

O interesse de uma jovem Isabel por tecnologia

Nascida em 1926, a princesa Isabel Alexandra Mary Windosr não estava originalmente destinada a ocupar o trono. Mas tudo mudou em 1936, quando o seu tio Eduardo VII abdicou e o seu pai, Jorge VI, tomou o seu lugar. De repente, a princesa de 10 anos era agora herdeira ao trono. (Isabel II foi a rainha mais improvável da Grã-Bretanha dos tempos modernos.)

Durante a Segunda Guerra Mundial, a futura rainha serviu como segundo subalterno – o equivalente a segundo tenente – no Serviço Territorial Auxiliar Feminino, o ramo feminino do Exército Britânico. Isabel teve formação em mecânica automóvel, e nesta imagem está a trabalhar no motor de um carro.

Os deveres reais de Isabel não a dissuadiram de se interessar por tecnologia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a princesa pressionou o pai para a permitir servir o país. O pai acabou eventualmente por concordar em deixá-la ser voluntária no Serviço Territorial Auxiliar Feminino, o ramo feminino do Exército Britânico, onde se tornou motorista e recebeu formação em mecânica automóvel. Foi um movimento pioneiro, porque Isabel não foi apenas o primeiro membro da sua família a servir nas forças armadas – a visão de uma mulher a desmontar motores e a trocar pneus sinalizou uma mudança radical nos papéis sociais e de género, algo que se iria manifestar continuamente na vida da futura rainha.

Em 1952, Isabel ascendeu ao trono após a morte do pai. Agora esposa e mãe, Isabel escolheu reinar sob o seu próprio nome – evocando Isabel I, cujo reinado da era renascentista é agora considerado uma era de ouro da tecnologia e da ciência.

O próprio reinado de Isabel foi moderno desde o início. O nascimento da nova rainha coincidiu aproximadamente com o desenvolvimento da televisão e, durante os planos para a sua coroação, Isabel rompeu com a tradição e permitiu à BBC transmitir o evento pela televisão ao vivo. Foi a primeira coroação alguma vez televisionada, e criou literalmente um momento televisivo imperdível. Mais de 20 milhões de pessoas por todo o mundo assistiram à transmissão, que é creditada por catapultar a televisão no seio do público. (Exclusivo: Fotografias raras da rainha Isabel II dos arquivos da National Geographic.)

A rainha Isabel II usa a coroa de São Eduardo na cerimónia da sua coroação na Abadia de Westminster, a 2 de junho de 1953. Esta foi a imagem vista pelos telespectadores imediatamente após o arcebispo de Canterbury, Geoffrey Fisher, colocar a coroa na cabeça da rainha.

Fotografia por PA Images, Getty
Esquerda: Superior:

Espectadores pelo mundo inteiro foram cativados pela coroação da rainha Isabel II – a primeira coroação alguma vez televisionada. Em Vancouver, no Canadá, mais de 1.200 pessoas reuniram-se num centro comunitário para assistir às festividades.

Direita: Inferior:

Numa rua de Nova Iorque, transeuntes reúnem-se para assistir à coroação da rainha na televisão de uma loja.

fotografias de Photograph via Bettmann, Getty

Reinar durante a era atómica

Outras novas tecnologias também influenciaram o reinado de Isabel, que chegou ao poder quando a era atómica arrancou a todo o vapor, influenciando a geopolítica e estimulando os avanços científicos. O receio da era nuclear levou o mundo a uma Guerra Fria cada vez mais perturbadora, e o Reino Unido testou as suas próprias armas atómicas durante a década de 1950. O Reino Unido aliou-se aos Estados Unidos, ficando com a reputação de “porta-aviões inafundável da América” por abrigar armas nucleares dos EUA.

Isabel ajudou a nação a conhecer os avanços nucleares. Em 1956, Isabel inaugurou a primeira central nuclear do mundo, Calder Hall, ligando o interruptor ao som de aplausos dos espectadores. Mas esta tecnologia também acarretava os seus próprios riscos – no ano seguinte, um reator incendiou-se numa central nuclear nas proximidades, em Windscale. Foi o pior desastre nuclear da Grã-Bretanha.

Enquanto isso, o governo britânico, preocupado com a possibilidade de um ataque nuclear, desenvolveu um plano para a rainha escapar para um bunker flutuante nos lagos escoceses. (Esta plano de evacuação foi recentemente ressuscitado e revisto devido aos receios de que um possível Brexit sem acordo pudesse desencadear tumultos.) Caso a Grã-Bretanha fosse atacada, a rainha também planeava fazer um discurso apocalíptico a preparar a nação para a Terceira Guerra Mundial. Décadas após o início da Guerra Fria, Isabel foi creditada por desempenhar um papel “poderoso” no seu fim, quando recebeu o presidente soviético Mikhail Gorbachev no Palácio de Windsor em 1991.

Legado de apoio à ciência

A monarca também conviveu com titãs da ciência e da tecnologia. Isabel conheceu os cosmonautas soviéticos Yuri Gagarin e Valentina Tereshkova, e gravou uma mensagem de boa vontade que foi deixada na lua pelos astronautas da Apollo 11, astronautas que conheceu pessoalmente em 1969. Isabel também reconheceu centenas de cientistas influentes, concedendo à primatóloga Jane Goodall a Excelentíssima Ordem do Império Britânico e nomeando James D. Watson, pioneiro na investigação de ADN, Cavaleiro do Império Britânico.

No Palácio de Buckingham, a rainha Isabel II recebe os astronautas da Apollo 11, Michael Collins, Neil Armstrong e Buzz Aldrin, durante a sua digressão mundial em outubro de 1969, poucos meses depois da sua alunagem histórica.

FOTOGRAFIA POR Bettmann, Getty

Durante o seu reinado, porém, o Império Britânico chegou ao fim, quando as várias colónias do Reino Unido conquistaram a independência e formaram uma coligação livre conhecida por Commonwealth. Embora Isabel II tenha sido criticada por lucrar com o colonialismo e fazer pouco para reconhecer ou reparar os danos brutais deste legado, o seu patrocínio real estendeu-se a organizações sem fins lucrativos por toda a Comunidade Britânica, muitas delas focadas em investigações médicas ou científicas.

A própria rainha também gostava de tecnologia e fez transmissões ao vivo a partir das moradias reais, permitiu o uso da internet por parte da realeza e foi uma das primeiras pessoas a atravessar o túnel do Canal Mancha, a ferrovia submarina que liga a Grã-Bretanha ao resto da Europa. Isabel enviou uma das suas tradicionais mensagens de Natal em 3D e até usou o Instagram para partilhar uma fotografia de uma carta que o pioneiro da computação, Charles Babbage, enviou para o seu tetravô em 1843.

A rainha foi uma de muitas pessoas que começaram a usar as reuniões virtuais durante a pandemia de COVID-19. Nesta imagem, Isabel aparece numa videochamada a partir do Castelo de Windsor para cumprimentar Gaitri Issar Kumar, na altura alto comissário da Índia no Reino Unido, durante a sua visita ao Palácio de Buckingham em março de 2022.

Fotografia por Victoria Jones, AFP, Getty

Mais recentemente, Isabel também abraçou os esforços de conversação do ambiente, dando a sua bênção a uma iniciativa que incentiva a conservação de florestas por toda a Commonwealth e combatendo o uso de plástico nas propriedades reais depois de trabalhar com David Attenborough – o naturalista britânico que Isabel condecorou duas vezes – num documentário sobre as florestas da rainha.

A morte da monarca de maior longevidade do Reino Unido é o fim de uma época isabelina no Reino Unido, sobre a qual reinou durante 70 anos e 127 dias. Contudo, na realidade, o reinado da rainha estendeu-se ao longo de várias eras, unindo o velho e novo, impulsionando também a monarquia – cuja existência é há muito contestada no Reino Unido – para um futuro que parecia inconcebível no início do seu reinado.

A monarquia que a rainha representava pode ter 1.500 anos, mas a era isabelina mais recente será recordada como uma era de enormes progressos tecnológicos, sociais e científicos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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