Nova biografia revela os bastidores da família fundadora da National Geographic

Gilbert M. Grosvenor, presidente aposentado da National Geographic, agora com 91 anos, tinha um lugar na fila da frente para as audaciosas proezas de exploração.

Gilbert M. Grosvenor reunido com membros da equipa da National Geographic depois de ter sido nomeado Editor do Ano em 1974 pela Associação Nacional de Fotógrafos de Imprensa dos EUA. “O mérito deve-se inteiramente à equipa”, escreve Gilbert no seu novo livro biográfico.

Fotografia por Joseph J. Scherschel, Nat Geo Creative
Por Cathy Newman
Publicado 20/09/2022, 15:43

Em 2010, quando Gilbert M. Grosvenor se aposentou do cargo de presidente da National Geographic Society, encerrando assim cinco gerações sucessivas e 122 anos de administração familiar, a sua atitude foi caracteristicamente modesta. “Fiz o meu trabalho”, disse Gilbert. “Está na hora de outras pessoas terem a sua oportunidade.”

Apesar de ter tido o privilégio de uma educação na Ivy League e possuir uma casa de verão numa propriedade na Nova Escócia que pertencia ao seu bisavô Alexander Graham Bell, Gilbert Grosvenor manteve sempre um perfil discreto. Chegou a levar uma sandes de manteiga de amendoim e geleia num voo e usava “fatos ostensivamente baratos”, de acordo com um jornalista.

Na década de 1980, a National Geographic Society lançou um esforço nacional para melhorar o ensino de geografia nas escolas dos EUA. Esta iniciativa levou Gilbert Grosvenor às salas de aula de todo o país – incluindo esta viagem feita em 1989 à Escola Básica de Shenandoah, em Miami. Gilbert aparecia muitas vezes com um lápis gigante e partilhava sempre um globo insuflável de plástico com todos os alunos.

Fotografia por Pete Souza, Nat Geo Image Collection

Mas esta personalidade discreta esconde as contribuições de um homem e família que ajudaram a tornar a National Geographic no império multimédia icónico que conhecemos atualmente. A organização fundada em 1888 “para aumentar e difundir o conhecimento geográfico” expandir-se-ia durante o mandato de Gilbert Grosvenor para a área da televisão, cinema, livros, publicações infantis e formatos digitais. E também estendeu o seu alcance aos leitores de línguas estrangeiras e restaurou o ensino de geografia nas salas de aula americanas – um feito pelo qual Gilbert Grosvenor recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade.

    

Ilustração de Jim Tierney

Na sua nova biografia, A Man of the World, Gilbert M. Grosvenor, agora com 91 anos, explica como foi crescer na empresa familiar que era a National Geographic e as razões pelas quais a missão da National Geographic Society é agora mais importante do que nunca. Gilbert Grosvenor falou por telefone a partir da sua cabana à beira do lago na Nova Escócia. Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Cresceu numa casa onde todos, desde o explorador polar Robert Peary até Amelia Earhart e Louis Leakey expandiram os horizontes. O seu bisavô, Alexander Graham Bell, inventor do telefone, foi um dos fundadores da National Geographic Society. A imprensa chamava aos seus avós [Gilbert H. e Elsie Bell Grosvenor] “Sr. e Sra. Geografia”. Pertencer à família Grosvenor era um fardo?

Sim. Eu era motivado pelo receio de fracassar e não conseguia tolerar a noção de não ter sucesso. No início da minha carreira, quando era fotógrafo da revista, sabia que sempre que tirava uma fotografia, o mundo inteiro estava a observar.

Vamos falar sobre a sua vida antes da National Geographic. Ironicamente, frequentou um curso de geografia na Universidade de Yale.

Foi horrível. Quantas bananas exportou o Brasil no ano passado? Isto era a geografia na altura, e eu acabei por desistir do curso.

O avô de Gilbert Grosvenor, Gilbert Hovey Grosvenor (à esquerda), e a avó, Elsie Bell Grosvenor (ao centro, em cima), relaxam com os seus filhos em 1907 na casa de verão dos pais de Elsie, Alexander Graham Bell e Mabel Hubbard Bell (ao centro), na Ilha do Cabo Bretão, na Nova Escócia.

A primeira aparição de Gilbert Grosvenor na revista National Geographic foi na edição de julho de 1939 num artigo sobre o Instituto Smithsonian, onde Gilbert posou sentado num meteorito.

A sua carreira original passava pela medicina, mas a sua vida deu uma volta.

Entre o meu primeiro e último ano, visitei os Países Baixos integrado num programa para ajudar a reparar os danos provocados por uma enorme inundação. Um amigo e eu apresentámo-nos como voluntários e o meu pai perguntou se podíamos fazer um artigo para a revista. Fiquei impressionado com os danos e também com o espírito dos holandeses. Percebi que a única forma de o mundo tomar conhecimento disto era através da National Geographic. Isso mudou a minha vida. Fiquei viciado no poder de contar histórias e descobri o poder do jornalismo.

Juntou-se à “empresa de família” como editor de fotografias para a revista, tornou-se editor aos 39 anos e publicou um tema sobre a poluição, mostrando que a fama “cor-de-rosa” da revista estava errada. Talvez mais controverso tenha sido o artigo de junho de 1977 sobre a África do Sul, que analisava cruamente o apartheid e o seu legado de pobreza. O governo sul-africano menosprezou o artigo e acusou-o de ser tendencioso.

Quando enviámos antecipadamente uma cópia dessa edição ao embaixador da África do Sul, Pik Botha, ele convocou-me ao seu gabinete. Estava furioso. Quando o confrontei com um exemplar da revista Time que tinha um artigo que não poupava o seu país, Pik Botha pegou no exemplar da nossa revista, atirou-o sobre a mesa e disse: “Você não percebe. As pessoas acreditam no que você escreve!”

O avô de Gilbert Grosvenor, Gilbert Hovey Grosvenor, foi o primeiro editor a tempo inteiro da National Geographic. “Nos 66 anos que passou ao serviço da National Geographic Society, ele passou de ser o único funcionário a dirigir uma equipa de centenas de pessoas”, escreve Gilbert Grosvenor. “Ao transformar um jornal académico na popular revista National Geographic, Gilbert Hovey Grosvenor tornou-se, na minha opinião, no pai do fotojornalismo de revista.”

Fotografia por Wallace W. Nutting, Nat Geo Image Collection
Esquerda: Superior:

“Tinha acabado de desfrutar de uma das melhores experiências da minha vida: mergulhar sob a calota polar num campo de investigação canadiano”, diz Gilbert Grosvenor, que aparece a segurar numa bandeira das expedições polares do explorador Robert E. Peary do início do século XX.

Direita: Inferior:

Gilbert Grosvenor e os seus colegas verificam a edição de junho de 1977 da National Geographic numa nova gráfica em Corinth, no Mississippi. Esta gráfica foi construída por encomenda para produzir milhões de cópias por mês.

Pik Botha “colocou inadvertidamente o dedo na ferida que nos movia”, escreve no seu livro. A confiança é agora mais relevante do que nunca numa era de “fake news”.

Sim, essa confiança é depositada na equipa da National Geographic e principalmente nos investigadores da revista [que verificam os factos].

O artigo sobre a África do Sul também provocou desconforto entre alguns membros do conselho que não o aprovavam. A ameaça de um comité de supervisão editorial pairava sobre a revista.

Eu estava determinado em não perder o controlo editorial. Eu afoguei-os [os membros do conselho] no artigo. Eu tinha um carrinho carregado com pilhas de documentação a mostrar a interminável verificação de factos que fizemos para garantir a sua autenticidade, provando que cada palavra tinha sido verificada duas e três vezes antes da publicação. Em última análise, foi a integridade editorial que saiu a ganhar.

Vamos falar sobre as mulheres que desempenharam um papel importante na National Geographic Society, começando pela sua avó, Elsie Bell Grosvenor.

Ela ficava acordada até tarde com o meu avô enquanto ele trabalhava para tentar transformar a revista. Foi ela que desenhou a bandeira da National Geographic. A minha avó era sufragista e fez o meu avô marchar com ela pela Pennsylvania Avenue no desfile do sufrágio feminino em 1913. E também havia a Eliza Scidmore. Foi ela que incentivou o meu avô a publicar fotografias a cores na revista e foi a responsável pelas cerejeiras japonesas plantadas em torno de Tidal Basin. E também havia mulheres fotógrafas nos primeiros dias, como Eliza Scidmore e Harriet Chalmers Adams — sem esquecer as exploradoras e cientistas mais contemporâneas como Jane Goodall, Sylvia Earle, Eugenie Clark, Dian Fossey e Birute Galdikas.

Gilbert M. Grosvenor e Melvin Payne – aqui fotografados em 1969 – tinham uma relação “mutuamente cautelosa” quando Melvin Payne era o presidente da National Geographic Society e Gilbert Grosvenor estava a caminho de se tornar editor, escreve Gilbert Grosvenor. “Concordávamos em duas coisas – no nosso amor pela National Geographic Society e na nossa reverência pelo seu principal arquiteto, o meu avô Gilbert Hovey Grosvenor, retratado na imagem atrás de nós.”

A equipa da revista era conhecida por ter alguns personagens exuberantes.

Eles mantinham a revista vibrante. Quando Luis Marden – que se tornou chefe da Equipa Editorial Estrangeira – veio para a sua entrevista de emprego na década de 1930, voou de Boston num avião coberto de tecido. Luis Marden encontrou os destroços do H.M.S. Bounty, foi pioneiro na fotografia subaquática a cores, descobriu uma nova espécie de orquídea que recebeu o seu nome e refez a viagem de Colombo usando o registo original da frota. Quando era adolescente, Luis Marden aprendeu a ler hieróglifos egípcios. E depois também havia o meu melhor amigo, Tom Abercrombie, um pioneiro da fotografia moderna na revista, creditado como o primeiro jornalista a pisar o Polo Sul. Tom Abercrombie também refez o trilho do olíbano de 2.575 quilómetros pela Península Arábica e era fluente em árabe. E Franc Shor, um editor que afirmava conhecer todas as famílias reais do mundo e falava turco, persa e mandarim. Franc Shor também era corporalmente muito exuberante, propenso ao excesso. E tinha a sua própria adega no Ritz em Paris.

“Era proverbial que ninguém atirasse a revista fora”, escreve no seu livro. Mesmo nesta era digital, muitas casas têm prateleiras cheias com a revista amarela. O presidente Ronald Regan fez alusão a este facto quando inaugurou um novo edifício no campus da National Geographic em 1984.

O presidente Reagan veio ao nosso auditório, olhou para a sala cavernosa, gesticulou em direção ao edifício e disse: “Parece que vocês também têm problemas em armazenar as revistas antigas da National Geographic.” E fez com que todos desatassem a rir.

Quando o presidente Ronald Reagan inaugurou um novo edifício no campus da National Geographic em 1984, disse em tom de brincadeira: “Parece que vocês também têm problemas em armazenar as revistas antigas da National Geographic.” O seu comentário fez com que todos desatassem a rir, diz Gilbert Grosvenor. “A maior parte dos nossos membros nunca iria descartar uma revista.”

Disse que “se não soubermos onde estamos, estamos em lado nenhum”, ou seja, devemos considerar a geografia. Afinal de contas, a organização é a National Geographic Society e a revista chama-se National Geographic. Porque é que a geografia é importante?

A geografia afeta praticamente tudo. Podemos usar como exemplo a Ucrânia. Para compreendermos a sua importância, precisamos de saber que se trata de um amortecedor entre os países do leste europeu, como a Polónia, Moldávia, Eslováquia, e o resto da Europa. A Ucrânia é um dos maiores exportadores de trigo do mundo e fornece 40% do óleo de girassol do planeta. Estou a olhar pela janela da minha cabana e vejo as correntes e as marés. Porque é que uma garrafa atirada ao mar na costa da Flórida acaba na Irlanda? É a Corrente do Golfo em ação. E em relação à dramática mudança da flora e da fauna para norte? Isso deve-se ao aquecimento global. Conhecer geografia é compreender o mundo e os seus problemas – não apenas a política, mas também as alterações climáticas, a desertificação, a acidificação dos oceanos, os padrões de migração. Devemos aprender geografia se nos quisermos tornar melhores cuidadores do mundo em que vivemos, se quisermos garantir a nossa qualidade de vida – e quiçá até a nossa sobrevivência.

Em trabalho no Sri Lanka em 1965, Gilbert Grosvenor documenta a produção de vinho de palma. Esta fotografia, escreve Gilbert, “envolveu ficar precariamente empoleirado numa corda para captar um ‘toddy tapper’ a colher seiva na copas das árvores”.

Apesar dos desafios – que são muitos – Gilbert termina com uma nota otimista.

Acredito que conseguimos ser resilientes e adaptáveis. Podemos e devemos preservar vastas extensões de floresta e colher apenas a madeira necessária de forma sustentável. Podemos usar uma energia mais limpa. Podemos proteger vastas extensões de recifes de corais e outros pontos de foco de biodiversidade marinha no oceano.

Que conselho dá aos seus sucessores?

Façam aquilo que fazemos melhor e não aquilo que os outros fazem.

Cathy Newman é ex-editora da National Geographic cujo trabalho tem sido publicado no The Economist, NPR.com e na Science. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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