Quem eram os Maias? Descodificar os segredos de uma antiga civilização.

Esta sociedade construtora de pirâmides reinou sobre grande parte da América Central até que entrou em colapso. Atualmente, os seus descendentes mantêm muitas das tradições vivas – um sinal de resiliência.

Por Erin Blakemore
Publicado 9/09/2022, 10:42
escultura da cabeça de um guerreiro Maia

Esta escultura da cabeça de um guerreiro Maia foi encontrada no Templo das Inscrições em Palenque, no México. O Templo das Inscrições, uma das maiores e mais bem preservadas pirâmides Maias, era um mausoléu do governante K'inich Janab Pakal do século VII.

Fotografia por De Agostini via Getty Images

A evidências de uma civilização há muito perdida estava por toda a parte – debaixo de um convento espanhol, debaixo de uma rua. A maior parte estava coberta por trepadeiras e vegetação, reivindicada pela selva. Mas quando dois exploradores anglo-americanos perscrutaram a Península de Yucatán nas décadas de 1830 e 1840, rapidamente ficaram convencidos de que estes locais misteriosos eram tesouros arqueológicos importantes.

As funções destes locais e artefactos – templos, pirâmides, resquícios de arte e até de escrita – eram praticamente desconhecidas. No entanto, como descreveu John Lloyd Stephens em 1841, todos pareciam ser obra do mesmo grupo de pessoas.

“Quem era esta raça, de onde veio, ou quem eram os seus progenitores, não me atrevi a dizer, nem eu sabia”, escreveu John Stephens.

As ruínas em questão eram os remanescentes dos Maias, uma imponente civilização mesoamericana que outrora cobriu grande parte da América Central, desde a região norte do Belize, passando pela Guatemala e acabando no sul do México. Agora sabe-se muito mais sobre as pessoas responsáveis por alguns do maiores feitos deste género: os Maias cultivaram as primeiras colheitas da região e domesticaram vida selvagem, construíram as primeiras cidades e criaram ou refinaram quase todos os aspetos da civilização moderna.

Apesar de os seus descendentes terem preservado algumas das tradições e conhecimentos culturais, há muitas coisas sobre os Maias que continuam tão misteriosas atualmente como eram há séculos, quando os seus segredos permaneciam escondidos à vista de todos.

Origens dos Maias

As origens desta cultura continuam envoltas em mistério, mas acredita-se que tenha surgido pela primeira vez entre 7000 a.C. e 2000 a.C., quando os caçadores-coletores abandonaram os seus hábitos nómadas e criaram assentamentos mais permanentes. As análises recentes sugerem que estes primeiros colonos vieram da América do Sul e provavelmente desenvolveram o seu alimento básico, o milho, por volta de 4000 a.C. O cultivo de milho mudou drasticamente a trajetória de vida dos Maias, alimentando literalmente a explosão da sua sociedade e cultura.

Uma reprodução de um dos murais complexos e coloridos que cobrem as paredes do Templo dos Murais em Bonampak, um sítio arqueológico Maia em Chiapas, no México. Nas três divisões deste edifício, os murais contam histórias de guerra e celebram um antigo império.

Fotografia por Henri Stierlin, Bildarchiv Steffens, Bridgeman Images

Estes recém-chegados não plantaram apenas milho: também aprenderam a preparar o milho para consumo humano através da nixtamalização, um processo no qual o milho seco é embebido e depois cozido numa solução alcalina que o amolece e  torna mais digerível. Os Maias iriam continuar a cultivar outros vegetais importantes, como abóbora, mandioca e feijão.

Este povo aparentemente trocou ideias e evoluiu com a vizinha civilização Olmeca, que alguns consideram ser uma das sociedades mais influentes da antiguidade. Os investigadores acreditam que foi por isso que os Maias adotaram os seus complexos rituais pelos quais ficaram famosos. Tal como os Olmecas, os Maias rapidamente se concentraram em construir cidades em torno das suas áreas de rituais. Estes avanços na agricultura e no desenvolvimento urbano ficaram conhecidos por período pré-clássico dos Maias, entre 1500 e 200 a.C. (Complexo cerimonial Maia descoberto “à vista de todos”.)

À medida que os Maias desenvolviam a sua sociedade, lançaram as bases que deram origem a complexas redes de comércio, aos avanços nas técnicas de irrigação, purificação de águas e técnicas agrícolas, esforços de guerra, desportos, escrita e um calendário complexo. O seu intrincado calendário incluía três sistemas de datação — um para os deuses, um para a vida civil e um terceiro calendário astronómico conhecido por Contagem Longa. O ponto de partida deste terceiro calendário foi fixado na data lendária da criação do homem, correspondente a 11 de agosto de 3114 a.C. O calendário de Contagem Longa iniciou um novo ciclo no dia 21 de dezembro de 2012, levando ao mito de que o mundo acabaria nessa data. (Apesar das lendas urbanas e das interpretações erradas de longa data sobre as tradições Maias, a mudança no ciclo deste calendário não trouxe consigo o dia do juízo final.)

Sociedade Maia no seu auge

Durante o período clássico (200-900 d.C.), a civilização Maia atingiu o seu auge. O mesmo aconteceu com a sua arquitetura – os Maias refinaram os seus templos em forma de pirâmide e edifícios grandiosos que pareciam palácios, embora não se saiba ao certo se eram realmente usados como residências para a elite ou se serviam outras funções.

Entre as cidades Maias mais importantes estavam Palenque, Chichén Itzá, Tikal, Copán e Calakmul. Contudo, apesar de os Maias partilharem uma sociedade, não se tratava de um império. Em vez disso, estas cidades-estado e os seus governantes locais oscilaram entre uma coexistência pacífica e a luta pelo poder. Alguns lugares, como a aldeia de Joya de Cerén, parecem ter sido governados por um governo coletivo em vez de um senhor todo poderoso.

A arquitetura e arte Maias refletiam crenças religiosas bastante enraizadas. Os Maias abraçaram a K'uh e k'uhul – a crença de que a divindade pode ser encontrada em todas as coisas, mesmo nos objetos inanimados. Mais uma vez, o milho era vital para estas crenças – entre os deuses Maias mais importantes estava Hun Hunahpu, o deus do milho, e a tradição Maia afirmava que as divindades criaram primeiro os humanos a partir da lama, depois da madeira e depois do milho.

Esquerda: Superior:

Uma estátua de cerâmica de um nobre Maia no Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México.

Fotografia por Henri Stierlin, Bildarchiv Steffens, Bridgeman Images
Direita: Inferior:

Uma estátua de cerâmica pintada de um homem Maia sentado, criada no final do período clássico desta civilização, entre 600 e 900 d.C.

Os Maias adoravam os seus deuses através de uma variedade de rituais. Entre estes estavam o sacrifício humano e o derramamento de sangue – costumes que captaram a imaginação moderna. O desporto Maia conhecido por pitz, precursor do futebol, tinha as suas próprias implicações rituais – os investigadores acreditam que os derrotados neste jogo eram por vezes sacrificados como forma de reconhecimento aos deuses Maias do sol e da lua, que alegadamente teriam praticado o mesmo desporto durante mito da criação Maia, ou Popol Vuh.

O colapso da civilização Maia

Embora algumas cidades do norte tenham continuado a prosperar, a maioria dos centros Maias começou a entrar em colapso durante os séculos IX e X d.C. As relações entre as cidades azedaram, mais guerras foram travadas, o comércio diminuiu e a taxa de mortalidade também aumentou.

As teorias sobre o fim desta civilização são variadas. Uma das hipóteses, suportada por simulações climáticas, é a de que uma longa seca – combinada com técnicas agrícolas de corte e queima que destruíram as florestas das quais os Maias dependiam – acabou por levar ao seu declínio. De repente, os centros urbanos outrora ricos tornaram-se terrenos baldios, à medida que alguns Maias faleciam e outros se espalhavam por uma variedade de terras férteis e montanhosas mais a sul. Enquanto cidades enormes como Chichén Itza caíam, cidades como Mayapán ganhavam mais proeminência. Outros Maias abandonaram completamente as suas cidades, estabelecendo-se em pequenas aldeias.

O povo Maia persistiu, mas a queda da sua civilização deixou os restantes mais vulneráveis às pressões da colonização europeia a partir do século XVI. Quando Espanha conquistou completamente os Maias por volta de 1524, a maioria das suas cidades mais importantes já tinha sido abandonada.

Enquanto isso, os exploradores espanhóis recém-chegados prestaram pouca atenção às ruínas que estavam espalhadas pelas suas colónias, mesmo quando conquistaram as terras Maias e forçaram os povos indígenas a converterem-se ao cristianismo.

Redescobrir os Maias

Só na década de 1840 é que os maias foram “redescobertos” por exploradores e investigadores que ficaram intrigados com os vestígios desta civilização. O advogado e diplomata americano John Lloyd Stephens e o artista e arquiteto inglês Frederick Catherwood lideraram uma série de expedições arqueológicas à América Central, onde mapearam e documentaram sítios Maia.

A existência de ruínas na área era conhecida, porém, muitos europeus acreditavam que os indígenas eram primitivos e pouco inteligentes, e que não tinham criado os artefactos históricos presentes na região. John Lloyd Stephens e Frederick Catherwood queriam provar que estas teorias estavam erradas e estabelecer tanto o valor dos sítios arqueológicos como as identidades dos seus criadores.

Apesar de estarem convencidos sobre a antiga glória dos Maias, os dois investigadores também tentaram lucrar com o que encontraram, chegando a tentar comprar cidades Maia inteiras e transportá-las para um museu em Nova Iorque. No entanto, o seu trabalho forçou o mundo a prestar atenção à civilização Maia e estabeleceu uma base para as futuras descobertas arqueológicas.

Atualmente, o campo da arqueologia Maia está a florescer, e as escavações modernas têm revelado um pouco de tudo, desde ruínas a relíquias religiosas na selva que as engoliu. Os estudiosos continuam a tentar descobrir mais sobre os Maias, a sua ambiciosa ascensão e misteriosa queda.

As relíquias arqueológicas podem ser tudo o que resta do seu passado, mas os Maias continuam vivos. Mais de seis milhões de descendentes Maias vivem na América Central da atualidade, onde ainda são faladas mais de 30 línguas provenientes do antigo Maia. Estes descendentes também mantêm vivas muitas das tradições agrícolas, religiosas e de gestão de terras – um sinal de resiliência da cultura Maia perante séculos de agitação e mudanças.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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