As icónicas estátuas da Ilha da Páscoa continuam em risco após um incêndio devastador

Os incêndios registados recentemente fustigaram património cultural, provocando “danos irreparáveis” a centenas de ‘moais’ sagrados em Rapa Nui. Eis o que precisa de saber.

Por Allie Yang
Publicado 24/10/2022, 12:29
Ilha da Páscoa

Centenas de estátuas, ou moais, preenchem a paisagem da Ilha da Páscoa, conhecida pelos seus habitantes por Rapa Nui. A maioria dos moais circunda a ilha de costas viradas para o mar, mas muitas das estátuas nunca saíram da pedreira de Rano Raraku, na imagem, onde foram esculpidas em pedra vulcânica.

Fotografia por Susan Seubert

A Ilha da Páscoa, um dos locais habitados mais remotos da Terra, é famosa pelas cerca de mil estátuas enigmáticas e imponentes que pontilham a sua paisagem, chamadas moais.

Embora a extensão real dos danos ainda esteja a ser apurada, este desastre é apenas uma das muitas ameaças que pairam sobre as estátuas sagradas – juntamente com as alterações climáticas e as atividades humanas. Para o povo de Rapa Nui, os riscos são imensos, diz a arqueóloga Jo Anne Van Tilburg, diretora do Projeto Easter Island Statue.

“Elas cuidam da memória das pessoas que partiram antes”, diz Jo Anne Van Tilburg. “Estão zangadas por se ter perdido tanto sem culpa própria.”

Esquerda: Superior:

Embora tenham sido encontrados monólitos semelhantes por toda a Polinésia, as estátuas de Rapa Nui são únicas devido ao seu tamanho e rostos solenes.

Direita: Inferior:

Uma das teorias sobre a forma como os moais foram transportados é semelhante à especulada para a forma como foram movidos os megálitos de Stonehenge: trabalhadores transportaram as enormes estátuas em trenós de madeira a deslizar sobre troncos de árvores.

fotografias de Susan Seubert

Muito do conhecimento sobre a história e tradições do povo de Rapa Nui perdeu-se ao longo do tempo. Mas sabe-se muito sobre as estátuas e a rica cultura que as construiu – e como podem ser protegidas durante tempos vindouros.

O que são os moais – e quem os construiu?

Segundo a contagem mais recente na ilha, existem 1.043 moais completos, estátuas enormes com cabeças proeminentes feitas de pedra vulcânica. Ao contrário do que se costuma pensar, não são apenas cabeças – também têm troncos, embora muitos estejam parcialmente ou completamente enterrados. As estátuas têm cerca de quatro metros de altura e pesam 10 toneladas.

A maioria das estátuas está de costas voltadas para o mar em plataformas de pedra chamadas ahu, que suportam até 15 estátuas. Alguns moais estão adornados com pedras cilíndricas vermelhas, chamadas pukao, nas suas cabeças, que representam um topete de cabelo.

Contudo, desconhece-se o número real de moais na ilha porque muitos permanecem enterrados na pedreira de Rano Raraku, na costa sul da ilha, onde as estátuas foram construídas. O maior moai descoberto até agora, chamado “El Gigante”, nunca saiu de Rano Raraku – tem 21 metros de altura e acredita-se que pese cerca de 200 toneladas.

As estátuas foram erguidas centenas de anos antes de os primeiros europeus chegarem à ilha no domingo de Páscoa de 1722. Jo Anne Van Tilburg acredita que os polinésios descobriram a ilha por volta do ano 1000 d.C. e desenvolveram sistemas sociais, políticos e religiosos avançados que produziram os nobres moais.

Rapa Nui foi desflorestada em 1722, quando chegaram os primeiros europeus. As evidências mostram que os povos indígenas da ilha conseguiram de certa forma adaptar-se através de sistemas agrícolas resilientes.

Fotografia por Susan Seubert

As estátuas mais antigas encontradas na ilha remontam ao século XIV, e as mais recentes datam de finais do século XVI ou início do século XVII.

Porque construíram os moais?

O povo de Rapa Nui acreditava que os seus líderes eram descendentes dos deuses e que, após a morte, tornar-se-iam novamente divinos. As estátuas foram construídas para conter temporariamente os espíritos dos seus antepassados. As plataformas ahu sobre as quais as estátuas estão colocadas foram outrora locais de rituais sacrificiais – e em alguns locais as escavações têm revelado restos humanos, tanto cremados como sepultados.

“A minha teoria pessoal [é a de que os moais] são recipientes nos quais estes espíritos em movimento podem ser capturados e mantidos em segurança, para poderem continuar a ajudar as pessoas que ficaram para trás”, diz Jo Anne.

Existe uma ligação evidente entre os moais de Rapa Nui e os monólitos semelhantes encontrados por toda a Polinésia. Os especialistas acreditam que estas estátuas vêm de uma religião comum – mesmo que nem sempre sejam parecidas.

“Os monólitos do Havai, por exemplo, parecem bastante ferozes. Os seus rostos estão retorcidos de raiva”, diz Jo Anne. “Só as esculturas de Rapa Nui é que nos dizem que são 100% humanas.”

Atualmente, as estátuas continuam a ser consideradas sagradas – é ilegal tocar nos moais – e uma fonte de vida espiritual, ou mana.

Como foram construídos os moais?

O povo de Rapa Nui esculpiu os moais diretamente em tufo vulcânico, uma pedra porosa composta por cinza solidificada, em Rano Raraku, um vulcão extinto.

Os escultores de moais eram considerados mestres artesãos e eram reconhecidos pelo seu trabalho. O processo era incrivelmente secreto, diz Jo Anne Van Tilburg, e os escultores tinham muito cuidado para não ofender os espíritos durante a construção.

Acredita-se que os escultores começavam por trabalhar a frente e as laterais de uma estátua, e depois separavam gradualmente a parte de trás da rocha da pedreira. A estátua seria depois movida colina abaixo e colocada verticalmente num buraco, onde os escultores terminavam as costas e adicionavam petróglifos na superfície. Com isto, a estátua estava completa.

O que aconteceu às pessoas que construíram os moais?

Os recursos abundantes da ilha esgotaram-se rapidamente conforme a população foi aumentando. Quando chegaram os primeiros europeus no século XVIII, a ilha foi desflorestada, provavelmente para abrir espaço para plantações. Sem árvores, as pessoas tentaram adaptar-se – as evidências mostram esforços isolados para reflorestar a ilha, diz Jo Anne.

O povo de Rapa Nui também migrou na ilha, tanto para o interior como para a costa. No interior, os agricultores desenvolveram sistemas avançados para cultivar taro e batata-doce, sistemas que protegiam as culturas dos ventos fortes, das flutuações na temperatura e da rápida evaporação, de acordo com a arqueóloga Mara Mulrooney, que estuda o uso da terra Rapa Nui.

Porém, a colonização, o comércio de escravos e várias epidemias tiveram o seu preço. Em 1877, a população da ilha ficou reduzida a apenas 111 habitantes. A população recuperou, com cerca de 2 mil nativos a viverem atualmente no local. Mas há ameaças à própria ilha que permanecem.

De que forma os humanos estão a afetar os moais?

A grande maioria dos moais está distribuída junto à costa da ilha, que está diretamente vulnerável à subida do nível do mar provocada pelas alterações climáticas e pela erosão costeira. O povo de Rapa Nui previu isto há séculos e construiu paredões, alguns dos quais estão a desmoronar e precisam de reforço, diz Jo Anne.

Jo Anne Van Tilburg acrescenta que o povo de Rapa Nui tem sido tradicionalmente responsável por esta manutenção: “Era responsabilidade do grupo fazer coisas sazonalmente que protegessem os locais – tinham de fazer a monda antes das cerimónias, e era suposto repararem os paredões.”

Contudo, nos últimos anos tem sido difícil reunir o apoio financeiro para fazer estas reparações, sobretudo devido aos debates sobre jurisdição entre comunidades locais, famílias privadas e o governo chileno.

Quais os efeitos do incêndio nos moais?

Centenas de moais, maioritariamente em torno da pedreira de Rano Raraku, ficaram danificados no incêndio deste mês de outubro.

As fotografias dos moais mostram danos à superfície superiores aos observados em incêndios anteriores, diz Jo Anne Van Tilburg, algo que pode indicar fendas no interior da rocha. “Se for esse o caso, as chuvas fortes podem fazer a pedra desmoronar.”

“Os danos nas estátuas, nas partes acima do solo, são neste momento desconhecidos.”

Mas com as restrições devido à pandemia a impedir que os visitantes cheguem à ilha, o mundo vai ter de esperar para ver a extensão real dos danos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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