As minas terrestres tiraram-lhes os membros. O futebol devolveu-lhes a glória.

A seleção angolana de futebol para amputados – campeã em título do Mundial de Futebol para Amputados – inspirou uma nação que ainda está a recuperar de uma guerra de 27 anos.

Por Adam Williams
Publicado 10/10/2022, 10:50
Mundial de Futebol para Amputados

Um jogador de futebol participa no Mundial de Futebol para Amputados em Istambul, na Turquia. Este torneio, que decorre até ao dia 9 de outubro, conta com 24 seleções. Nos últimos quatro anos, a seleção de Angola tem sido a detentora do título de campeã mundial. Os jogadores angolanos esperam manter o título e dar mais visibilidade a Angola no cenário mundial.

Fotografia por Celal Gunes, Anadolu Agency via Getty Images

LUANDA, ANGOLA – Todas as noites ao início de setembro, pouco depois de o sol vermelho desaparecer sobre a capital angolana para mergulhar no Oceano Atlântico, ouvia-se o som constante de um clique no interior do Estádio dos Coqueiros, no centro de Luanda.

O ruído dos cliques vinha das muletas de metal a bater no relvado do estádio, uma indicação de que o treino tinha começado para os atletas mais talentosos de Angola: a seleção campeã mundial de futebol masculino para amputados.

“Agradeço a Deus por estar aqui”, diz durante o treino o capitão da equipa, Hilário Kufula, de 33 anos. “E que tenha a oportunidade de contribuir para a nossa seleção nacional e dar a conhecer este desporto, ganhar campeonatos e levar o nome de Angola a novos patamares.”

Entre os 15 jogadores da seleção, 12 são amputados devido a minas terrestres, acidentes ou lesões; dois têm malformações congénitas; e um tem uma perna paralisada devido a poliomielite. Os jogadores jogam com as muletas, que os impulsionam enquanto deslizam pelo campo. Nos últimos quatro anos, esta equipa foi a detentora do título de campeã mundial. Agora, está a competir no Mundial de Futebol para Amputados 2022 em Istambul, na Turquia, que decorre até dia 9 de outubro e conta com 24 seleções.

No fim de semana passado, Angola venceu os três primeiros jogos do Grupo F contra o Uruguai, Iraque e Itália. A equipa avança agora para a segunda fase, onde vai enfrentar a Inglaterra.

Esquerda: Superior:

Manuel Rocha, da seleção de Angola, disputa a bola com Ghrairi Issa, do Iraque, durante uma partida do Grupo F do Mundial de Futebol para Amputados, em Istambul, na Turquia.

Direita: Inferior:

As seleções do Iraque e Angola durante um jogo do Grupo F do Mundial de Futebol para Amputados.

Hilário Kufula, que perdeu a perna direita num acidente de comboio aos 12 anos, recorda a glória que acompanhou o campeonato de 2018: “Ao chegar a casa com a receção do povo angolano e andar pela cidade com todas as pessoas a assistir, só conseguia chorar”, diz Hilário.

Outros países com jogadores feridos em conflitos armados, como o Iraque, a Libéria e a Colômbia, também competem em Istambul. Esta modalidade é praticada com sete jogadores em cada equipa (em vez dos 11 de cada lado na versão clássica do futebol). Seis dos jogadores são os chamados jogadores de campo, que jogam num campo com cerca de metade do tamanho de um campo regular, e o sétimo é o guarda-redes. Os jogadores de campo podem ter duas mãos, embora apenas um pé, mas os guarda-redes podem ter duas pernas, mas só um braço, de acordo com as regras oficiais da Federação Mundial de Futebol para Amputados.

Em preparação para o mundial, Angola – que também foi vice-campeã do Mundial de Futebol para Amputados de 2014 e venceu a Copa das Nações Africanas de Futebol para Amputados em 2019 – realizou rigorosas sessões de treino uma a duas vezes por dia durante os meses de verão. Os jogadores dizem que a pressão para ter um bom desempenho em Istambul talvez seja ainda maior dadas as equipas adversárias que os estão a tentar destronar.

“Temos as expectativas muito elevadas e sabemos que outras equipas estão a preparar-se com o objetivo de derrotar Angola”, diz Jesus Mateus, guarda-redes de 27 anos da seleção angolana, que perdeu o braço direito num acidente aos 5 anos. Jesus Mateus, que pinta o cabelo de vermelho, defendeu um penálti na final de 2018 contra a Turquia para levar Angola ao título mundial.

“Sabemos que não vai ser fácil, porque há equipas muito fortes no torneio, mas espero regressar da Turquia novamente com uma medalha de ouro ao peito”, diz Jesus Mateus.

O jogo do título

Em 2018, Angola derrotou a Turquia por 5 a 4 no desempate por grandes penalidades, vencendo assim o Mundial de Futebol para Amputados, realizado no México. Para um país que ainda não conseguiu conquistar uma medalha olímpica e marcou apenas um golo na sua única participação no Mundial de Futebol de 2006, o título conquistado em 2018 é o maior triunfo da história do desporto angolano.

Vencer o campeonato deu aos membros da equipa o estatuto de celebridade na sua nação. Quando regressaram a Angola vindos do México, foram recebidos no aeroporto de Luanda por centenas de adeptos que gritavam com as cores vermelha e preta da bandeira nacional. Com medalhas de ouro penduradas ao peito, os jogadores desfilaram pela cidade em cima de um enorme camião com escolta policial que interrompeu o tráfego nas ruas movimentadas da cidade. No dia seguinte, os jogadores reuniram-se com o presidente angolano João Lourenço e foram presenteados com casas em Luanda como recompensa pela sua vitória.

A seleção do Iraque defronta Angola durante o Mundial de Futebol para Amputados. No fim de semana, Angola venceu os três primeiros jogos do Grupo F contra o Uruguai, Iraque e Itália. A equipa avança agora para a segunda fase.

Para os angolanos, um triunfo no cenário internacional tem um significado mais profundo do que um simples troféu. Angola e os seus 34 milhões de habitantes ainda estão a recuperar de uma guerra civil de 27 anos que terminou em 2002 e deslocou milhões de habitantes, matou centenas de milhares de cidadãos, deixou grandes cidades em ruínas e isolou vastamente este país do resto do mundo.

Para esta nação jovem, que só declarou a independência de Portugal em 1975 e tenta reconstruir-se e sarar as feridas, o campeonato vencido pela equipa de amputados representa o potencial de Angola no plano mundial – e a capacidade do seu povo em superar a tragédia e alcançar o sucesso internacional.

“Conseguimos mostrar o talento que temos em África para o mundo inteiro”, diz Jesus Morais, médio de 31 anos que perdeu a perna após uma lesão aos 8 anos. “A minha família fica muito feliz por poder dizer que tem um filho que honrou a nação e defende as cores do nosso país. Isso motiva-me e dá-me força e, enquanto viver, honrarei sempre as cores da bandeira angolana.”

Futebol para amputados em Angola

O futebol para amputados foi introduzido em Angola em 1997 pela Fundação Americana de Veteranos do Vietname, sediada em Washington D.C., através da iniciativa Sports for Life, que oferece programas de reabilitação para os sobreviventes de minas terrestres. Este programa abriu um centro de reabilitação na província de Moxico, na região leste de Angola, zona que foi fortemente minada durante a guerra civil.

Um dos fundadores deste programa foi Augusto Baptista, treinador atual da seleção angolana. Dada a grande quantidade de lesões provocadas pelas minas terrestres na região, a prática de desporto foi considerada uma forma de dar aos amputados um escape para a sua dor e criar um sentimento de pertença na sociedade, diz Augusto Baptista.

“De 1997 até 2014, cerca de 80% dos membros da seleção angolana eram vítimas de minas”, diz Augusto Baptista, acrescentando que a maioria destes jogadores já saiu da seleção devido à idade e à diminuição das lesões provocadas por minas no país.

Mais de 88.000 pessoas foram lesionadas por minas terrestres em Angola, que continua a ser um dos países mais minados do mundo, mesmo duas décadas após o fim da guerra civil, de acordo com o Mines Advisory Group, MAG. Esta agência, cujo objectivo é encontrar e destruir minas terrestres, munições de fragmentação e bombas não detonadas em locais afetados pelo conflito, estima que milhões de minas terrestres e outras bombas por detonar ainda se encontram espalhadas por Angola, o sétimo maior país de África em área – tem mais do dobro da área de França.

Esquerda: Superior:

A Turquia defronta a Libéria durante uma partida do Grupo A do Mundial de Futebol para Amputados, organizado nas instalações da Federação Turca de Futebol em Riva, Istambul. A Federação Mundial de Futebol para Amputados inclui 50 países membros e oferece oportunidades para jogadores de todo o mundo.

Direita: Inferior:

Omer Guleryuz, da Turquia, disputa a bola com o jogador liberiano Jusu Mohamed Delvin durante uma partida em Istambul.

Sabino António Joaquim, de 38 anos, ex-capitão da seleção angolana e o elemento mais velho do atual plantel, cresceu na província de Moxico e, aos nove anos, insistia em acompanhar a mãe para fazer recados. Enquanto seguia a mãe, Sabino Joaquim pisou uma mina e perdeu a metade inferior da perna direita. Inicialmente, Sabino resistiu a jogar futebol de muletas após a lesão, mas agora está grato pelo que o desporto para amputados trouxe à sua vida.

“Sinto-me feliz por ser assim. Se tivesse duas pernas, não teria tido as oportunidades que tive”, diz Sabino. “Agora sou jogador de futebol e estou a viver uma vida que não imaginava ser possível.”

Sentimento de pertença

Celestino Elias não se lembra dos acontecimentos do dia em que, aos cinco anos de idade, pisou uma mina terrestre na sua aldeia na província central do Huambo, levando à amputação da sua perna esquerda. Como precisava de muletas para andar, Celestino Elias diz que era muitas vezes excluído do futebol quando era criança.

“A minha missão era jogar futebol, mas sempre que eu entrava num jogo, diziam-me que eu não podia jogar de muletas”, diz Celestino Elias, de 32 anos. “Ser excluído das atividades físicas foi algo que me fez sempre chorar.”

Celestino Elias, que é defesa, conheceu posteriormente o futebol para amputados, onde se destacou e foi recrutado para jogar pela seleção angolana. No Mundial de 2018, foi eleito o melhor jogador do mundo, distinção que espera conquistar novamente em 2022.

Esquerda: Superior:

Jose Manihuari, à esquerda, controla a bola durante uma sessão de treino em Lima, no Peru, em preparação para o Mundial de Futebol para Amputados de 2022. Outros países com jogadores feridos em conflitos armados, como o Iraque, a Libéria e a Colômbia, também disputam este torneio que se realiza na Turquia.

Fotografia por Raul Sifuentes, Getty Images
Direita: Inferior:

Um membro artificial usado por um dos jogadores da seleção de futebol do Iraque está encostado num banco durante um treino em Bagdad, durante a preparação para o Mundial de Futebol para Amputados. A maioria dos jogadores desta equipa perdeu braços ou pernas durante os conflitos recentes no país.

Fotografia por Sabah Arar, AFP via Getty Images

A Federação Mundial de Futebol para Amputados inclui 50 países membros e oferece oportunidades para jogadores de todo o planeta, alguns que agora jogam em ligas profissionais na Europa, Brasil e Turquia e ganham a vida como atletas amputados. Cinco jogadores angolanos jogam atualmente no estrangeiro em ligas profissionais e dois deles – Heno Guilherme e João Chiquete – conquistaram o título da Liga dos Campeões Europeus em maio pela sua equipa turca – Etimesgut Amputee Sport Club.

Heno Guilherme, de 30 anos, que perdeu a perna direita num acidente de viação aos quatro anos de idade, pinta o cabelo de loiro e é um líder vocal e emocional. Ao longo da sua carreira profissional de 13 anos, Heno Guilherme venceu o Mundial de Futebol para Amputados, a Liga dos Campeões, a Taça Africana e os campeonatos de Angola e da Turquia. Após o mundial de 2022 na Turquia, Heno Guilherme vai começar a jogar por uma equipa profissional de amputados em São Paulo, no Brasil.

Heno Guilherme está otimista de que Angola consegue defender o título de campeã na Turquia e, a nível pessoal, está de olhos postos na conquista da Bota de Ouro, prémio atribuído ao melhor marcador do torneio. Para além dos elogios pessoais e profissionais, Heno Guilherme diz que a coisa mais importante que conquistou na sua carreira foi o respeito da sua família e do seu país.

“A minha família e os meus amigos estão muito orgulhosos daquilo que conquistámos”, diz Heno Guilherme. “Todos estão orgulhosos do trabalho que fizemos e das nossas conquistas a representar Angola.”

Sediado na Cidade do México, Adam Williams cobre temas sobre a América do Sul e Central, Caraíbas e México desde 2009. Adam Williams viajou para Angola para ensinar um curso de jornalismo de investigação para os jornalistas locais. Pode encontrá-lo no Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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