Como alguns homens estão a salvar uma tradição secular

Na costa a sul de Lisboa, estes pescadores mantêm viva a arte “Xábaka”

Quando os pescadores entram no mar tentam encontrar peixe através do sonar e quando avistam o cardume lançam as redes e tentam levar alguns desses peixes até terra. Neste momento, os pescadores estavam a pescar cavala.

Fotografia por Vasco Coelho
Por Vasco Coelho
Publicado 25/10/2022, 17:08

A arte Xávega, antigamente conhecida como “Xábaka”, foi trazida pelo povo muçulmano durante a ocupação da península ibérica e foi introduzida como Xávega primeiramente no Algarve. As embarcações algarvias são muito parecidas com as de Málaga, são embarcações planas diferenciando-se das do norte do país que se distinguem pela sua forma de meia-lua, facilitando aos pescadores a entrada no mar em dias com mar agitado.

Até há pouco tempo a pesca algarvia era tratada por Xávega, enquanto no centro e norte do país por arte Xávega. Em 1890, no seguimento do Inquérito Industrial da “Comissão Permanente de Pescarias”, posteriormente publicado em 1903, “Arte Xávega” passa a ser o nome deste tipo de pesca em todo o país.

Quando o barco chega a terra com o cabo da rede, os pescadores tentam auxiliar os tratores para que a rede seja enrolada direita e para não causar tanto esforço nos motores. Em dias de inverno estes pescadores têm de enfrentar ondas grandes e frio.

Fotografia por Vasco Coelho

Esta arte caracteriza-se por ser um tipo de pesca de cerco e alar para terra, no início usava-se a força humana para trazer a rede para terra, posteriormente começou a usar-se a força animal, através de juntas de bois que facilitavam o trabalho aos pescadores e atualmente utiliza-se a força mecânica de dois tratores auxiliados pelos pescadores.

Atualmente, a Arte Xávega conta com vários anos de história sendo considerada pesca tradicional portuguesa. Este tipo de arte é apreciado pelas pessoas que têm oportunidade de ver os pescadores em ação, tratando-se de um espetáculo incrível e uma forma de trazer o peixe do mar para terra usando a inteligência, paciência e força humana em conjunto.

Com o passar dos anos este tipo de pesca tem vindo a perder a sua luta contra os avanços tecnológicos e o crescimento da população humana que já se faz sentir há algumas décadas. Nas décadas mais recentes, o aumento da população mundial tem sido cada vez mais acentuado, e a necessidade de levar mais comida para a mesa dos portugueses começa a aumentar drasticamente também, introduzindo-se a pesca industrial.

Estas embarcações são pequenas e mais frágeis que as embarcações grandes da pesca industrial, o que dificulta o seu uso em condições muito adversas. No início eram usadas embarcações de madeira pequenas, levadas para o mar com força humana e usava-se como motor os braços dos pescadores que remavam com muita força para passar a rebentação. Hoje em dia as embarcações são feitas de alumínio ou fibra, algumas são maiores e mais resistentes do que as antigas para aguentar as ondas grandes, mas continua a ser um tipo de pesca perigoso, principalmente no inverno.

Esquerda: Superior:

Quando a rede chega a terra o mestre abre o fundo da rede para que todo o peixe saia para cima deste tapete azul. Quando o peixe e grande parte da areia sair da rede, os pescadores fecham o fundo e preparam a rede para um novo lançamento.

Direita: Inferior:

Por vezes, o pescado que vem nas redes não é da mesma espécie e os pescadores fazem uma seleção manual e dividem as espécies pelas caixas que são usadas para guardar o peixe. Neste momento, dois pescadores levam algum peixe numa pequena rede para limpar antes de serem colocados nas caixas.

fotografias de Vasco Coelho

A pesca industrial não faz concorrência direta à arte Xávega, principalmente por ser pesca de alto mar, mas com a utilização de sonares de alta tecnologia e redes muito maiores que as da pesca tradicional, consegue apanhar cardumes inteiros dificultando a sua reprodução. Isto também contribui para a diminuição de peixe no mar e com o passar dos anos cada vez menos cardumes são avistados junto às praias e mesmo os que por ali passam são muito pequenos.

No dia em que tive oportunidade de documentar o trabalho destes pescadores da Fonte da Telha percebi que trabalham muitas horas com muito esforço e por vezes com pouca recompensa. Começam a pescar por volta das 20 horas e vão ao mar várias vezes, variando o número de vezes dependendo do clima e da quantidade de peixe que estão a apanhar naquele dia. Nesse dia foram ao mar quatro vezes e trouxeram pouco peixe para terra, talvez tenha sido na primeira rede onde trouxeram mais peixe, nas redes seguintes vinha muito caranguejo, areia e pouco peixe.

Quando o peixe está selecionado, os pescadores vendem o peixe a quem opta por comprar o peixe de uma das formas mais frescas que se pode comprar em Portugal.

Fotografia por Vasco Coelho

A arte Xávega atrai muitas pessoas às praias de Portugal por várias razões, sendo o motivo principal a curiosidade da população ao ver um grupo de homens, cada um com a sua função, com o objetivo final de trazer a rede com peixe, sendo que grande parte destas pessoas acaba por filmar para recordação. Outro grupo de pessoas aproveita para comprar o peixe na praia, ajudando os pescadores da melhor forma que conseguem. Alguns pais levam os seus filhos à praia principalmente no Verão para ver estes pescadores, explicando o seu trabalho e mostrando uma das formas usadas em Portugal para trazer o peixe à nossa mesa. Por vezes, também há pessoas mais aventureiras que tentam ajudar a trazer a rede para terra e ajudar os pescadores.

Pode sentir-se que estes homens são como super-heróis na Fonte da Telha, embora trabalhem durante muito tempo e sobre condições adversas, no dia seguinte estão sempre sorridentes e prontos a ajudar quem precisa. São pessoas humildes que estão a lutar para manter a salvo uma tradição que nos foi trazida pelo povo muçulmano e que hoje está em risco de se perder, mas com o devido apoio, tal como: optarmos por comprar o peixe na praia diretamente aos pescadores e partilharmos este tipo de pesca nas redes sociais, poderemos salvar esta arte de pesca, que poderá ser apreciada pelas gerações futuras e continuará a existir.

Após a realização da reportagem fotográfica tive oportunidade de conversar com o mestre Mário, responsável por esta arte de pesca na Fonte da Telha.

Estes pescadores costumam pescar várias vezes, começando ao final da tarde e pescando mais duas a quatro vezes, dependendo da quantidade de peixe que estão a apanhar. Por vezes, apanham outro pescado como, por exemplo, lulas ou raias.

Fotografia por Vasco Coelho

Na sua opinião, qual é o futuro desta arte?
O futuro da arte Xávega é incerto, hoje há três artes na Fonte da Telha, quando antigamente se viam 10, e com mais pescadores. Hoje há menos homens nesta atividade e com o aumento do preço do combustível, dos materiais de pesca e com os compradores a comprarem barato e a venderem muito caro a atividade tem sido cada vez mais comprometida e poderá mesmo vir a desaparecer.

Qual a causa para haver menos peixe?
A pesca intensiva tem vindo a dificultar este trabalho, o peixe mais pescado é a cavala que ainda se consegue apanhar no mar, mas em geral cada vez se vê menos peixe, antigamente viam-se cardumes grandes de carapau atrás de pequenos camarões junto à praia e nos últimos anos não acontece isso, para além de não se ver tanto carapau e sardinha.

Qual o efeito do plástico no pescado?
Não se tem visto [plástico] em peixes pequenos como cavalas, sardinhas ou carapaus com plástico no estômago, mas vê-se raramente em alguns peixes grandes. Hoje uma das medidas que está a ser tomada na pesca é o uso de redes de seda para substituir as redes que contêm plástico. Estas novas redes não podem ser remendadas, são caras e quando se estragam compram-se redes novas.

 

Este texto tem como objetivo mostrar a importância que a pesca tem na cultura portuguesa (seja esta arte Xávega ou pesca industrial) e revelar um pouco do que é ser pescador de arte Xávega em Portugal. Pretende também homenagear todas as pessoas que trabalham, trabalharam ou perderam a vida a pescar em Portugal.
Agradeço aos pescadores de arte Xávega da Fonte da Telha que apoiaram esta reportagem.

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