A história de Diogo Alves, o serial killer do Aqueduto das Águas Livres

Diogo Alves foi um dos primeiros grandes serial killers de Portugal. Das mortes e gritos do alto do aqueduto, restam hoje as histórias e alegadamente a cabeça do assassino, conservada em formol, no Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina de Lisboa.

O Aqueduto das Águas Livres foi construído no século XVIII e compreende um troço de 14 quilómetros.

O Aqueduto das Águas Livres foi construído no século XVIII e compreende um troço de 14 quilómetros.

Fotografia de EPAL - EMPRESA PORTUGUESA DAS ÁGUAS LIVRES

Diogo Alves, de alcunha “o Pancada”, ficou na memória dos portugueses, nomeadamente, dos lisboetas. A sua história aterrorizante remonta à primeira metade do século XIX, quando o medo reinava nas ruas da capital.

Nascido no interior da Galiza, em 1810, emigrou com 13 anos para Lisboa como muitos outros galegos que vinham para a cidade ajudar na construção do aqueduto. Para além disso, chegou a trabalhar para família nobres.

A obra impressionava. Construído entre 1731 e 1799, o Aqueduto das Águas Livres era o eixo central de um sistema que percorria 14 quilómetros, desde a Mãe d’Água Velha, no concelho de Sintra, até à Travessia do vale de Alcântara. As galerias subterrâneas transportavam água até aos chafarizes, palácios e edifícios públicos.

Mas Diogo Alves não seguiu o destino de muitos dos seus conterrâneos, nem viria a contribuir para um dos principais feitos de engenharia do século XVIII e XIX em Portugal. Longe do rebuliço da obra que lhe emprestou o nome, Diogo Alves servia várias famílias abastadas, nas suas casas.

Modus operandi: abordar, extorquir e matar

O resto da infância e a juventude de Diogo Alves perderam-se há muito na bruma da história. Uns dizem que os roubos começaram quando tinha 26 anos, quando se viu incapaz de financiar o seu estilo de vida através do trabalho honesto.

Outra teoria defende que Diogo Alves nem sempre foi criminoso e que o seu caminho foi alterado pelo vício da bebida e a influência de Gertrudes Maria, conhecida como a Parreirinha. Em 1838, executa um golpe criminoso na Calçada da Estrela com a sua amante como cúmplice. Esta relação adúltera evoluiu a tal ponto que Diogo Alves chega a ir viver para sua casa com os dois filhos dela, uma menina e um menino. Terá sido a filha a testemunha fundamental para que o criminoso e a sua quadrilha fossem condenados.

Mas isso foi anos depois de Diogo Alves estrear o seu modus operandi, em 1836. O brutal assassino abordava as vítimas que acediam ao aqueduto, essencialmente as lavadeiras e agricultores, que levavam as suas colheitas para vender na cidade. Após o cair da noite e no regresso destes a casa, Diogo Alves atacava.

Embora não constem no processo judicial, os alegados crimes cometidos no Aqueduto das Águas Livres terão ocorrido entre 1836 e 1839. A escolha do aqueduto serviria um objetivo prático: este local discreto permitir-lhe-ia roubar e extorquir as vítimas sem dar nas vistas. Por fim, poderia atirá-las do topo do arco do aqueduto, como se de suicídios se tratasse.

Na época, o país atravessava uma grande instabilidade política, devido à revolução liberal. As dificuldades eram inúmeras e assistia-se à fome entre as classes sociais mais baixas. Tal conjetura ajudava a que não se desconfiasse se alguém decidisse terminar com a sua vida.

Diogo Alves atormentava os habitantes da cidade sem dó nem piedade. Os ataques eram tão frequentes que os cidadãos ganharam medo a passar pelo aqueduto, para ir dos subúrbios às zonas mais abastadas da cidade.

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A morte de um conhecido médico despertou a atenção da polícia

Estima-se que num período de apenas seis meses, Diogo Alves tenha assassinado cerca de 70 pessoas. Inicialmente julgava-se tratar de uma bizarra vaga de suicídios, pois as entradas do aqueduto estavam guardadas.

Contudo, esta perspetiva mudou após a morte de quatro pessoas da mesma família, e de um jardineiro da Infanta Isabel Maria. Neste momento começou-se a pensar se “algum feroz salteador ali se refugiara e vivia ocultado”. As vítimas eram de classe baixa e os casos não receberam a devida atenção.

Após o fecho do aqueduto o assassino passou a atacar casas residenciais. Em 1839, Diogo Alves invadiu a habitação do conhecido médico Pedro de Andrade, o que perpetrou o seu crime mais mediático, comumente chamado “O Crime da Rua das Flores”. Matou o médico e a sua família, e poupou várias testemunhas, o que impulsionou a polícia a descobrir o autor dos homicídios.  

Uns dias depois, um membro do grupo de Diogo Alves, conhecido por “Enterrador”, foi apanhado em flagrante a assaltar uma casa e acabou por confessar os crimes e entregar os restantes assassinos. Após ter admitido a culpa dos casos do médico Pedro Andrade e da Idosa da Calçada da Estrela, Diogo Alves é condenado à morte por enforcamento em 1840. A 19 de fevereiro de 1841, a pena é cumprida.

Entre 1841 e 1852 continuaram, curiosamente, a ocorrer mortes no Aqueduto das Águas Livres. Por razões de segurança este é encerrado, sendo reaberto ao público no século XX, como núcleo do Museu da Água pela EPAL.

Diogo Alves passaria à história como um dos primeiros serial killers de Portugal ou o assassino do Aqueduto das Águas Livres, e foi uma das últimas pessoas condenada à morte no país, no Cais do Tojo de Lisboa. Os seus feitos ganharam negra fama além-fronteiras.

A alegada cabeça de Diogo Alves ainda está conservada em formol

A história deste assassino continuou bem presente mesmo após a sua morte. Depois de enforcado, a sua alegada cabeça foi entregue à Escola Médico-Cirúrgica, para que os investigadores pudessem estudar o que se encontrava por detrás de tamanha frieza e crueldade. Esta prática, intitulada frenologia, era frequente na época.

A alegada cabeça de Diogo Alves foi preservada em formol até aos dias de hoje, durante 180 anos, encontrando-se atualmente no Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina de Lisboa. Apesar dos esforços, os investigadores nada descobriram com a alegada cabeça decapitada. Apenas uma certeza restou: a ausência de arrependimentos ou remorsos dos atos horríveis de Diogo Alves.

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