História

Aristides de Sousa Mendes: o Herói Sem Capa

Um cônsul que quebrou as regras e salvou vidas num dos piores cenários da história, só depois de morto foi reconhecido como o Homem de valor que foi.

Por National Geographic
O cônsul Aristides de Sousa Mendes, em 1940.

Aristides de Sousa Mendes: pode ser um nome desconhecido para muitos, mas será com certeza, um nome bem próximo para outros. Figura única da História portuguesa, um ser humano de coração bom, que salvou muitas vidas de um fim trágico. Um caso em que a história portuguesa não tratou bem os seus heróis. Mas como foi a vida e morte deste herói quase anónimo que arriscou tudo pelos outros?

Como Começa Esta História

Aristides de Sousa Mendes nasceu em Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal a 19 de julho de 1885, tendo-se mudado para Lisboa em 1907 após a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra. No ano seguinte casou-se com a prima Angelina, com quem viria a ter catorze filhos.

Tendo enveredado pela carreira diplomática, Aristides ocupou diversas delegações consulares pelo mundo, como Zanzibar, Guiana Britânica, Brasil, Estados Unidos da América, Luxemburgo ou Espanha. O seu empenho na promoção de Portugal não passou desapercebido quando foi cônsul-geral em Antuérpia, tanto que o rei Leopoldo II da Bélgica o condecorou como oficial da Ordem de Leopoldo e mais tarde comendador da Ordem da Coroa.

Em 1938, mesmo nas vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, Salazar nomeia-o cônsul em Bordéus, França. E este é o início da história mais importante de Aristides de Sousa Mendes.

Aristides de Sousa Mendes e a esposa Angelina, 1948.

O Holocausto e a Circular 14

Durante a Segunda Guerra Mundial e sob a ditadura de Salazar, Portugal era uma nação alegadamente neutra. Esta foi a razão que levou o governo a fazer chegar a todos os diplomatas portugueses na Europa a “Circular 14”.

Este perverso documento ordenava a suspensão de vistos aos refugiados, até aprovação, incluindo explicitamente Judeus, Russos e apátridas. Esta circular previa que, para emissão de vistos a russos, judeus, polacos, apátridas e outros que eram perseguidos pelo regime nazi, fosse necessário pedir aprovação da PVDE.

Espanha negou os vistos aos refugiados judeus e a única esperança residia no consulado português. Em junho de 1940, o cônsul encontrou-se com o rabino Kruger que escapara a uma Polónia ocupada. Ali, prometeu-lhe fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para persuadir o governo de Lisboa, liderado por Salazar, a retirar o mandado de suspensão dos vistos. Apenas para ver, no dia seguinte, Lisboa a negar os vistos aos refugiados judeus.

Aristides de Sousa Mendes tomou uma decisão: iria emitir vistos sem distinção de “raça ou religião”.

Rabino Kruger e Aristides Sousa mendes, em 1940-1941.

Respeitando Outros Valores

Ainda em junho de 1940, de 17 a 19, o cônsul Aristides trabalhou afincadamente, com ajuda dos filhos, na emissão de vistos. Estava, assim, a contrariar ordens diretas do chefe de estado. Aristides, sabendo que os consulados portugueses de Bayonne e Hendaye tinham obedecido e suspendido a emissão de vistos, dirigiu-se a essas cidades para reverter a situação, e assim foi.

Não se sabe exatamente quantos vistos foram emitidos por ou a mando de Aristides de Sousa Mendes, os números vão de alguns milhares até três dezenas de milhar. Não terá sido apanhado de surpresa quando, a 20 de junho de 1940, Aristides recebeu um telegrama de Salazar a ordenar a sua comparência em Lisboa, para justificar a desobediência.

O Castigo de Quem Não Merecia

O ato altruísta de Aristides de Sousa Mendes resultou em castigos severos. Não só foi demitido da função de cônsul, como foi despromovido imediatamente à categoria inferior e condenado a um ano de inatividade. Salazar acabou por aposentar Aristides no final do ano.

Aristides de Sousa Mendes foi então viver para a casa do Passal com a família. Desta família já só faziam parte a esposa e doze filhos, já que dois tinham falecido em Bordéus. Durante os últimos meses de 1940, a casa do Passal ainda serviu de refúgio a alguns que beneficiaram dos vistos emitidos por Aristides. Não era, no entanto, segredo que, com o salário penhorado, o ex-cônsul e a família passavam necessidades.

Para além disso, Sousa Mendes perdeu o direito de exercer a profissão de advogado e viu a sua licença de condução, emitida no estrangeiro, ser-lhe retirada. Estas dificuldades foram agravando-se até que Aristides se mudou para Lisboa, para casa de um primo, indo muito raramente a Cabanas de Viriato.

Chegou a frequentar, juntamente com os seus familiares, a cantina da assistência judaica internacional onde, com tristeza, teve de confirmar: "Nós também, nós somos refugiados". Em 1948 a esposa de Aristides faleceu, e sendo demasiadas as dificuldades, os seus filhos emigraram para os Estados Unidos e o Canadá, ajudados pela Comunidade Judaica de Lisboa.

Angelina e Aristides, e nove dos filhos, 1929.

Os Últimos Anos de Quem Disse 'Não'

Aristides de Sousa Mendes passou os últimos anos da sua vida pobre e sem família. Foi obrigado a vender tudo o que tinha para pagar dívidas e sobreviver com dificuldade. Nunca lhe foi reconhecida a bondade dos seus atos em vida.

E assim, veio a falecer a dia 3 de abril de 1954, em Lisboa, num hospital Franciscano. Diz-se que a sua única companhia era uma sobrinha. O estado de Aristides, um homem outrora habituado a luxos, era tão miserável, que foi enterrado sem fato, num traje cedido por caridade.

O Reconhecimento que Veio Tarde

Castigado pelos seus atos de rebelião, o primeiro reconhecimento veio 12 anos após a sua morte, quando em 1966 o memorial do Holocausto em Jerusalém, Yad Vashem, lhe prestou homenagem e lhe atribuiu o título de “Justo Entre as Nações”.

Anos mais tarde, em 1986, recebeu a título póstumo o grau de Oficial da Ordem da Liberdade. A sua família recebeu desculpas públicas, depois de o presidente da altura, Mário Soares, reabilitar a memória de Aristides de Sousa Mendes.

A partir daí nunca mais foi esquecido. Em 1987 foi feita uma homenagem pública a Aristides de Sousa Mendes, por imensa pressão internacional. Restituiu-se à família os salários penhorados, e já nos anos 90, ergueu-se um busto em sua lembrança. Também em março de 1995 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, por Mário Soares.

Ao mesmo tempo, a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP) criou um prémio anual com o seu nome. Mais recentemente, em 2016, foi elevado a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

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