História

Descoberta de Fóssil Humano Mais Antigo Redefine a Árvore Genealógica

Descoberta leva a origem do nosso género Homo a recuar meio milhão de anos. Por Jamie Shreeve, National Geographic

Por Jamie Shreeve

5 março 2015

Numa rara congruência de novas provas, duas mandíbulas fósseis podem lançar uma luz sobre os mistérios mais obscuros da evolução humana: a origem do nosso género, o Homo. As duas mandíbulas inferiores – uma sendo uma reconstrução de um espécime primordial encontrado há meio século, a outra tendo sido retirada das zonas áridas da Etiópia – apontam para a África Oriental como o local de nascimento da nossa linhagem evolutiva.

O novo fóssil etíope, anunciada online pela publicação Science, empurra a chegada da espécie Homo à paisagem da África Oriental até a um período entre o meio milhão de anos e os 2.8 milhões de anos atrás. A data encontra-se sedutoramente perto da última aparição, há cerca de três milhões de anos, do Australopithecus afarensis, uma espécie de postura ereta, com um cérebro pequeno, mais conhecida graças a um esqueleto chamado Lucy, que muitos cientistas acreditavam ter sido um antepassado direto do nosso género. A nova mandíbula, conhecida como LD 350-1, foi encontrada em janeiro de 2013 a alguns quilómetros do local onde Lucy foi encontrada em 1974.

"Esta é uma coisa entusiasmante.” Afirma o paleoantropólogo Donald Johanson, que descobriu Lucy. A região de Afar, parte do Vale do Rift Africano Oriental, já rendeu muitos outros fósseis de hominídeos – membros de uma extensa família humana – incluindo a que anteriormente se considerava ser a mais antiga espécie Homo, uma mandíbula superior conhecida como AL 666-1, datada de há 2.3 milhões de anos atrás.

Fósseis atribuídos ao Homo num período de há dois ou três milhões de anos atrás são extremamente raros. Bill Kimbel, diretor do Instituto das Origens Humanas, na Universidade do Estado do Arizona, em Tempe, que coliderou a análise do novo espécime, disse que “podíamos pô-los a todos numa pequena caixa de sapatos e ainda ter espaço para um bom par de sapatos”.

Por entre as características do novo fóssil na caixa de sapatos estão dentes finos, um padrão específico da cúspide dos dentes e a forma óssea da mandíbula – todos eles traços partilhados com o posterior Homo. No entanto, a parte frontal do maxilar suporta uma morfologia mais primitiva, como a linha do queixo recuada, característica do A. afarensis.

“Isto reduz o período de tempo em que nos podemos focar para procurar o surgimento da linhagem humana”, diz Kimbel, que descobriu o maxilar do AL 666-1 em 1994. “É basicamente uma forma transitória, como seria de esperar nessa altura. O queixo parece mostrar-nos um retrocesso no tempo, mas a forma dos dentes parecem avançar”.

História do Este

Na medida em que a mandíbula sublinha uma origem do género Homo na África Oriental, parece confundir o argumento feito por outros investigadores que o melhor candidato para o antepassado imediato do nosso género seria o australopitecíneo sul-africano, o Australopithecus sediba.

Os autores do artigo da Science salientam que os únicos espécimes do A. sediba são quase um milhão de anos mais novos do que a nova mandíbula de Homo da Etiópia e por isso, teriam que ter tido a sua ascensão antes.

Fred Grine da Universidade Stony Brook em Nova Iorque, no entanto, contrapõe que poderão ter existido outras populações de A. sediba, ou semelhantes, muito mais velhos.“A ideia que [a nova mandíbula] torna tudo o resto improvável de ser um antepassado é absurdo”, afirma Grine. “Isso seria presumir que o registo fóssil está completo e sabemos que não pode estar já que encontrámos algo que não estava lá antes”.

O local onde a mandíbula foi encontrada, chamado Ledi-Geraru, há 2.8 milhões de anos era uma mistura de pradaria e alguns arbustos, semelhante com o Serengeti de hoje em dia, de acordo com um artigo anexo de Erin DiMaggio da Universidade Estatal da Pensilvânia e dos seus colegas. As espécies animais presentes na mesma altura indicam uma mudança para um habitat mais aberto e árido, apoiando a hipótese de uma mudança climatérica global ter despoletado mudanças evolutivas em muitas linhagens animais.

“Podemos ver um sinal de aridez de há 2.8 milhões de anos na fauna de Ledi-Geraru”, afirma Kaye Reed, diretora do projeto de Ledi-Geraru no Instituto das Origens Humanas. “No entanto, ainda é muito cedo para afirmar que esta mudança climatérica tenha sido responsável pela origem dos Homo”.

Um Espécimen Renascido

A mandibula etíope é suficiente por si só para causar um aumento no entusiasmo por entre os paleoantropólogos. Mas a sua importância é potencializada com a reconstrução de um fóssil Homo milhões de anos mais novo, publicado na quarta-feira na publicação Nature.

A mandibula pertence ao espécimen original, ou do mesmo tipo, do Homo habilis, ou “Homem Hábil”, chamado dessa forma pelos seus descobridores Louis e Mary Leakey em 1964, dado o facto de ter sido encontrado no Desfiladeiro Olduvai na Tanzânia em sedimentos que continham também as ferramentas de pedra mais antigas conhecidas na altura. (Ferramentas muito mais antigas, datadas de há pelo menos 2.6 milhões de anos atras, foram encontradas na Etiópia desde então.)

Louis Leakey e os seus colegas sustentaram que H. habilis era o mais provável antepassado de todos os Homo posteriores, incluindo a nossa própria espécie, o Homo sapiens. H. habilis agarrou-se de forma instável a esse poleiro elevado na árvore genealógica desde aí, com a sua precariedade causada em parte pela natureza fragmentária do espécimen tipo. Consiste num maxilar fortemente desfigurado, uma coleção de vários fragmentos pequenos de um crânio e pedaços de uma mão.Usando uma tomografia computorizada (CT) e tecnologia de imagem 3D de ponta, uma equipa liderada por Fred Spoor da University College, Londres, e no Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, na Alemanha, reconstruiu digitalmente como a mandibula seria em vida. O formato estreito, com filas de dentes paralelas uma a outra, é mais parecido com um do australopitecíneo, o grupo de antepassados humanos que precede o género Homo.

Apesar de mais novo cerca de meio de milhão de anos do que o maxilar superior AL 666-1 de Afar, o maxilar reconstruido do Desfiladeiro Olduvia é claramente mais primitivo. Isto sugere que uma “linhagem fantasma” ainda mais primitiva de Homo deve ter existido há bem mais de 2.3 milhões de anos atrás, que dividiu e deu origem às duas linhagens.

Eis que: o novo maxilar etíope encaixa perfeitamente.

“O maxilar de Ledi-Geraru apareceu quase como que “a pedido”, sugerindo uma ligação evolucionária plausível entre o Australopithecus afarensis e Homo habilis," afirma Spoor.

Noutra reviravolta, Spoor e os seus colegas reconstruiram digitalmente a caixa craniana do espécime original do H. habilis, que anteriormente estimava-se que suportava um cérebro de 700 centímetros cúbicos – mais do que o típico australopitecíneo, mas menos que os humanos que se seguiram. A sua nova versão aumentou o volume para 800 centímetros cúbicos, colocaram o habilis na mesma classe cerebral de outras duas espécies de Homo que deambulavam na savana da África Oriental há dois milhões de anos atrás — o Homo rudolfensis e formas iniciais do Homo erectus.

"O que temos é um animal com um focinho muito primitivo, mas com um grande cérebro”, afirma Spoor, quando debateu a reconstrução numa reunião no Turkana Basin Institute no Quénia em agosto passado.

Visto ser improvável que as três espécies contemporâneas, Homo habilis, H. rudolfensis e H. erectus desenvolveram cérebros grandes de forma independente, ele entende que o seu antepassado comum já tinha dado o mote de um cérebro expandido, muito mais cedo do que se pensava anteriormente. Isto poderia restabelecer a ligação entre o aparecimento de cérebros na linhagem hominídea e as primeiras ferramentas de pedra.

Talvez o H. habilis— dependendo do quão atrás no tempo as espécies viveram – era um Homem Hábil no final das contas.

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