Descubra A Beleza Do Festival Dos Mortos No Japão

Famílias em todo o Japão regressam a casa uma vez por ano para honrar os antepassados mortos.

Por GULNAZ KHAN
Fotografias Por EMILIO ESPEJEL

Todos os anos, no verão, a pacata aldeia piscatória de Himeshima dá as boas-vindas aos mortos.

Realizado anualmente em todo o Japão, o Festival de Obon marca o regresso à Terra dos espíritos dos antepassados mortos. As crenças entre os laços que unem vivos e mortos têm raízes na antiguidade, mas muitos académicos admitem que a celebração assenta na sutra budista Avalambana, ou Urabon-kyō em japonês.

Segundo as escrituras, um dos discípulos de Buda encontrou a morada da mãe falecida no Reino das Almas Famintas, onde os espíritos viviam atormentados por uma fome e sede insaciáveis, na vida depois da morte. Quando foi ao encontro da mãe levando uma taça de arroz, o recipiente incendiou-se e foi consumido pelo fogo. O Buda aconselhou então o discípulo a preparar comida e bebida, em honra dos pais falecidos, e a levar oferendas aos monges no décimo quinto dia do sétimo mês, num gesto de agradecimento e respeito, que libertaria a mãe dos tormentos do inferno. Ao tomar conhecimento da libertação da sua mãe e da bondade e sacrifícios que ela tinha feito no passado por ele, o discípulo dançou com alegria, dança essa que estará na génese do célebre estilo bon odori ou bon dance.

Fiéis ao sutra, as famílias japonesas regressam às terras de origem entre os dias 13 e 15 de agosto, ou julho em algumas regiões, para cumprir com um conjunto de rituais e celebrações, que visam honrar os mortos e libertar os espíritos inquietos do sofrimento.

A celebração de três dias começa com o tradicional mukaebi, o momento em que se acendem fogueiras e lanternas para guiar os espíritos em direção a casa. Embora as celebrações variem de região para região, a maioria das famílias ergue dois altares, ou shōryō-dana em japonês, com fruta, incenso e flores: um para os seus antepassados, e outro em honra de todos espíritos que ainda não encontraram a paz. Outros rituais comuns incluem a visita, limpeza e a ornamentação das sepulturas dos antepassados, uma prática conhecida por ohakamairi, orações em templos e a preparação de refeições especiais.

Bon odori ou bon dance, uma dança coletiva típica regional, é a imagem de marca do festival. Os movimentos são simples para que todas as pessoas participar, independentemente do jeito. Bailarinos, vestidos e pintados de personagens do folclore japonês, formam um círculo em torno de um palco elevado, onde atuam um conjunto de músicos, entre os quais sobressaem os de tambor taiko. Na última noite do Festival de Obon, as celebrações culminam com o okuribi, um conjunto de fogueiras gigantes acesas ao ar livre, que replicam caracteres japoneses, e com a colocação de lanternas acesas, que flutuam sobre as águas de rios ou lagos, num gesto de despedida às almas, que regressam ao mundo espiritual.

Os registos mais antigos relativos a Obon remontam ao período de Asuka, mas acredita-se que se tenha tornado popular no século XII, com o crescimento do budismo. Atualmente, este evento budista é celebrado pelas comunidades japonesas em todo o mundo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com. Contribuição da tradutora Ana Rodrigues

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