História

Estes Famosos Foram Desenterrados — Eis a Razão

De presidentes aos fora da lei, muitos notáveis foram exumados para se responder a questões relacionadas com a forma como viveram e morreram.

Por Erika Engelhaupt
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A última morada do pintor surrealista Salvador Dali pode, afinal, não ter sido a última. O seu corpo recebeu, recentemente, ordem de exumação para testes de paternidade, tornando-se a mais recente entrada numa lista, surpreendentemente longa, de pessoas famosas exumadas em nome da ciência.

Muitas destas celebridades foram exumadas por se suspeitar de terem sido assassinadas — ou de serem assassinas. Outras por terem deixado alegados herdeiros cuja parentalidade não foi comprovada. Outras foram-no para as autoridades se certificarem de que estariam realmente mortas.

Hoje, é possível responder a muitas dessas perguntas, anos ou mesmo séculos após a morte, graças aos recentes avanços na análise de ADN. 

No caso de Dali, uma espanhola afirma ser sua filha e, no final de junho, um juiz ordenou a exumação do corpo do pintor para a comparação de ADN. A Fundação Dali planeia recorrer da decisão, mas, se for feita a exumação, os especialistas dizem que deve existir ADN suficiente para concluir o caso, uma vez que Dali morreu em 1989 — e desde que o ADN seja recolhido nos lugares certos. 

O ADN começa a degradar-se imediatamente após a morte, pelo que os cientistas procuram nos locais onde tende a estar mais bem preservado, como nos cabelos, nos dentes molares e no osso petroso, perto da orelha interna. Os investigadores forenses provavelmente procurarão nestes lugares as provas para demonstrar ou refutar a reivindicação dessa descendente autodeclarada de Dali.

Eis alguns dos casos mais famosos e fascinantes de exumação de celebridades, juntamente com os resultados obtidos pelos testes científicos.

ERROS NOS TÚMULOS

Até mesmo no que respeita aos cadáveres de pessoas famosas, pode haver enganos relativamente ao sítio em que estão enterrados.

O astrónomo Nicolau Copérnico morreu em 1542, pouco depois de completar o seu notável livro que coloca o Sol no centro do universo. Foi enterrado na Catedral de Frombork, na Polónia, mas, apesar da sua fama à época, o túmulo não foi claramente identificado.

Durante dois séculos, os arqueólogos andaram à procura de Copérnico, sem sucesso. Finalmente, em 2005, exames feitos ao terreno sob o qual foi construído uma catedral revelaram vestígios humanos que pareciam, literalmente, ser os de Copérnico. O Central Forensic Laboratory of the Police (Laboratório Forense Central da Polícia), da Polónia, usou o crânio para reconstruir um rosto que tem uma semelhança impressionante com o do autorretrato do astrónomo.

Os cientistas também recuperaram o ADN dos restos mortais, mas não tinham nada para compará-lo e confirmar a identidade; Nenhum descendente direto de Copérnico pode ser encontrado.

Mas a equipa não desistiu. Um bibliotecário encontrou, ao acaso, vários cabelos dentro de um livro de calendários propriedade do astrónomo. Testes genéticos confirmaram que os restos mortais tinham correspondência com o ADN. Copérnico voltou a ser enterrado, desta feita com uma lápide nova e claramente identificada.

MORTO OU VIVO

As autoridades exumaram alguns dos personagens mais infames da história, para terem certeza de que não estavam a escapar à lei ao encenarem a própria morte.

De acordo com registos históricos, o assassino de Lincoln, John Wilkes Booth, foi encurralado e morto num celeiro, em 1865. Nos quatro anos seguintes, foi exumado e examinado duas vezes. Em ambas as vezes, a identidade foi confirmada.

Ainda assim, em 1907, um advogado chamado Finis Bates afirmou que tinha sido morto o homem errado. O verdadeiro Booth, disse ele, viveu com o nome "John St. Helens" e confessou a verdadeira identidade a Bates, antes de se suicidar, em 1903. O cadáver mumificado de St. Helens andou mesmo em tournée nacional como “o homem que matou Lincoln”, para chacota dos historiadores.

Para resolver o assunto, os familiares, finalmente, obtiveram permissão para exumar o irmão de Booth, Edwin, com a esperança de comparar o seu ADN com a vértebra recolhida durante a autópsia de 1865 e armazenada no Museu Nacional de Saúde e Medicina de Maryland.

Até agora, o museu recusou-se a entregar os ossos, que poderiam ser danificados pelos testes e os tribunais negaram todos os esforços para exumar Booth novamente.

PRESIDENTE ENVENENADO

 

Um retrato de daguerreótipo de Zachary Taylor, que morreu enquanto era presidente dos EUA, em julho de 1850.

Quando o 12.º presidente dos Estados Unidos morreu de forma súbita, alguns médicos acharam que ele tinha sucumbido à cólera, enquanto outros suspeitaram de uma insolação. Mas a historiadora Clara Rising acreditou que Zachary Taylor foi o primeiro presidente a ser assassinado, possivelmente por envenenamento com arsénico, por causa da sua oposição à expansão da escravidão para o oeste.

Rising obteve uma ordem de exumação em 1991, e o Laboratório Nacional de Oak Ridge fez testes, por ativação de neutrões, para detetar arsénico. Embora tenham aparecido vestígios, eles estavam longe de serem letais, informaram os cientistas. 

O médico legista de Kentucky analisou os restos mortais da mesma exumação e determinou que Taylor morreu, provavelmente, de gastroenterite, uma infeção frequentemente causada por bactérias ou vírus em alimentos ou bebidas contaminadas. Relatos históricos sugerem que o presidente tinha comido cerejas frescas e leite frio antes da sua morte, o que pode ter sido o seu erro.

ILIBAR UM CONDENADO POR HOMICÍDIO

Na década de 50 do século XX, nenhum caso de assassinato manteve o público tão fascinado como o de Sam Sheppard, um médico respeitado condenado por espancar a sua esposa até a morte.

Sheppard cumpriu uma pena de 10 anos na prisão, tendo, durante todo este tempo, alegado que tinha lutado contra um intruso com cabelo crespo. Este caso que se tornou famoso inspirou a série e o filme O Fugitivo.

O julgamento resultou num tal alarido nos meios de comunicação social que o Supremo Tribunal dos EUA acabou por decretar um novo julgamento, no fim do qual Sheppard foi absolvido. No momento, porém, os testes de ADN não estavam disponíveis para identificar um suspeito a partir de amostras de sangue recolhidas na cena do crime.

Sheppard morreu em 1970 e, em 1997, o seu filho pediu uma exumação para finalmente repor a verdade. A perícia revelou que o ADN de Sheppard não correspondia ao encontrado no sangue recolhido no local. Em vez disso, apontava para Richard Eberling, um antigo lavador de janelas que mais tarde foi condenado por ter matado uma mulher idosa não relacionada com o caso. Eberling não tinha cabelo crespo, mas era conhecido por ter usado capachinhos.

O caso foi determinante na tendência crescente de usar amostras de ADN armazenadas para resolver assassinatos antigos.

A MISTERIOSA EVITA

Algumas pessoas famosas tornam-se ainda mais conhecidas após a morte. Foi o que sucedeu com Eva Perón, a icónica primeira-dama da Argentina que morreu de cancro, em 1952, com apenas 33 anos.

O corpo imaculadamente embalsamado de Evita foi radiografado, depois escondido e mudado durante 20 anos, como parte de uma batalha política contenciosa. Depois de anos em Itália, o seu corpo foi exumado, trazido de volta para a Argentina e, finalmente, depositado sob três placas de aço em Buenos Aires.

Flores decoram o túmulo de Eva Perón no Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina.

Este enterro não fez com que deixasse de haver dúvidas sobre a amada Evita. Em 2012, um neurocirurgião e outros especialistas publicaram um relatório, com base nos antigos raios-X, sugerindo que Perón pode ter sido lobotomizada pouco antes da morte. 

As lobotomias, que cortam as conexões com o córtex pré-frontal do cérebro, eram, por vezes, realizadas naquela época, como tratamento para doenças mentais ou para aliviar o sofrimento extremo dos moribundos. A única maneira de saber, com certeza, se Evita estava lobotomizada, seria exumá-la. Mas depois de uma jornada tão longa até à sua morada final, é improvável que isso alguma vez volte a acontecer.

GORILAS NA BRUMA

A perícia forense é útil para mais do que apenas resolver casos criminais. Estas ferramentas científicas são também utilizadas para aprender mais sobre o mundo natural.

Alguns dos animais mais famosos a serem exumados para este fim são os gorilas estudados na década de 70 por Dian Fossey, exploradora da National Geographic. Fossey fez investigação sobre os gorilas no Ruanda durante 18 anos e foi lá que foi assassinada em 1985, depois de defender ativamente a região contra os caçadores furtivos.

Agora, alguns dos gorilas que Fossey então observou foram desenterrados para mais estudos. Combinando os dados de Fossey com os registos de outros cientistas, os esqueletos oferecem um olhar sem precedentes sobre como as mudanças no ambiente ou nos grupos sociais afetam a saúde e o desenvolvimento dos gorilas.

 

Leia o artigo sobre esqueletos encontrados em cemitério milenar: http://www.natgeo.pt/historia/2017/07/esqueletos-em-urnas-entre-artefactos-encontrados-num-cemiterio-com-mil-anos

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