História

Estudo Sobre o Canibalismo Mostra Que Os Seres Humanos Não São Tão Nutritivos Como Se Achava

Apesar de os nossos antepassados praticarem o canibalismo, comer outros seres humanos não se pode comparar a comer um mamute.

Por Erika Engelhaupt

Nota a todos os organizadores de eventos da pré-história: com a carcaça de um mamute, consegue-se alimentar 25 neandertais famintos durante um mês; com a carcaça de um ser humano, contudo, fornecer-lhes-ia apenas um terço das calorias diárias necessárias.
Basicamente, não passamos de aperitivos.

Uma nova abordagem sobre o valor nutricional da carne dos seres humanos demonstra que, em comparação com outras presas do Paleolítico, os humanos não estavam dotados com as calorias necessárias para a respetiva compleição.

"Em comparação com outros animais, não somos muito nutritivos", diz o autor do estudo, James Cole, da Universidade de Brighton, que publicou o seu trabalho na Scientific Reports. De acordo com as estimativas do autor, os javalis e os castores têm cerca de 1800 calorias por cada 0,45 kg. Os humanos da atualidade, por sua vez, conta com umas míseras 650 calorias. Isto é mais ou menos o que se esperava, com base no tamanho total e na massa muscular dos humanos, em comparação com outros animais, afirma o autor.

Justin Cole faz, portanto a seguinte pergunta: se os humanos não são presas com grande valor nutricional, porquê comê-los? Ainda por cima, a menos que estivessem doentes ou a morrer, não seriam fáceis de caçar. “Era preciso organizar uma caçada e localizar estas tais de pessoas, que, por sua vez, não iam estar parados à espera que lhes atravessassem uma lança”, afirma Justin Cole.

Por outro lado, Cole argumenta que é possível que nem todo o canibalismo de antigamente existisse para matar a fome; pode também ter servido várias funções sociais para os humanos primitivos e seus antepassados.

ORIGENS DO CANIBALISMO

Os arqueólogos encontraram provas de canibalismo na árvore genealógica humana que remontam a, pelo menos, 800 000 anos. E, apesar de as marcas nos ossos cortados e roídos não revelarem as verdadeiras motivações, os vestígios históricos dão algumas pistas sobre como as práticas canibais se foram difundindo ao longo da evolução humana.

Na gruta de Gran Dolina, em Espanha, por exemplo, partes cortadas de bisontes, ovelhas e veados estavam misturados com as partes do corpo de, pelo menos, 11 humanos, todos crianças ou adolescentes, cujos ossos demonstravam sinais de canibalismo. Além das marcas que comprovam que a carne foi arrancada dos ossos, as provas sugerem que os habitantes de Gran Dolina — um antigo parente do humano chamado Homo antecessor — comiam os cérebros das suas vítimas.

As partes de corpo de humanos encontradas na caverna estavam dispostas em camadas e pertencem a épocas diferentes, tendo algumas  centenas de milhares de anos. Isto leva a crer que se tratava de uma prática regular. 

As partes de corpo humano estavam também misturadas com as partes de corpos de outros animais, que estavam dispostas da mesma forma. Como tal, alguns antropólogos propuseram que a prática de canibalismo naquele local poderia não se dever a uma emergência de fome ou poderia não ser um ritual.

É possível que a carne humana fosse um complemento habitual da dieta destes povos, ou talvez os jovens fossem considerados entidades externas e o canibalismo servisse como um sinal eficaz para os manter afastados dali — da análise dos ossos, não se conseguem afirmar certezas.

Isto é verdade para a maior parte dos casos de canibalismo da Pré-História, refere a antropóloga Sílvia Bello, do Museu de História Natural, em Londres.

"Concordo [com Cole]: é provável que o canibalismo no Paleolítico tenha sido praticado com maior frequência enquanto uma "escolha" do que enquanto uma mera "necessidade"”, afirmou Sílvia Bello. "Considero, contudo, que é muito difícil descobrir a motivação da escolha."

CARNE É CARNE?

Em alguns casos, o canibalismo pode ter acontecido simplesmente por uma questão prática.

"A questão não está relacionada com a nutrição como alternativa à caça grossa," diz o antropólogo Erik Trinkaus, da Washington University, em St. Louis. "Trata-se de uma questão de sobrevivência, quando não há outras fontes de alimento, os membros de um grupo social morreram, e os membros que sobreviveram consomem os corpos das pessoas já mortas."

Cole reconhece que há muita coisa que o estudo limitado que fez ao valor nutricional dos humanos nos pode dizer, e que é um estudo baseado em apenas alguns humanos modernos. E os nossos antepassados não escolhiam, certamente, as suas refeições com base nas calorias.

De acordo com o autor, é possível que a mensagem final seja a de que os povos antigos praticavam o canibalismo por motivos bem mais variados do que os que supúnhamos. Afinal de contas, nos últimos séculos, têm sido atribuídas ao canibalismo humano múltiplas causas, incluindo guerra, sobrevivência, crenças espirituais e psicoses.

A sobrevivência dos povos antigos deveu-se muito provavelmente ao facto de serem incrivelmente oportunistas e, por vezes, canibais, refere Bill Schutt, professor de Biologia no Post Campus da Universidade de Long Island e autor do novo livro Cannibalism: A Perfectly Natural History. (Ler uma entrevista com Schutt.)

"O canibalismo é muito comum no reino animal," refere Bill Schutt, e os humanos não são exceção. "O que nos torna diferentes são os rituais , a cultura, os tabus", afirma o professor. "Fomos ensinados a ver o canibalismo como a pior coisa que uma pessoa pode fazer."

Cole diz que, de facto, foi um pouco desconcertante fazer a contagem de calorias da carne humana, pois obrigou-o a pensar sobre a forma como seria o canibalismo . "Há cerca de um ano, passei mesmo a ter dificuldades em comer bacon", refere o autor.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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