História

Mãos de Bebés em Pinturas em Cavernas Podem na Verdade Pertencer a Lagartos

Uma análise de pequenas decorações de mãos num abrigo de pedra do Saara, revela que não são decididamente humanas.

Por Kristin Romey

29 fevereiro 2016

Quando a localização de Wadi Sura II foi descoberta no deserto ocidental do Egipto em 2002, os investigadores foram surpreendidos pelas milhares de decorações pintadas nas paredes do abrigo de pedra datadas com mais de 8.000 anos. Não só estão representados animais selvagens, figuras humanas e estranhas criaturas sem cabeça que levaram as pessoas a apelidá-la de “Caverna das Bestas”, mas também centenas de perfis de mãos humanas – mais do que alguma vez tinham sido vistas anteriormente num local de arte rupestre saariano.

O que era ainda mais fora do comum eram os traços de 13 pequenas mãos. Até à descoberta de Wadi Sura II, os contornos de mãos e pés de crianças muito pequenas tinham sido vistos na arte rupestre australiana, mas nunca no Saara. Uma cena notável e comovente representa até um par de “mãos bebés”, aninhadas dentro dos contornos de um par de mãos maior, de adulto.   

E aqui é que a coisa fica ainda mais estranha: as mãos pequeninas não são sequer de humanos.

À Procura de Respostas Num Hospital Francês   

Wadi Sura II é considerado um dos maiores locais de arte rupestre do Saara, apesar de não beneficiar da mesma popularidade do vizinho Wadi Sura I, a “Caverna dos Nadadores”, descoberta pelo conde húngaro Láslo Almásy em 1933 e popularizada no filme “Paciente Inglês”.

A antropóloga Emmanuelle Honoré do Instituto McDonald de Estudos Arqueólogos descreve como ficou “chocada” pela forma dos perfis das mãos estranhamente pequenas, quando as viu na sua primeira visita a Wadi Sura II, em 2006. “Eram muito mais pequenas do que as mãos de bebés humanos e os dedos eram longos demais,” explicou.

Honoré decidiu comparar medições tiradas desses perfis com as medidas retiradas das mãos de bebés humanos recém-nascidos (37 a 41 semanas de idade gestacional). Como as amostras do local eram tão pequenas, incluiu também as medidas retiradas de bebés prematuros recém-nascidos (26 a 36 semanas de idade gestacional). 

Para isso, os antropólogos contrataram uma equipa que incluía igualmente investigadores médicos para recolherem os dados das crianças na unidade neonatal de um hospital francês. “Se eu fosse a um hospital e simplesmente dissesse, ‘Eu estudo arte rupestre. Há por aí bebés disponíveis?’ iam pensar que estava louca e chamar o segurança,” ri-se ela.  

Os resultados, que acabaram de ser publicados, demonstram que existe uma probabilidade muito pequena das mãos de bebés na Caverna das Bestas serem humanas.  

O Desafio da Interpretação

Então se as mãos não são humanas, o que são? O posicionamento das mãos pequeninas e dos seus dedos variam de contorno para contorno, o que levou a equipa de investigadores a concluir que eram flexíveis e articuladas e a excluir a hipótese do contorno ser resultado de um material estático, como madeira ou barro.

Honoré suspeitou inicialmente de patas de macacos mas quando essas proporções também foram excluídas, colegas no Museu de História Natural em Paris sugeriram que desse uma vista de olhos nos repteis.

Até agora, os exemplos com proporções mais próximas das mãos de “bebés” são os lagartos-monitores do deserto ou, possivelmente, as patas de jovens crocodilos. (O estudo dos crocodilos ainda está em desenvolvimento). Os lagartos-monitores ainda vivem na região nos dias de hoje e são considerados criaturas protetoras pelas tribos nómadas da região.  

A revelação de que as imagens das mãos pequenas de Wadi Sura II não são humanas é uma grande surpresa para os estudiosos da arte rupestre saariana. “Moldes de animais é considerado uma coisa essencialmente australiana ou sul-americana," explica Honoré.  

As decorações de patas animais em Wadi Sura II aparecem não apenas dentro dos contornos de mãos humanas mas também em frisos, um padrão observado igualmente com mãos humanas. Foram todas feitas por volta da mesma altura, com o mesmo pigmento. É impossível diz, no entanto, se o pé de uma criatura viva foi comprimida contra a parede do abrigo de pedra para estampar ou se o(s) autor(es) optaram por uma opção mais segura e conveniente: um membro cortado recentemente.   

Honoré encontra-se relutante em especular sobre o significado de gravuras não-humanas. “Temos uma conceção moderna que a natureza é algo de que os humanos estão separados”, diz ela. “Mas nesta enorme coleção de imagens conseguimos detetar que os seres humanos são apenas uma parte de um mundo natural muito maior. É muito desafiador para nós, enquanto investigadores, interpretar pinturas visto que temos uma cultura totalmente diferente [daquela que as criou].”

Enquanto isso, muitos dos pais dos bebés participantes no estudo estão ansiosos de ler sobre a revelação das gravuras rupestres. “Estavam realmente entusiasmadas com a ideia que os seus recém-nascidos poderiam contribuir dessa forma para a ciência”, diz  Honoré.

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