História

Nova Espécie de Antepassado Humano Encontrado na Etiópia

Fóssil de mandíbula com mais de três milhões de anos, próximo de parente de Lucy

Por Nadia Drake

27 maio 2015

Há mais de 3 milhões de anos atrás, quando “Lucy” caminhava pela savana da atual Etiópia, poderá ter encontrado outros primatas de duas pernas nada parecidos com a sua própria espécie, o Australopithecus afarensis—mesmo assim, um pouco estranho.

Representado por maxilares de três indivíduos, uma nova espécie exposta chamada Australopithecus deyrimeda acrescenta as provas que não era uma, mas uma gama variada de espécies hominídeas que povoavam a paisagem da África Oriental antes de há 3 milhões de anos. Isto poderá implicar que eles eram capazes de criar nichos separados num ambiente estável baseados em diferenças tipos de dietas, estratégias de procura de alimentos e outros comportamentos.

“Não sabemos o suficiente ainda para dizer seja o que for acerca da natureza da interação ou diferenças ecológicas entre A. afarensis e A. deyiremeda”, afirma Stephanie Melillo do Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology. “Temos que saber primeiro como diferenciar as duas espécies para além dos restos fósseis, e é sobre isso que este artigo trata”.

Documentado na quarta-feira na Nature, os novos espécimes – um maxilar superior parcial, dois maxilares inferiores e outros fragmentos – foram encontrados em Burtele, no Triângulo Afar da Etiópia, à distância de um dia de caminhada de Hadar, onde Lucy foi encontrada em 1974. Sedimentos que rodeavam os ossos foram datados de entre 3.3 e 3.5 milhões anos atrás, uma altura em que o A. afarensis é conhecido por ter habitado a região. Enquanto os novos maxilares partilham algumas características com a espécie de Lucy, diferem noutros aspetos. Alguns dos dentes têm diferentes estruturas da raiz e são normalmente mais pequenos que os dentes do A. afarensis, um traço que poderá indicar uma mudança na dieta.

“Dentes mais pequenos estão normalmente associados a uma dieta mais à base de carne”, diz Fred Spoor da University College London e do Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology. “E os músculos mastigatórios evoluíram, o que sugere uma redistribuição de algum tipo da forma como mastigavam”.

O nome da espécie, A. deyrimeda, deriva das palavras locais para “próximo” (deyi) e “parente” (remeda) – sinalizando o relacionamento próximo da espécie com outros hominídeos. Mas as semelhanças existem até certo ponto.

“Estamos convencidos que é diferente do A. afarensis”, afirma o autor do estudo, Yohannes Haile-Selassie do Cleveland Museum of Natural History. "Todas as provas — publicadas e não publicadas—que temos das regiões de Burtele apoiam a nossa conclusão”. Haile-Selassie, um bolseiro da National Geographic, salienta que desdobrar os novos espécimes em A. afarensis introduziria uma quantidade extremamente invulgar de variações físicas nas espécies já existentes.

Mesmo assim, “as distinções são muito, mesmo muito subtis”, afirma o paleoantropólogo Bill Kimbel do Institute of Human Origins. “Penso que os autores fizeram um ótimo trabalho a analisar o material, mas penso que é uma decisão de cada um se consideram que a quantidade é suficiente para afirmar que existe uma nova espécie”.

A. afarensis mantém-se claramente como o hominídeo mais notório nos registos fósseis da África Oriental entre 3 a 4 milhões atrás, durante um período conhecido como Plioceno Médio. No entanto, nas últimas duas décadas, os cientistas deram nomes a outros, incluindo o Australopithecus bahrelghazali de Chade e o Kenyanthropus platyops do Quénia. A. deyrimeda aumenta os números.

“Existem agora provas indiscutíveis que demonstram que existiam múltiplos hominídeos na África Oriental durante o Plioceno Médio”, escrevem os autores.

De especial interesse são alguns ossos enigmáticos do pé de um hominídeo recolhido em 2009, muito próximo do local onde desenterraram A. deyiremeda. Os ossos sugerem que se tratava de uma criatura com um pé flexível e um polegar capaz de agarrar objetos, como um hominídeo mais primitivo chamado Ardipithecus ramidus, datado de há 4.4 milhões de anos atrás.

Mas desconcertante: os ossos do pé em Burtele datam de há apenas 3.4 milhões atrás: o mesmo espaço temporal que A. deyiremeda. É uma combinação de proximidade tanto no espaço como no tempo que não pode ser ignorada, afirma Kimbel.

“Perceber se esse pé primitivo é ou não da mesma criatura que os dentes e os maxilares do australopitecíneo, que são descritos agora como sendo da maior importância”, diz Kimbel. “Significaria que poderíamos ter cabeças semelhantes às do australopiteco com mais opções de locomoção – um cenário que ainda não tínhamos considerado”.

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