História

O Arquivo de 1400 Páginas do FBI Sobre Einstein

O físico mundialmente famoso era direto quando se declarava contra o racismo, o nacionalismo e as bombas nucleares, levantando suspeitas contra J. Edgar Hoover.

Por Mitch Waldrop

Albert Einstein era já um físico mundialmente famoso quando o FBI criou um dossiê secreto sobre ele, decorria o ano de 1932. Einstein, juntamente com a sua esposa Elsa, tinha acabado de chegar aos Estados Unidos da América, vindo do seu país natal, a Alemanha, quando começou a manifestar-se sobre questões sociais da sua época, assumindo-se publicamente contra o racismo e o nacionalismo.

Aquando da sua morte, a 18 de abril de 1955, o dossiê secreto do FBI reunia já 1427 páginas. J. Edgar Hoover, o então diretor da agência, manifestava uma profunda suspeita sobre o ativismo de Einstein, considerando que, possivelmente, seria comunista e era, certamente, “um extremista”.

Caso Einstein tivesse tido conhecimento desses rótulos, decerto teria rido deles uma vez que dos nazis, na sua terra natal, já havia escutado piores comentários. E ele não se deixava, facilmente, intimidar pelo governo. Em 1901, declarou que “o respeito imponderado pela autoridade é o maior inimigo da verdade”.

Os milhares de pessoas previstos na Marcha pela Ciência, que acontecerá este fim de semana, iriam, certamente, concordar com esta afirmação.

Motivado pelos cortes feitos ao orçamento nacional destinado à investigação científica e pela retórica anticiência proferida pela administração de Trump, um grupo de cientistas, professores e outros defensores da ciência organizaram uma marcha em Washington, à semelhança da Marcha pelas Mulheres realizada em janeiro. O movimento, desde então, cresceu e passou a incluir centenas de parceiros em inúmeras cidades mundiais.

Os manifestantes afirmam que se unem por tudo o que a ciência representa, incluindo a razão, a abertura de espírito e a tomada de decisões sustentadas em evidências a todos os níveis e de todas as áreas sociais.

Apesar de beneficiarem do apoio de mais do que 170 organizações científicas, os participantes mobilizaram-se em resposta aos acesos debates entre os próprios cientistas. Tal como um geólogo cético referiu no New York Times, a marcha “servirá apenas para… criar um grupo de cientistas enleado entre guerras culturais”.

Porém, e considerado a caraterística rebeldia de Einstein, os apoiantes do evento atuarão imbuídos do espírito de um dos mais reconhecidos cientistas de todos os tempos

Foi a atitude desafiadora de Einstein que, aos 15 anos de idade, o conduziu à expulsão do ensino secundário alemão e que aos 17 o levou a renunciar à sua cidadania. Não pretendia nada mais com o autoritarismo das escolas alemãs nem com o excesso de militarismo que apregoavam, pois detestava-os.

Trocou, então, o ensino alemão pelo Instituto Politécnico de Zurique, tornando-se um cidadão suíço. Após graduar-se, iniciou a sua atividade profissional, em Berna, num escritório suíço de patentes, onde desenvolveu o seu revolucionário trabalho sobre as teorias quântica e da relatividade, em 1905. (Leia sobre a teoria das ondas gravitacionais, de 2016, um fenómeno que Einstein tinha previsto cem anos antes.)

Somente em abril de 1914 é que Einstein regressou à Alemanha, quando as suas descobertas foram nomeadas por prestígio pela Universidade de Berlim. Nessa instituição continuou a desenvolver as suas teorias sobre a relatividade e a gravidade que foram, espetacularmente, confirmadas através da observação de um eclipse solar e que, desde então, alteraram a nossa compreensão do universo.

O partido Nazi, então em ascensão, denunciava a teoria da relatividade como “uma perversão judia” – o equivalente, nos anos 20, ao uso das fake news (notícias falsas) cujo objetivo é tornar credível o que é falso – e Einstein ia recebendo tantas ameaças anónimas de morte que evitava, a todo o custo, andar sozinho.

Mas estas ameaças não o calaram. Contrariamente, ele foi, sempre que possível, fazendo uso da sua fama para expor todas as incorreções que ia observando. O silêncio perante o mal, disse, “ter-me-ia tornado culpado por cumplicidade”

Em 1929, Einstein denunciou o nacionalismo militante, apelidando-o de “o sarampo da humanidade”.

Também questionou o capitalismo. “Considero as diferenças sociais contrárias à justiça e, em última instância, sustentadas na força”, escreveu em 1931. “Que cada Homem seja respeitado como o indivíduo que é e que nenhum seja idolatrado”.

Protestou contra o racismo. Quando, em 1937, à cantora afro-americana Marian Anderson foi negado um quarto de hotel em Princeton, New Jersey, Einstein e Elsa convidaram-na a ficar na sua casa. Este foi o início de uma amizade para toda a vida. Também se tornou amigo do cantor afro-americano Paul Robeson que fora ostracizado por ser comunista. Num discurso proferido na Pensilvânia, na Universidade Liberty, frequentada maioritariamente por pessoas de raça negra, Einstein declarou que a segregação é “uma doença dos brancos”.

Após 1933, a ascensão de Hitler levou Einstein a admitir que o pacifismo deixara de ser uma realista. Em agosto de 1939, temendo que os físicos alemães já tivessem iniciado a exploração do fenómeno, recentemente descoberto, de fissão nuclear, Einstein dirigiu uma carta ao presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Roosevelt, alertando que “o elemento urânio pode tornar-se numa nova e importante fonte de energia no futuro próximo” – isto é, uma bomba.

O Projeto Manhattan foi a resposta de Roosevelt. Um programa que pretendia desenvolver a bomba atómica antes que Hitler o fizesse.

Einstein não desempenhou qualquer outra função no projeto. Todavia, na primavera de 1945, voltou a redigir outra carta ao Presidente sugerindo que este reunisse com os cientistas do Projeto Manhattan que estavam preocupados com a urgência em terminar e usar a bomba atómica, apesar de a Alemanha estar próxima da derrota e de ter, claramente, desistido do urânio.

Roosevelt viria a falecer a 12 de abril, antes de ter tido a oportunidade de ler a carta. Quando Einstein tomou conhecimento de que, em agosto, uma bomba atómica tinha sido detonada sobre a cidade japonesa de Hiroxima, já podia só podia sussurrar “Oh, meu Deus”. (Veja também “Este bonsai sobreviveu a Hiroxima mas a sua história quase se perdeu”.)

Durante o resto da sua vida, Einstein manifestou-se um incansável defensor de que as armas nucleares deveriam estar, de alguma forma, sob o controlo internacional. Durante a era atómica, argumentou, que a guerra se tornara numa forma de insanidade.

Só podemos prever o que Einstein diria sobre a atual situação política. Todavia conhecemos a sua reação à repressão governamental de uma época anterior: a histeria anticomunista dos anos 50.

Em 1953, referindo-se às investigações do congresso que intimidavam e arruinavam as carreiras de muitos inocentes, Einstein declarou que “todo o intelectual convocado para um comité deve recusar testemunhar”.

Essa declaração valeu-lhe críticas ofensivas em jornais de todo o país, incluindo o Washington Post e o New York Times. Porém, ele usou essas ofensas com orgulho.

Depois das suas experiências com a “força bruta e o medo” que povoaram a Europa, o que mais impressionou Einstein sobre a América foi “a tolerância, o pensamento livre, a liberdade de expressão e as crenças não-conformistas do país”. As mesmas qualidades que sempre encorajaram a sua ciência, tal como afirma o seu biógrafo Walter Isaacson.

Einstein não esteve disposto a permanecer um observador imóvel, usando as suas palavras, “enquanto a calamidade alemã se repete”.