História

O Neandertal com o Tumor mais Antigo do Mundo

Os investigadores descobriram um tumor ósseo num Neandertal, que viveu há mais de 120.000 anos.

Por Melody Kramer
Fotografias Por JOE MCNALLY, NATIONAL GEOGRAPHIC

7 junho 2013

Um tumor ósseo benigno que afeta os seres humanos modernos já foi encontrado num dos nossos antepassados: um Neandertal com mais de 120.000 anos de idade.

A descoberta de uma displasia fibrosa numa costela Neandertal é o tumor ósseo mais antigo alguma vez registado, precedendo outros tumores em mais de 100.000 anos. A costela, recuperada de local em Krapina, na Croácia, indica que os Neandertais eram suscetíveis aos mesmos tipos de tumores que os humanos modernos evidenciam, apesar de viverem em ambientes extremamente diferentes.

"Eles não tinham pesticidas, mas eles provavelmente dormiam em cavernas com fogos em chamas", diz David Frayer, um antropólogo da Universidade do Kansas e coautor de um novo artigo sobre a descoberta. "Eles provavelmente inalaram muito fumo das cavernas. Por isso o ar não estava completamente livre de poluentes - mas esses Neandertais seguramente não estavam a fumar."

A viagem do tumor dentro de um osso com mais de 120.000 anos de idade até às páginas da revista "PLOS ONE" foi longa. Tudo começou em 1899, quando um paleontólogo chamado Dragutin Gorjanovic-Kramberger estava a escavar numa caverna perto da vila Croata de Krapina. Depois de desenterrar um molar humano, uma pilha de ossos de animais, e uma ferramenta de pedra pequena, Gorjanovic-Kramberger e os seus colegas iniciaram uma escavação no local.

Eles perceberam logo que tinham tropeçado na maior coleção do mundo de artefactos Neandertais.

Entre as descobertas: ossos de animais, ferramentas de pedra, e quase 900 restos fossilizados de Neandertais que remontam há mais de 120.000 anos. Em 1918, Gorjanovic-Kramberger descreveu os ossos:

"É perfeitamente lógico supor que esses homens Neandertais, que passavam dias e noites ao ar livre, comendo de forma simples, tinham que ser saudáveis e menos propensos às doenças que temos hoje. Por isso, era muito provável haver acidentes nas suas lutas para sobreviver e causar ferimentos ou mesmo mutilação no corpo".

Mas os Neandertais também sofriam de doenças: condições como a artrite grave, a periodontite e tuberculose, cujos sinais reveladores permaneciam sobre os ossos há mais de 100.000 anos.

A Prova mais Antiga

"Há muitas provas de traumas bruscos que mostram que estes Neandertais foram atingidos na cabeça", diz Janet Monge, a principal autora do artigo e uma antropóloga física da Universidade da Pensilvânia. "Há também evidências de um antebraço amputado e artrite. Mas esta é a primeira evidência de um tumor."

Monge, que tem vindo a trabalhar com os ossos Krapina durante décadas, foi um dos primeiros antropólogos físicos a estudar raios-x da coleção óssea. No início, ela olhou para as radiografias tiradas por pelo radiologista Penn, Morrie Kricun, na década de 1980. Mas como os ossos eram tão antigos, era difícil ver as estruturas internas dentro dos próprios ossos.

"Eram radiografias formidáveis, considerando a forma como as pessoas se movem em torno dos diagnósticos, mas estávamos basicamente a receber imagens negras dos ossos", diz Monge. "Toda a estrutura interna do osso estava em falta. E nós ponderámos a existência de um tumor, mas não quisemos denunciar essa possibilidade; é algo que queríamos dizer só se fosse confirmado."

Então Monge e Kricun decidiram tentar novamente, desta vez usando uma máquina de digitalização micro-CR, que corta uma imagem em secções transversais individualmente distintas. Neste caso, a costela Neandertal - que tinha cerca de 30 mm de comprimento - foi cortada em cerca de 500 imagens distintas, o que deu aos antropólogos e radiologistas a capacidade de olhar para o pedaço de osso peça por peça.

"Fomos capazes de filtrar todos os pequenos detalhes, um a um", diz Monge. "Eles também nos deram a capacidade de remodelar as áreas em falta no osso."

O que o osso mostrou era que, pelo menos um Neandertal, sofria de uma displasia fibrosa, um tumor benigno caracterizado por as áreas de crescimento anormal num ou vários ossos.

"A maioria dos cancros afetam as pessoas quando envelhecem", diz Frayer. "E a maioria dos Neandertais e populações anteriores morreu antes de envelhecer. Por essa razão, isto era algo realmente entusiasmante de se ver."

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