História

Treinados em Segredo, Estes Audaciosos Aviadores Viajaram Para a História há 75 anos

Em 1942, um grupo de audazes pilotos conhecidos como os Doolittle Raiders levaram a cabo uma das missões mais arrojadas da Segunda Guerra Mundial.

Por Winston Groom

Nas primeiras semanas de 1942, a América estava indignada, humilhada e desmoralizada. Os couraçados da Frota do Pacífico jaziam afundados em Pearl Harbor, vítimas do ataque surpresa lançado pelo Japão, no dia 7 de dezembro de 1941.

Nos meses seguintes, os EUA e os seus aliados não foram capazes de fazer mais do que ficar a ver a força destruidora japonesa a atravessar o Pacífico e a esmagar todas as posições britânicas, holandesas, francesas e americanas que encontrava pelo caminho.

Depois do ataque a Pearl Harbor, o Presidente Franklin Roosevelt pressionou furiosamente os chefes dos serviços armados no sentido de encontrarem uma forma de retaliação em território japonês, mas ninguém sabia como ultrapassar as dificuldades logísticas.

Os aviões de combate estacionados nos porta-aviões eram demasiado pequenos para causar danos significativos e não tinham autonomia suficiente para tornar a missão exequível. Os bombardeiros podiam ser devastadores, mas pensava-se que eram demasiado grandes para descolar e aterrar num porta-aviões.

Foi então que, num dia frio de janeiro, alguém se lembrou de que o B-25 'Mitchell', um bombardeiro bimotor relativamente novo e com dimensões médias, poderia ser capaz de descolar de um convés plano. Aterrar um destes aviões num porta-aviões estava fora de questão, mas depois de bombardear o Japão deveria ter combustível suficiente para chegar aos campos amigáveis da China.

O comandante da Corpo Aéreo do Exército, o General Henry 'Hap' Arnold, chamou para esta missão o Tenente-Coronel James 'Jimmy' Doolittle, um dos aviadores mais famosos da época e um homem que Arnold sabia ser 'absolutamente destemido'.

Os únicos pilotos com qualificações para pilotar o B-25 em combate eram membros do 17.º Grupo de Bombardeamento do Corpo Aéreo do Exército estacionado em Fort Pendleton, Oregon. Doolittle juntou mais de 100 oficiais e soldados do grupo e informou-os de que eram necessários voluntários para ‘uma missão muito perigosa’. Todos se alistaram.

Os pilotos do Exército foram submetidos a treinos pesados num local secreto da Costa do Golfo da Florida. Habituados a descolar de pistas com 1,6 km, os pilotos aprenderam táticas temerárias para lançarem os aviões de um curto convés de porta-aviões. Ao mesmo tempo, 24 bombardeiros B-25 eram equipados com tanques de combustível adicionais e despojados de todo o peso desnecessário.

‘Com Destino a Tóquio’

No dia 2 de abril de 1942, o porta-aviões Hornet da marinha norte-americana zarpou da Baía de São Francisco com 16 bombardeiros amarrados no convés de voo. No mar, cruzadores e contratorpedeiros juntaram-se ao porta-aviões e o comandante do destacamento enviou uma mensagem a todos os navios: ‘Este destacamento vai com destino a Tóquio.’ Um coro de vivas de cinco mil gargantas fez-se ouvir nos céus crepusculares do Pacífico.

A força operacional encontrou-se com o porta-aviões Enterprise em alto-mar e continuou a todo a vapor em direção ao Japão. A bordo do navio, os Doolittle’s Raiders, como os pilotos viriam a ficar conhecidos, foram instruídos no sentido de memorizarem e praticarem uma importante frase em chinês: lusha hoo metwa fugi, que significa ‘Sou americano’.

Uma vez que as tropas japonesas ocupavam porções consideráveis do território continental chinês, os aviadores aprenderam também a distinguir um amigo chinês de um inimigo japonês. Estudaram mapas, jogaram, viram filmes, comeram gelados e contemplaram o seu destino. Doolittle calculava que as probabilidades de voltarem vivos eram inferiores a 50 por cento.

Depois de duas semanas no mar, quando o destacamento se aproximava do território inimigo, o clima começou a piorar. Os mares atingiram a altura de um edifício de três andares. De seguida, às 3 horas da manhã do dia 18 de abril, o radar detetou uma vedeta de fiscalização japonesa. Um cruzador da Marinha atacou e afundou a embarcação, mas não antes de a tripulação ter emitido um alerta.

Os planos indicavam que o esquadrão de Doolittle deveria levantar voo a cerca de 300 milhas do Japão, mas, quando foram avistados, os navios americanos estavam ainda a 700 milhas da costa. Depois de uma breve discussão com os comandantes navais, Doolittle recebeu a autorização para avançar. A sirene soou imediatamente e o capitão do Hornet da marinha norte-americana deu a ordem: ‘Pilotos do exército, aos vossos aviões!’

O navio balançava e sacudia-se fortemente quando Doolittle se tornou no primeiro a tentar levantar voo. O oficial de voo do porta-aviões calculava quando se daria subida e a descida da proa da embarcação para dar ao avião a vantagem de um convés elevado. ‘Era como pilotar um baloiço’, disse Doolittle.

Ao sinal, aumentou as rotações dos motores até a tripulação temer que os tivesse queimado, e avançou pesadamente convés fora. ‘Pensávamos no que o vento lhe iria fazer’, disse o piloto Ted Lawson, que estava quatro aviões mais atrás, no Ruptured Duck. ‘Toda a gente sabia que se ele não fosse capaz, nós também não conseguiríamos.’

No preciso momento em que uma onda elevou o porta-aviões, Doolitle levantou voo a poucos metros do fim da pista. ‘Pôs o avião quase a pique’, disse Lawson, pelo que todos puderam ver a parte de cima do avião, ‘depois nivelou-o’.

Todos os 16 aviões conseguiram levantar voo, mas só depois de um membro da tripulação da marinha ter deslizado pelo convés encharcado para empurrar a barulhenta hélice do último avião a descolar.

‘ACERTÁMOS NUM PORTA-AVIÕES’

Cinco horas depois o esquadrão chegou à costa do Japão em voo rasante. Os pescadores e agricultores olharam para cima e acenaram, partindo do princípio de que os aviões de combate eram japoneses. O clima tinha amainado.

A maioria dos bombardeiros seguiu diretamente para Tóquio, que parecia uma cidade vasta e extensa, como Los Angeles. A aproximação ao nível dos telhados deu aos invasores um avanço relativamente às centenas de armas antiaéreas que circundavam a capital japonesa.

Doolittle avistou o seu alvo — uma grande fábrica de munições — e subiu para 1200 pés de forma a atingir a altitude de bombardeamento. O bombardeiro largou quatro bombas incendiárias e a fábrica ficou em chamas.

Um outro piloto atravessou Tóquio e dirigiu-se a uma grande base naval em Yokohama. Quando as portas de descarga das bombas se abriram, o fogo antiaéreo fez sacudir o avião, mas o bombardeiro conseguiu puxar a alavanca. Alguns segundos depois, gritou em êxtase: ‘Acertámos num porta-aviões’. 

Todos os aviadores estavam mais ou menos à espera de que uma nuvem de caças japoneses, chamados Zeros, se abatesse sobre eles. Mas os invasores atacaram e deixaram as cidades alvo tão rapidamente que conseguiram evitar em grande parte os caças inimigos.

A certa altura durante esta ação, o primeiro-ministro japonês, o General Hideki Tojo, estava a chegar a uma base aérea num pequeno avião oficial. Quando se estava a aproximar da pista, o B-25 de Doolittle passou por ele sem disparar nenhum tiro. Os assessores do general relataram que o avião tinha um ‘aspeto esquisito’.

Os porta-aviões Enterprise e Hornet, que se dirigiam já de volta a casa, começaram a receber sinais da Rádio Tóquio a noticiar o ataque. As manifestações de contentamento não demoraram a fazer-se ouvir entre os milhares de marinheiros a bordo. Tinham conseguido! A América tinha ripostado!

VOAR VAZIOS

O esquadrão de Doolittle reuniu-se sobre o Mar do Japão e voou para oeste em direção ao sol poente. Nenhum dos B-25 tinha sido abatido. Agora só tinham de conseguir chegar aos campos de aterragem em território chinês amigo.

Mas agora os americanos iriam ter de aterrar na China à noite, o que complicava bastante a as coisas. Para piorar a situação, o clima tinha voltado a piorar.

A costa chinesa era marcada por montanhas altas que se estendiam longamente até ao interior. A visibilidade era inexistente e os bombardeiros estavam a ficar sem combustível. Não havia rasto dos sinais de orientação que deveriam marcar as pistas de aterragem. Doolittle decidiu que a única opção era continuarem a voar até ficarem sem combustível e depois descerem de paraquedas na noite escura e chuvosa.

À medida que cada avião começou a falhar e a crepitar, os pilotos e a tripulação deixaram-se cair um a um pelas portas de descarga de bombas sobre o desconhecido. Milagrosamente, apenas três homens morreram ao aterrar. Oito foram capturados por soldados japoneses, três dos quais foram executados, e os restantes foram terrivelmente torturados e condenados a prisão perpétua.

Quanto a Doolittle, mergulhou num arrozal fertilizado com resíduos humanos. Tentou dizer lusha hoo metwa fugi em várias cabanas, mas ninguém o compreendia.

Um piloto aterrou numa árvore e, naquele que pode ser o único exemplo de um cigarro a salvar a vida de uma pessoa, acendeu-o antes de se libertar e cair no chão. Ainda em cima da árvore, acabou de fumar, atirou a beata ainda acesa para o ar e olhou para ela petrificado à medida que desaparecia na escuridão a uma distância muito, muito grande. A árvore que amparou o seu paraquedas estava à beira de um penhasco com 305 metros.

Outro Americano, que procurava esconder-se e fugir do frio, começou a subir para cima de uma grande caixa de madeira assente sobre cavaletes num celeiro, e descobriu de seguida que se tratava de um caixão ‘com um senhor chinês muito velho.’

A maioria das tripulações de Doolittle, compostas por cinco homens, estava reunida no dia seguinte. Chineses amigáveis abrigaram-nos e transportaram-nos — em rickshaws, liteiras, burros, carros de bois, bicicletas e às cavalitas — para a segurança das linhas americanas onde foram saudados como heróis.

As notícias deste ataque arrojado espalharam-se por rádios e jornais de todo o mundo, revigorando o coração das desmoralizadas forças Aliadas. Mas, acima de tudo, este ataque relâmpago ajudou os planeadores militares a obter informações vitais que iriam mudar o curso da guerra.

Antes da missão Doolittle, a marinha japonesa cumpria um silêncio quase completo via rádio, frustrando os esforços dos criptógrafos americanos, que tinham decifrado apenas 10 por cento do livro de códigos da Marinha Imperial. O espetacular ataque aéreo ao coração do Japão desencadeou uma torrente de mensagens codificadas, pelo que em apenas algumas semanas os criptógrafos americanos conseguiram decifrar quase 90 por cento do código naval japonês.

Pouco mais de um mês depois, em junho de 1942, o Japão enviou quatro dos seus seis grandes porta-aviões para um ataque a um posto militar avançado dos EUA na Ilha de Midway. Os americanos, de pré-aviso, já os esperavam e fizeram uma emboscada, afundando os quatro porta-aviões japoneses. A perda devastadora tolheu a frota japonesa e ajudou a mudar a tendência da guerra a favor dos Aliados.

Quando Kimmy Doolittle regressou à sede do Corpo Aéreo do Exército em Washington, encontrou Hap Arnold e o Chefe do Estado-Maior do Exército, George Marshall, à sua espera. Doolittle iria à Casa Branca falar com o Presidente, anunciaram-lhe.

‘Para quê?’ perguntou Doolittle, temendo ser levado a tribunal militar por ter perdido um esquadrão inteiro de aviões.

‘Porque lhe vai entregar a Medalha de Honra’, respondeu o General Marshall.

 

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