História

Você (E Praticamente Toda a Gente que Conhece) Deve a Sua Vida a Este Homem.

Curiously Krulwich; Um Blog por Robert Krulwich

Por Robert Krulwich

25 março 2016

O temperamento importa.

Especialmente quando existem armas nucleares envolvidas e não se sabe – não podemos saber – aquilo que o inimigo anda a fazer e estamos assustados. Nesse caso ajuda (ajuda mesmo muito) manter a calma.

O mundo tem uma enorme dívida para com um oficial russo da marinha, estável e calado, que provavelmente salvou a minha vida. E as vossas. E as de todos aqueles que conhecemos. Até mesmo daqueles que ainda não tinham nascido. Quero contar-vos a história dele…

Em outubro do ano de 1962, o ponto alto da crise dos mísseis de Cuba, um submarino Soviético que está nas Caraíbas foi avistado pela marinha americana. O Presidente Kennedy bloqueou Cuba. Não é permitida a passagem de tráfego marítimo.

O submarino está a esconder-se no oceano e os americanos estão a lançar cargas de profundidade à direita e à esquerda do casco. No interior, o submarino balança, abanado por cada uma das explosões. O que os americanos não sabem é que este submarino carrega um torpedo tático a bordo, disponível para ser lançado e que o capitão russo pergunta a si mesmo: devo disparar?

Isto aconteceu mesmo.

O russo em questão, um comandante de submarino, nervoso e exausto, chamado Valentin Savitsky, decidiu disparar. Deu a ordem para se preparar o míssil com ogivas nucleares. O seu segundo em comando aprovou a ordem. Moscovo não comunicava com o submarino há alguns dias. Onze navios da Marinha dos Estados Unidos estavam por perto, e eram possíveis alvos. A ogiva nuclear neste míssil tinha aproximadamente o mesmo poder da bomba de Hiroshima.

“Vamos explodi-los agora!”

As temperaturas ultrapassaram os 37 graus. O sistema de ar condicionado estava avariado e o submarino não poderia ir à superfície sem se expor. O capitão sentia-se condenado. Vadim Orlov, um oficial da inteligência que se encontrava lá lembra-se de uma explosão violenta em particular: “os americanos acertaram-nos com algo mais forte do que granadas – aparentemente com uma bomba de profundidade de treino”, escreveu mais tarde. “Pensámos, é desta, é o fim”. Foi aí, diz ele, que o capitão soviético gritou “talvez a guerra já tenha começado aqui… vamos explodi-los agora! Vamos morrer, mas vamos afundá-los a todos – não vamos ser a vergonha da frota”.

Se Savitsky tivesse lançado o torpedo, se ele tivesse vaporizado um destroyer ou um porta-aviões americano, os Estados Unidos provavelmente responderiam com cargas de profundidade nucleares, “e assim”, escreve a arquivista russa Svetlana Savranskaya, claramente minimizando, “começando uma cadeia de desenvolvimentos inesperados e que poderiam levar a consequências catastróficas”.Mas isso não aconteceu, porque foi aí que Vasili Alexandrovich Arkhipov entrou na história.

Tinha 34 anos na altura. Bem-parecido, com a cabeça coberta de cabelo e algo parecido com um caracol suspenso na testa. Ele estava equiparado a Savitsky, o comandante da frota responsável por três submarinos russos na sua missão secreta em Cuba – e provavelmente um dos heróis mais calados e menos celebrados dos tempos modernos.

O que ele disse a Savitsky nunca saberemos, não com certeza. No entanto, afirma Thomas Blanton, o antigo diretor do Arquivo de Segurança Nacional, uma instituição não-governamental, disse simplesmente que “este tipo chamado Vasili Arkhipov salvou o mundo”.

Arkhipov, descrito como um homem modesto e voz suave pela mulher, simplesmente convenceu Savitsky a não disparar.

Os detalhes exatos são controversos. Como era costume, os capitães dos três submarinos soviéticos no oceano perto de Cuba tinham o poder de lançar um torpedo nuclear se – e apenas se – tivessem o consentimento de todos os três oficiais seniores a bordo. Nesse submarino, Savitsky deu a ordem e teve um voto de apoio, mas Arkhipov hesitou. Ele não concordaria.

Ele defendia que aquele não era um ataque.

A informação oficial dos soviéticos continua a ser secreta, mas um jornalista russo, Alexander Mozgovoi, um escritor americano e o testemunho ocular de Orlov, um oficial da inteligência, sugere que Arkhipov disse ao capitão que o submarino não estava em perigo. Estavam a pedir-lhes para irem à superfície. Arkhipov defendia que o lançamento de cargas de profundidade à esquerda e depois à direita, de forma barulhenta mas fora do alvo, eram sinais. Significavam que eles sabiam que eles estavam ali, que se deviam identificar, ir à superfície e falar, que não tinham qualquer intenção de os magoar.

O Que Está a Acontecer?

A tripulação russa não conseguia saber o que se passa por cima deles: tinham ficado em silêncio muito tempo antes da crise começar. As suas ordens originais eram para ir diretamente para Cuba, mas depois, sem explicação, receberam ordens para parar e esperar nas Caraíbas. Orlov, que viveu na América, ouviu através das estações de rádio americanas que a Rússia tinha levado misseis para a ilha de forma secreta, que os cubanos tinham abatido um avião-espião dos Estados Unidos, que o Presidente Kennedy tinha dado ordens à marinha americana para rodear a ilha e não deixar ninguém passar. Quando os americanos localizaram o submarino, Savitsky tinha dado ordens para irem para profundidade maior no oceano, para se manterem fora de vista – mas isso cortou as ligações à superfície. Eles não conseguiam ouvir (e não podiam confiar) nos media dos Estados Unidos. Tanto quanto sabiam, a guerra já tinha começado.

Não sabemos durante quanto tempo discutiram. Sabemos que as armas nucleares que os russos carregavam (cada submarino tinha apenas um, com uma guarda especial que se mantinha com ele, dia e noite) eram para ser usados apenas se a própria Rússia tivesse sido atacada. Ou se o ataque estivesse iminente. Savitsky sentiu que tinha o direito a disparar primeiro. Os relatos oficias russos insistem que ele precisava de uma ordem direta de Moscovo, mas Olga, a mulher de Archipov, afirma que existiu um confronto.

Ela e Ryurik Ketov, um capitão com um dente de ouro de um submarino russo nas redondezas, ouviram a história diretamente de Vasili. Acreditam os dois nele e afirmam-no neste documentário da PBS. Algumas cenas são dramatizadas, mas oiça o que eles dizem …Enquanto o drama se desenrola, Kennedy estava preocupado que os russos confundissem as cargas de profundidade com ataques. Quando o seu Secretário da Defesa afirmou que os Estados Unidos estavam a lançar sinais do tamanho de granadas sobre os submarinos, o presidente estremeceu. O seu irmão Robert Kennedy disse mais tarde que a conversa sobre cargas de profundidade “foi o período de maior preocupação para o Presidente. A sua mão subiu até à cara [e] cerrou o punho”.

O comando russo, do seu lado, não fazia ideia o quão difícil estava a ser dentro dos submarinos. Anatoly Andreev, um membro da tripulação num submarino diferente nas redondezas, manteve um diário, uma carta contínua para a mulher, que descrevia como estava a ser:

“Durante os últimos quatro dias, eles nem nos deixaram subir até à profundidade para usar o periscópio… a minha cabeça está a rebentar de tanto ar abafado. … Hoje, três marinheiros desmaiaram de novo graças ao sobreaquecimento… A regeneração de ar trabalha de forma pobre, o índice de dióxido de carbono sobe e as reservas de energia elétrica estão a escassear. Aqueles que estão livres dos seus turnos, sentam-se imóveis, a olhar fixamente para um sítio. … A temperatura nas seções está acima dos 50 graus.”

O debate entre o capitão e Arkhipov teve lugar num antigo submarino movido a diesel, desenhado para viagens no Ártico mas ficou preso num clima que estava próximo do insustentável. Mesmo assim, Arkhipov manteve o sangue frio. Depois do seu confronto, o míssil não foi preparado para o lançamento. Em vez disso, os russos subiram à superfície, onde se encontraram com os destroyers americanos. Os americanos não subiram a bordo. Não houve nenhuma inspeção e por isso a marinha dos Estados Unidos não fazia ideia que estavam torpedos nucleares naqueles submarinos – e não saberiam durante 50 anos, quando os antigos beligerantes se encontraram numa reunião de comemoração de 50 anos. Em vez disso, os russos afastaram-se de Cuba e dirigiram-se para norte, de volta à Rússia.

Olhando para trás, tudo vai dar a Arkhipov. Toda a gente concorda que ele é o homem que parou o capitão. Foi ele que se pôs no caminho.

Ele não foi, segundo o que é possível apurar, punido pelos soviéticos. Foi promovido mais tarde. O jornalista Alexander Mozgovoi descreve como a marinha soviética conduziu uma inspeção formal e como o homem responsável, Marshal Grachko, quando foi informado das condições nos submarinos, “tirou os óculos e bateu com eles na mesa com fúria, partindo-os em pequenos pedaços e deixando a sala abruptamente depois disso”.

Como Arkhipov conseguiu manter a calma no meio do calor, como conseguiu persuadir o seu colega louco, não sabemos, mas ajuda saber que Arkhipov já era um herói soviético. Um ano antes tinha estado noutro submarino soviético, o K-19, quando o sistema de refrigeração falhou e o reator nuclear a bordo estava em perigo de fusão. Sem sistema de apoio, o capitão ordenou que a equipa fizesse uma reparação e Arkhipov, entre outros, esteve exposto a elevados níveis de radiação. Vinte e dois membros morreram de doenças relacionadas com radiação ao longo dos dois anos que se seguiram. Arkhipov não morreria até 1998, de cancro renal, resultante segundo se diz, da exposição.

As armas nucleares são naturalmente perigosas. Manobrá-las, usá-las, não usá-las, requer cautela, cuidados. Da forma como vivemos hoje em dia com a Coreia do Norte, com os generais paquistaneses, jihadistas e sabe-se lá quem será o próximo presidente dos Estados Unidos, o mundo tem muita sorte que naquele momento critico, alguém suficientemente calmo, cuidadoso o suficiente e frio o suficiente estava lá para dizer não.

Um obrigado a Alex Wellerstein, autor do espetacular blog Restricted Data, pela ajuda a guiar-me até fontes materiais sobre este assunto.

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