Meio Ambiente

Monges Salvam a Sua Abadia Enquanto Protegem a Terra

Monges católicos da Virgínia fizeram votos de ser sustentáveis revigorando, assim, a sua Ordem. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Debra Bruno

BERRYVILLE, VIRGÍNIA – Uma pequena comunidade de monges que vivem em clausura no vale de Shenandoah tinha dois grandes problemas: um teológico e um ecológico.

O primeiro problema estava relacionado com o facto de a Ordem de monges trapistas ter ficado reduzida a apenas dez membros. Chegaram, em tempos, a ser 68, mas alguns morreram e muito poucos membros se juntaram à ordem. Tem sido cada vez mais difícil convencer homens a dedicarem-se a uma vida de celibato, pobreza, obediência e – mais especificamente no caso da Ordem dos Cistercienses Reformados da Estrita Observância – também ao silêncio.

'A confiança foi fundamental', quem o diz é Andrew Hoffman, professor de desenvolvimento sustentável na Universidade e diretor do projeto. 'Permitir a entrada a desconhecidos foi um grande passo, e as nossas ideias tinham de ter em conta a realidade destas pessoas em específico.'

O seu caminho em direção à sustentabilidade é contado, de forma comovente, num documentário de uma hora intitulado 'Saving Place, Saving Grace', que passou nos canais PBS, nos Estados Unidos. A realizadora, Deidra Dain, diz que, quando ela e o produtor George Patterson começaram a filmar em 2009, a Cruz Sagrada tinha 21 membros. 'Eles estão a tentar salvar a sua comunidade e a terra onde vivem. É uma interseção entre ecologia e teologia', afirma.

De Portas Abertas

A  comunidade de monges em clausura, que estão quase sempre em silêncio e raramente se aventuram para fora dos portões do convento, confrontava-se com um dilema: manter-se totalmente separada do mundo exterior e arriscar a desaparição ou abrir as portas ao mundo e procurar ajuda do lado de fora para continuar a sua missão.

'Depois dos anos 60 e 70, tentámos ter um conceito de claustro mais equilibrado e ter mais privacidade no convento, para preservar um ambiente de sossego e devoção. Mas isso não significa que queiramos cortar o contacto com as pessoas. Manter o convento equilibrado não significa manter a porta fechada', explica o padre James.

Os estudantes dizem que ficaram surpreendidos com a hospitalidade dos monges, que lhes deixavam presentes da padaria e lhes explicavam que a hospitalidade sempre fez parte da missão da Ordem dos Cisterciences, desde o início do grupo.

A antiga estudante Kathryn Buckner recorda um dos monges que trabalhou de perto com os estudantes: o padre Robert Barnes, que morreu de cancro pouco depois de o filme estar pronto. Diz ela: “Para alguém que vivia no convento desde os 19 anos, ele era engraçado e espirituoso e afetuoso e modesto. Quem diria que os monges podiam ser pessoas tão maravilhosas?”

Desde a conclusão do estudo da Universidade do Michigan, os monges empreenderam algumas mudanças. A mais conhecida e rentável foi a conversão de cerca de 32 hectares num cemitério natural. Os que forem enterrados neste cemitério – que não têm de ser exclusivamente católicos – podem escolher ser enterrados com uma simples mortalha, como são enterrados os monges, ou num caixão biodegradável. Podem também escolher ser cremados e existe uma secção separada do cemitério onde se pode espalhar as cinzas.

Os enterros naturais ali têm preços que variam entre os 4 mil e 8 mil dólares americanos (o equivalente a entre 3700 e 7400 euros, aproximadamente), dependendo do sítio escolhido, e o preço das cremações varia entre os e mil e 4 mil dólares americanos (entre os 1800 e 3700 euros, aproximadamente). Desde a sua abertura em 2012, já aconteceram 97 enterros e já 12 pessoas tiveram as suas cinzas espalhadas no cemitério.

Há também uma nova capela não-confessional ao ar livre, adjacente ao cemitério, com um cata-vento em forma de garça-azul, em homenagem aos 27 ninhos de garça-azul que podem ser encontrados na propriedade.

Pela Preservação do Ambiente

Mas essa não é a única mudança. O convento encontra-se hoje protegido por leis de conservação que impedem os promotores invasivos de se aproveitarem dos recursos deste pedaço de terra, que fica a apenas a uma hora de carro da cidade de Washington.

Nos últimos cinco anos, a Cruz Sagrada acrescentou ao seu programa regular de retiros de silêncio “'ins de semana monásticos', para que homens e mulheres possam experienciar intensamente a vida do convento. Estes fins de semana esgotam sempre, diz Kurt Aschermann, um devoto da Nossa Senhora da Cruz Sagrada, padroeira do convento. Os participantes nos retiros de silêncio regulares estão a deixar donativos maiores do que nos anos passados, como nos relata o padre James, o que quer dizer que até os retiros se tornaram mais lucrativos.

Um novo inquilino agricultor, a Great Country Farms, introduziu a agricultura biológica em cerca de 80 hectares. Não recorre ao uso de pesticidas, recusa arar o solo e utiliza os excedentes orgânicos das colheitas anteriores, como por exemplo os pés do milho, para adubar o solo. Também trouxeram abelhas para ajudar a polinizar as colheitas.

Os riachos, onde outrora os rebanhos bovinos andavam livremente, foram protegidos com vedações, bem como o leito do rio Shenandoah. A área de pastoreio do gado é mais restrita agora. Foram plantadas árvores de madeira densa que cobrem as outrora planícies relvadas.

'Ao fim de seis meses, já conseguíamos ver a diferença', declara o padre James. “Parece que a terra se está a curar”.

A capela principal do convento, cuja abertura está prevista para as próximas semanas, foi renovada para se tornar mais eficiente do ponto de vista energético. E, no seu negócio de produção de bolos de fruta, os monges usam agora um forno de convecção a gás, em vez do antigo forno cheio de fugas onde se cozia pão para o convento.

O próximo passo é conseguir erradicar as plantas invasivas do terreno, como a Alianto (também denominada de árvore-do-céu ou espanta-lobos), uma espécie nativa da China.

Todas estas mudanças foram pensadas especificamente para esta Ordem, fundada em 1098, que tem na gestão da terra um dos seus votos mais sagrados. Nos primeiros votos, como nos conta o padre James, os Cistercienses eram referidos como pessoas 'que amam o seu irmão e a sua terra'.

Os Cistercienses (ou Trapistas) são mais conhecidos como sendo a ordem de Thomas Merton, o autor do livro A Montanha dos Sete Patamares, que se juntou à Ordem em 1941.

Os monges vivem neste lugar há 60 anos. Mudaram-se para o estado da Virgínia depois de a sua última casa em Rhode Island ter ardido em 1950. No século XVIII, o jovem George Washington inspecionou o sítio, e o convento original foi construído nas ruínas da casa de uma antiga quinta que tinha sido construída por volta de 1784. Foi aqui que teve lugar a Batalha de Cool Spring, da Guerra Civil Americana, que custou a vida a 1000 homens em 1864.

De certa maneira, o chão parece tão pastoral como pareceria naqueles primeiros anos. Não se ouve nada a não ser o som dos pássaros. Aqui, os dias são pautados pelas quatro missas diárias, com a primeira a começar às 3 h 30 min da manhã.

Uma vez que o monge mais novo tem 59 anos (fará 60 no dia 1 de maio) e o mais velho tem 90 anos, os monges aperceberam-se de que, a menos que encontrem novos membros, o tempo se está a esgotar. 'No documentário, a conversa sobre gostarem de atrair novos membros mais jovens não surge como um subtexto subtil', declara Hoffman.

Entretanto, a Cruz Sagrada continua com aquilo que é feito há já muitos anos: fazer pão, tratar da terra, receber visitantes, e – talvez a parte mais importante para os monges – rezar.

Kathryn Buckner diz: 'O seu propósito no universo é rezar pela humanidade, rezar pela paz e pela presença de Deus e pelo seu bom trabalho no mundo. Enviam energia positiva para o universo, por todos nós'.

Debra Bruno escreveu para o Washington Post, para o Wall Street Journal, Washington Magazine e muitas outras publicações.

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