Meio Ambiente

Há Mais Água do Degelo a Cobrir a Antártida do que se Pensava

Apesar de os efeitos do aumento do nível da água do mar não serem claros, uma recente investigação deverá permitir que os cientistas aprofundem quais as repercussões para o continente. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Michael Greshko

Uma surpreendente rede de canais de água rasga as plataformas glaciares da Antártida, criando extensões de gelo flutuante que se afastam da linha costeira do continente.

Este fluxo da água de degelo sazonal faz parte do ciclo natural da água da Antártida e sabe-se há décadas que cruza a linha costeira do continente. Atualmente, os cientistas catalogam estes fluxos de forma sistemática, o que tem vindo a revelar que a sua extensão é maior do que se pensava.

Em alguns casos, estes fluxos atingem escalas difíceis de assimilar. Por exemplo, a plataforma de gelo Amery, na Antártida oriental, tem cursos que transportam água de degelo que somam até 120 quilómetros, abastecendo lagoas, no topo das plataformas glaciares, que podem ter mais do que 80 quilómetros de comprimento. A maior lagoa pode, diariamente, aumentar a sua área mais do que o equivalente a, aproximadamente, 400 campos de futebol, graças a este fluxo de drenagem.

As descobertas, publicadas quarta-feira na revista Nature, acrescentam informação importante sobre a água de degelo da Antártida. Até à data, aceitava-se que esta água se agrupava somente nos locais onde derretia. Todavia, é ainda precoce afirmar se estes sistemas de degelo, que totalizam quase 700, ajudam ou prejudicam o equilíbrio das plataformas glaciares. Uma questão de extrema importância, considerando o potencial contributo que estas plataformas dão para o aumento do nível da água do mar.

A desagregação de uma plataforma de gelo não afeta, diretamente, o nível da água do mar. Por definição, uma plataforma de gelo já flutua na água. Porém, o climatologista Rob DeConto, da Universidade de Massachusetts-Amherst, ressalva que algumas destas plataformas atuam como contrafortes, impedindo o movimento daquelas que se encontram em terra, portanto a montante. Caso estas plataformas glaciares derretessem, acelerar-se-ia o fluxo de gelo de terra para o mar, contribuindo para o aumento do nível da água do mar.

“É como se o porteiro de um bar ou concerto permitisse a entrada de todos”, acrescenta a coautora do estudo, Robin Bell, glaciologista no Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia. “Eles são uma espécie de porteiros: eliminar estas plataformas permitir que mais gelo entrasse no oceano”.

A água de degelo pode representar uma ameaça à estabilidade das plataformas glaciares, pois sobrecarregam-nas com o seu peso e potenciam o seu fendilhamento interno. Por exemplo, nos dias anteriores ao súbito colapso, que ocorreu em 2002, e que originou a plataforma de gelo Larsen B, lagoas repletas de água de degelo cobriram a sua superfície. Como consequência, outra plataforma, Larsen C, poder-se-ia ter formado no período de semanas ou meses. 

Num dos seus dois últimos estudos publicados, Bell e o seu coautor, Jonathan Kingslake, advertem que a drenagem em larga escala pode intensificar a ameaça que a água de degelo representa, pois a água no estado líquido circula com mais eficácia e a sua quantidade aumentará caso as alterações climáticas se mantenham a um ritmo acelerado.

“Isto é bastante importante porque a quantidade de água de degelo que se forma algures não está diretamente relacionada com a quantidade de água derretida; também se resume ao facto de a água circular por longas distâncias”, afirma Kingslake, também glaciologista no Observatório Terrestre Lamont-Doherty.

Por outro lado, o segundo estudo elaborado por Bell e Kingslake sugere que as redes destes cursos de água poderiam assegurar, pelo menos, a estabilidade de uma plataforma de gelo, drenando, com eficiência, a água de degelo da sua superfície.

Elaborado por Bell, o detalhado estudo sobre a plataforma de gelo Nansen, uma extensão de gelo com uma área aproximada de 1800 km2 que se projeta adentro do mar Ross, na Antártida, demonstra que esta tem drenado a sua água de degelo para o oceano durante, pelo menos, o último século. Por fim, a rede de canais funde-se, drenando a água de degelo para o oceano por uma cascata cuja lâmina tem uma largura aproximada de 130 metros e que se situa no topo da plataforma de gelo.

Na extremidade mais baixa, Bell afirma que este rio de gelo pode mover tanta água quanto o rio norte-americano Potomac.

TERRITÓRIO (AINDA) INCÓGNITO

Bell acrescenta que esta investigação sobre o continente só foi possível graças a dados recolhidos durante décadas, desde imagens de satélite a fotografias captadas por aeronaves militares. Para a análise que efetuou à plataforma de gelo Nansen, Bell confiou também em revistas centenárias do Northern Party e na fatídica expedição orientada por Sir Robert Scott que o conduziu numa expedição até à Terra Nova e que não chegou a aventurar-se para o Polo Sul.

“Eles previram imensos cenários idílicos, mas acabaram aprisionados e permaneceram confinados a uma cave durante todo o inverno – é tudo o que as pessoas se lembram”, afirma Bell. “Poder fazer uso da ciência desta equipa e valorizá-la pelo seu feito faz-me muito feliz.”

Porém, Bell e Kingslake, juntamente com outros especialistas, realçam que há ainda muito por descobrir sobre a Antártida, um lugar proibitivo para cientistas, assim como para os seus instrumentos de trabalho.

“Estamos perante uma situação em que uma plataforma de gelo pode aumentar o nível da água do mar em, aproximadamente, 55 metros, e desconhecemos a topografia do fundo do mar, assim como com que espessura de gelo estamos a lidar”, afirma Helen Fricker, glaciologista da Instituição Oceanográfica Scripps, que investigou os fluxos de água de degelo da plataforma de gelo Amery. “Chegar ao destino e mapear todo o território é uma tarefa colossal.”

“Estamos a tentar compreender este enorme continente, mas só conseguimos reunir um punhado de ferramentas… e estamos a fazer o melhor que podemos”, acrescenta. “Estamos a tentar escavar um túnel com uma colher de café.”

Michael Greshko escreve notícias on-line sobre os mais variados temas relacionados com a ciência, do comportamento animal, ao espaço e ao meio ambiente.

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