Meio Ambiente

Em 2100, o Calor Pode Ameaçar a Maioria da Humanidade

Um novo estudo adverte que 75% das pessoas podem enfrentar ondas de calor mortais até 2100, a menos que as emissões de carbono caiam a pique.Thursday, November 9, 2017

Por Stephen Leahy
Nesta fotografia, de 4 de junho de 2017, paquistaneses banham-se num canal para vencer o calor e obter algum alívio da temperatura extremamente quente, durante o oitavo dia do Ramadão. Temperaturas máximas de 47 graus Celsius foram registadas em Lahore, no Paquistão.

Um novo estudo concluiu que 30% da população mundial está atualmente exposta a um calor potencialmente mortal durante 20 ou mais dias por ano. À semelhança de incêndio florestal incontrolável, as alterações climáticas agravam este calor extremo.

Sem reduções significativas na emissão de gases causadores do efeito de estufa, como o CO2, até três em cada quatro pessoas enfrentarão a ameaça de morrer do calor até 2100. No entanto, mesmo com reduções, uma em cada duas pessoas, no final do século, provavelmente enfrentará pelo menos 20 dias em que o calor extremo pode matar, de acordo com o estudo publicado na segunda-feira na Nature Climate Change.

“As ondas de calor letais são muito comuns. Não sei por que é que nós, como sociedade, não estamos mais preocupados com os perigos", diz Camilo Mora, da Universidade do Havai, em Manoa, autor principal do estudo. "A onda de calor europeia de 2003 matou cerca de 70 000 pessoas, mais de 20 vezes o número de mortes nos ataques de 11 de setembro ".

As ondas de calor perigosas são muito mais frequentes do que alguém já imaginou, matando pessoas, todos os anos, em mais de 60 regiões diferentes do Planeta. As ondas de calor mais notáveis incluem a de Moscovo, em 2010, que matou pelo menos 10 mil pessoas e a onda de calor de Chicago, em 1995, quando 700 pessoas morreram por causas relacionadas com o calor.

As ondas de calor também reivindicaram vítimas mais recentemente. Nas duas últimas semanas, dezenas morreram na Índia e no Paquistão, durante a atual onda de calor, com temperaturas elevadas que atingiram os 53,5 graus Celsius. E já houve mortes relacionadas com o calor, nos EUA e neste verão. (Saiba mais sobre O Projeto Massivo de Energias Renováveis, Iluminação e Veículos que a Índia já Lançou).

CONTINUA A HAVER VÍTIMAS

Mora e um grupo internacional de investigadores e estudantes examinaram mais de 30 000 publicações relevantes, à procura de dados sobre 1949 estudos de cidades ou regiões onde a causa de alguns óbitos foi associada às altas temperaturas. As ondas de calor letal foram documentadas em Nova Iorque, Washington, D.C., Los Angeles, Chicago, Toronto, Londres, Pequim, Tóquio, Sidnei e São Paulo.

Aqueles que enfrentam o maior risco vivem nas zonas húmidas intertropicais, onde apenas ligeiros aumentos na temperatura média, ou na humidade, podem resultar em mortes. No entanto, o calor pode ser mortal mesmo a temperaturas moderadas de menos de 30 graus Celsius, se forem combinadas com uma humidade muito alta, diz Mora.

O calor mata dez vezes mais pessoas nos Estados Unidos do que os tornados ou outros fenómenos climáticos extremos, diz  Richard Keller, um professor de história médica na Universidade de Wisconsin-Madison.

O calor extremo apanha-nos desprevenidos, porque esperamos que ele apareça no verão, diz Keller, que escreveu um livro sobre a onda de calor europeia de 2003. (Saiba As Pequenas Ações que Todos Podemos Fazer para Ajudar a Reverter as Alterações Climáticas).

A temperatura interna do corpo humano deve estar entre 36 e 37 graus Celsius; acima disso, temos febre. À medida que a temperatura aumenta, o corpo reage suando para arrefecer.

Se a nossa temperatura interna chegar perto de 40 graus Celsius, toda a estrutura do funcionamento celular começa a falhar. As temperaturas corporais acima de 40 graus são extremamente perigosas e requerem atenção médica imediata.

Se o índice de calor — uma medida que combina temperatura e humidade, atinge os 40 graus Celsius — os nossos corpos começam a aquecer lentamente até à temperatura ambiente, a menos que tomemos medidas para arrefecê-los.

Nesta fotografia de 9 de agosto de 2010, as pessoas estão na Praça Manezhaya, ao lado do Kremlin, em Moscovo, na Rússia. Em 2010, a capital russa foi envolvida por uma poluição venenosa pela ação simultânea de incêndios florestais e uma onda de calor sufocante que matou cerca de 55 000 pessoas em toda a Rússia ocidental.

Os jovens e os idosos, que, proporcionalmente, carecem de recursos e estão socialmente mais isolados, são os mais vulneráveis. A esmagadora maioria das 15 000 mortes relacionadas com o calor em França, durante a onda de calor europeia de 2003, tinha 75 ou mais anos, e muitas daquelas pessoas quais viviam sozinhas, disse Keller.

"O aumento das desigualdades leva ao aumento das mortes por vagas de calor", diz Keller.

O AQUECIMENTO NO HEMISFÉRIO SUL

O calor não costumava ser um problema grave na Índia, no Paquistão e em outras partes do sul do globo. Mas os extremos de calor são, agora, mais comuns e mais intensos por causa das alterações climáticas, diz Keller.

Milhares de pessoas morreram na Índia por causa das ondas de calor dos últimos anos. Um outro novo estudo, publicado na Science Advances, revelou que o número de ondas de calor na Índia, que causaram a morte a mais de 100 pessoas, aumentou duas vezes e meia entre 1960 e 2009. Este aumento deve-se, provavelmente, às alterações climáticas, de acordo com o co-autor do estudo e professor de Irvine, Steven Davis, da Universidade da Califórnia.

No entanto, a temperatura média da Índia só aumentou 0,5 graus Celsius nos últimos 50 anos, um ligeiro aumento em comparação com o que sucede noutras partes do mundo.

O valor da temperatura à superfície mostra que a Terra aqueceu um grau Celsius desde os tempos anteriores à revolução industrial. Mas este calor adicional não está uniformemente distribuído. O Ártico aumentou a temperatura média em 2,5 graus Celsius e, em novembro de 2016, as temperaturas atingiram 20 graus acima do normal, na maior parte do Oceano Ártico, uma área maior que a parte continental dos EUA.   

Os pequenos aumentos nas temperaturas médias podem ter um grande impacto nos países tropicais, especialmente entre a camada mais desfavorecida, que é extremamente vulnerável, observa Davis.

Um grupo de mulheres tenta proteger-se contra os ventos fortes que precedem as monções em Rajasthan, na Índia, nesta fotografia da National Geographic de 1984.

"Em Chicago, as pessoas podem escapar ao calor. Mas o mesmo não acontece com muitas pessoas pobres na Índia", diz.

O valor das temperaturas revela que os verões, em 92% das cidades dos EUA, se tornaram mais quentes desde 1970. As cidades do Texas e da Intermountain West são as mais afetadas, de acordo com os dados recolhidos pela  ClimateCentral. Revela que os verões em Milwaukee são, atualmente e em média, 1,34 graus Celsius mais quentes, 1,6 graus Celsius mais quentes em Dallas e 2,1 graus Celsius mais quentes em Salt Lake City.

"É este o efeito das alterações climáticas em terra ", diz Davis. Não surpreende que haja 60 ondas de calor assassinas por ano, acrescentou. As temperaturas mais quentes estão a levar as pessoas a deixarem as suas casas e a migrarem.

"A nossa atitude em relação ao meio ambiente tem sido tão imprudente que estamos a ficar sem boas alternativas para o futuro", diz Mora, da Universidade do Havai.

"Para as ondas de calor, as nossas opções estão agora entre o mau e o terrível", acrescenta. "Muitas pessoas em todo o mundo estão já a pagar o preço mais alto pelas ondas de calor".

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