Meio Ambiente

Índia Lança Projeto Massivo de Energias Renováveis, Iluminação e Veículos

Enquanto o presidente Trump pretende fazer renascer o setor do carvão nos EUA, a Índia está a acolher as energias renováveis, a iluminação LED, os veículos elétricos e muito mais.Thursday, November 9, 2017

Por Stephen Leahy
Luzes LED alimentadas por energia solar iluminam uma entrada na Universidade TERI, em Nova Deli, na Índia. O país planeia mudar totalmente para esta tecnologia ao longo dos próximos anos.

A Índia encontra-se atualmente a realizar o “maior projeto de transformação de energia do mundo", afirmaram os organizadores do Fórum de Viena sobre a Energia, durante a apresentação do principal orador, Piyush Goyal, ministro da Energia da Índia, a 11 de maio. 

“Tudo mudou em 2015 com o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. Temos de dissociar o crescimento económico dos impactos ambientais e deixar um mundo melhor para os que vêm depois de nós", afirmou Goyal, sendo muito aplaudido pelos 1650 peritos em energia e funcionários governamentais em Viena. "Todos os momentos contam." 

"Nunca ouvi comentários tão visionários e progressistas da parte de um país que é líder mundial", confessou-me posteriormente o primeiro-ministro de Tuvalu, Enele Sopoaga. O pequeno país, uma ilha no Pacífico, está a uns escassos três metros acima do nível do mar e a subida dos níveis de água provocada pelas alterações climáticas já obrigou milhares de pessoas a abandonarem o país.

"A Índia reconhece que a ação contra as alterações climáticas é urgente", afirmou Sopoaga.

A Índia tem muita urgência em tornar o seu sistema energético mais ecológico para criar postos de trabalho, melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos, limpar o ar e a água e, claro para combater as alterações climáticas, afirmam os seus líderes. Há que ter em consideração que, neste país com 1,3 mil milhões de habitantes, aproximadamente 300 milhões não têm acesso à eletricidade e o rendimento médio não chega a 1500 euros por ano.

Utilizando atualmente o carvão como fonte de energia principal, a Índia aumentará a quantidade de energia solar e eólica para um valor 50% superior ao instalado até ao momento nos EUA. O país está a substituir 770 milhões de pontos de iluminação pública e doméstica  por iluminação LED, porque poupa energia e tem um tempo de vida mais longo, e está a permitir que  dezenas de milhares de vilas rurais pobres tenham acesso à energia elétrica, pela primeira vez. E o país já está a fazê-lo mais rapidamente do que alguma vez alguém pensou que seria possível.

"A Índia é um exemplo no que se refere à energia limpa... Demonstrou que não se trata de um fardo, muito pelo contrário.", afirmou Vivien Foster, economista na área da energia no Banco Mundial. "É uma excelente oportunidade."

UMA REVOLUÇÃO ILUMINADA

Prevê-se que a substituição por luzes LED em todo o país esteja concluída em 2019, apenas quatro anos após a divulgação do programa, em 2015, pouco tempo depois da eleição do primeiro-ministro, Narendra Modi. Anteriormente, a Índia tinha assumido o compromisso de utilizar o carvão para desenvolver a sua economia, tal como a China o fez 25 anos antes. Mas, agora, Modi está a tentar que o futuro da Índia tenha em conta as tecnologias do século XXI.

A poupança energética que resultará da substituição de 770 milhões de luzes públicas e domésticas fará com que a procura máxima de eletricidade da Índia diminua em 20 000 megawatts (MW). Além disso, esta poupança representará uma redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) responsáveis pelo aquecimento do clima de cerca de 80 milhões de toneladas por ano. Esta é, aproximadamente, a quantidade de emissões de CO2 do Chile em 2015. Tal reduz drasticamente a necessidade de construir mais centrais elétricas e permitirá poupar cerca de 6,3 mil milhões de euros por ano.

E tudo isto foi conseguido sem financiamento do governo.

A Índia é líder num tipo de negócio denominado Energy Service Company (ESCO) (empresa de serviços energéticos), que apenas obtém receitas a partir dos custos de energia que consegue poupar aos seus clientes. As empresas de serviços energéticos do Estado criaram uma empresa ESCO denominada Energy Efficiency Services Limited, que, desde a sua criação, tem obtido apenas lucros. Esta empresa tem trabalhado com fabricantes de LED para reduzir os custos destas luzes em 85%, em menos de três anos. Agora, a Índia consegue o preço mais baixo do mundo, afirmou Goyal numa entrevista.

A Energy Efficiency Services Limited (EESL) tem tido tanto êxito que acabou de anunciar um investimento de cerca de 135 milhões de euros em três anos no Reino Unido, para entrar no mercado da eficiência energética local com um valor estimado entre sete e nove mil milhões de euros. O objetivo da EESL é conquistar muito deste mercado através da promoção e implementação de soluções de energia com emissões de carbono baixas, energeticamente eficientes e de fontes renováveis, em conjunto com a tecnologia LED.

Não existe nada que se assemelhe a um programa nacional de conversão para a tecnologia  LED nos EUA. No entanto, muitas cidades norte-americanas estão a converter as iluminações públicas para LED para poupar milhões em energia — mas este tem sido um processo lento. O Smart Lighting Project (projeto de iluminação inteligente) de Chicago, para substituir 270 mil dispositivos elétricos, iniciou-se em abril e só irá terminar em 2021. Em Washington, D.C., 71 mil pontos de iluminação pública poderão ser substituídos ao abrigo do “Streetlight Modernization Project (projeto de modernização de iluminação pública)”, mas tal só irá começar em 2018.

Um painel fotovoltaico de 430 euros é instalado numa pequena mercearia rural, na aldeia de Sullya Taluk, Índia. O proprietário espera recuperar os custos ao poupar no consumo de querosene.

ENERGIA SOLAR EMERGENTE

O setor das energias renováveis na Índia também está a crescer a uma velocidade estonteante. Na conferência de Paris sobre as alterações climáticas, em 2015, Modi surpreendeu muitos ao anunciar que a Índia iria acrescentar 160 gigawatts (GW) de energia eólica e solar até 2022 aos 26 GW existentes. Os EUA têm, atualmente, pouco mais de 100 GW no total. Um GW pode alimentar 100 milhões de lâmpadas LED destinadas a utilização doméstica.

“Este é um objetivo ambicioso”, afirma o especialista em energia Niklas Höhne, fundador do NewClimate Institute, um centro de investigação europeu. "Existe um ímpeto significativo e agora dois estados indianos estão a considerar obter 100% de energia a partir de fontes renováveis, o que é notável."

"A energia limpa já não é dispendiosa nem difícil de construir e adapta-se muito bem às nossas necessidades", afirmou Goyal. Segundo Goyal, devido a todas as vantagens, todos os países deveriam estar a seguir o mesmo rumo.

O boom da energia solar e eólica da Índia representou uma diminuição dos custos, que caíram de 12 cêntimos por kW/h para apenas 4 cêntimos por kW/h, no que respeita à energia solar. É mais barato do que o carvão. Como consequência, Goyal espera que não venha a ser necessária nenhuma nova energia obtida a partir do carvão após 2022. Uma análise sugere que alguma da energia existente proveniente na Índia é mais dispendiosa de produzir do que construir uma nova fonte de energia solar. A Índia poderá, em breve, terminar com todas as importações de carvão térmico, acredita Goyal. 

Estes ganhos são bastante impressionantes tendo em conta os grandes desafios económicos e sociais existentes na Índia, afirma Höhne.

Quanto aos 300 milhões sem acesso à eletricidade, também essa realidade está a mudar. A última habitação será ligado à rede até 2019, acredita Goyal, três anos antes do objetivo de 2022 traçado pelo país.

"O primeiro-ministro Modi cresceu pobre. Ele sabe como é não ter eletricidade. Está completamente empenhado em tornar isto numa realidade", afirmou Goyal.

A revolução energética na Índia poderá, em breve, transformar o país, mas também está a "(criar soluções que outros países no mundo inteiro podem imitar e utilizar para apoiar o respetivo plano de transição para a energia sustentável", afirmou Rachel Kyte, CEO da Sustainable Energy for All e representante especial para o Secretário-Geral das Nações Unidas. 

VEÍCULOS ELÉTRICOS

Os automóveis elétricos são o próximo grande salto que a Índia pretende dar. O país encomendou um estudo para analisar de que forma seria possível transformar toda a frota automóvel da Índia, para que, até 2030, os veículos funcionassem exclusivamente a energia elétrica. Este ainda não é um objetivo oficial do governo.

Mas, até essa data, Goyal acredita que os automóveis elétricos serão os únicos veículos vendidos devido aos seus baixos custos operacionais, pouca manutenção ou reparações necessárias, além de uma tempo de vida útil longo. As baterias também funcionarão muito bem com dispositivos de armazenamento de energia solar e eólica. Não serão necessários subsídios, afirmou, uma vez que a Índia já taxa a gasolina a um valor equivalente à média mundial — 50% acima do valor aplicado pelos EUA. 

"Vamos fazer tudo isto mesmo que mais ninguém o faça. Temos um importante papel a desempenhar na luta contra as alterações climáticas", afirmou Goyal.

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