As Surpreendentes Soluções que a China Encontrou para Limpar o Ar Mortífero

Mais de um milhão de pessoas morre por ano devido à poluição do ar, na China, mas agora o país está a encontrar soluções inovadoras. quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TANGSHAN, CHINA 

Em 1976, esta cidade situada na margem do Mar Amarelo, a este de Pequim em cerca de 161 quilómetros, na província de Hebei, foi arrasada por um tremor de terra que vitimou, pelo menos, 24 mil pessoas – mais ou menos um quarto da população. Depois disto, a cidade foi reconstruída, e essa reconstrução contribuiu para a edificação da China moderna.

Hoje, Tangshan é um dos centros da indústria pesada e de combustão de carvão, uma cidade que produz cimento, químicos e mais de cinco por cento do aço produzido no mundo, e é uma cidade em que camiões de caixa aberta carregados de grandes rolos de aço se encontram parados na beira das estradas. Dos destroços de 1976, ergueram-se aglomerados de altos edifícios de apartamentos, feitos em cimento, que albergam os trabalhadores que mantêm em funcionamento as siderurgias e as fabricas por baixo da altas chaminés fumegantes.

Por cima de tudo isto, vive uma espessa névoa cinzenta.

Estima-se que, atualmente, na China, a poluição atmosférica mate 1,1 milhão de pessoas por ano. Tangshan está entre as seis cidades mais poluídas do país – e as primeiras cinco são também de Hebei. O fumo do carvão que vem das fábricas e das centrais da região dirige-se para Pequim, e contribui para os infames “arpocalipses” da capital (aconteceu um esta semana).

Há três anos, no Congresso Anual do Partido Comunista, o primeiro ministro Li Keqiang declarou guerra à poluição atmosférica na China. No congresso do partido que decorreu em março passado, o primeiro ministro renovou os votos de “tornar de novo os nossos céus azuis”. As principais armas de Li são: reduzir a produção de aço e a produção de eletricidade a partir do carvão. Para substituir o carvão, a China está a fazer o maior investimento de sempre em energia eólica e solar.

Os benefícios, caso isto seja um sucesso, serão sentidos não só em Tangshan, mas em todo o planeta: a China é o maior emissor de gases que provocam o aquecimento global e o efeito estufa. Mas, em Tangshan, as pessoas estão também a sofrer o custo da luta pelo ar mais limpo.

Numa pequena loja de conveniência fora dos portões da fábrica de aço e ferro de Guofeng, Wang Jing Bo empoleira-se num banco de plástico cor-de-rosa. A sua esposa, Li Yong Min, gere a loja. Wang trabalha na siderurgia, a purificar aço derretido e a moldá-lo em lingotes. É um trabalho perigoso, e as temperaturas podem subir acima dos 37˚ Celsius. Mas ganha-se bom dinheiro e recebe-se prémios com regularidade.

Nos últimos anos, com as fábricas em Tangshan a serem encerradas ou relocalizadas, a reduzirem a produção ou a serem obrigadas a instalar purificadores de ar caríssimos, Wang foi vendo os seus colegas serem despedidos. Mas ele acredita que a siderurgia onde trabalha sobreviverá aos cortes na produção de aço. A produção dessa fábrica “será cada vez mais forte, em vez de ser cada vez maior”, como Wang prevê com confiança. Poderia até estar a falar das aspirações que o país tem para si mesmo.

TEMPO DE BALANCO

A guerra da China contra a poluição atmosférica faz parte de um extenso balanço sobre a catástrofe ambiental e de saúde pública trazida pela rápida industrialização das últimas décadas. A ascensão económica tirou da pobreza milhões de pessoas – e em Tangshan, da ruína total. Mas também deixou muitas delas sem acesso a água potável, com comida contaminada e com ar tóxico.

Tonny Xie, diretor do departamento de secretariado da Clean Air Alliance of China, diz estar “muito seguro” de que, hoje em dia, as autoridades oficiais “têm sérias intenções” de melhorar a qualidade do ar. A Aliança é um grupo de think tanks e especialistas universitários que presta consultoria ao governo no que diz respeito à poluição.

Os esforços do governo espalham-se por várias frentes. As cidades chinesas estão a pressionar os seus residentes para renunciar às salamandras a carvão e aos fogões que têm em suas casas. Os responsáveis requisitaram gasolina e gasóleo com maior qualidade para abastecer os veículos. Os níveis de emissões de gases poluentes dos automóveis, a entrar em vigor em 2020, serão comparáveis aos europeus e aos americanos.

Mas o foco mantém-se na indústria pesada. Em março, o governo nacional anunciou o fecho ou o cancelamento de 103 centrais elétricas a carvão, capazes de gerar um total de mais de 50 gigawatts de potência. Anunciou também um corte na produção de aço em cerca de 50 milhões de toneladas.

A indignação popular relativamente ao ar poluído forçou a atuação do governo. Os níveis de poluição atmosférica causada por partículas finas na região de Pequim desceram mais de 25 por cento em 2014 e 2015, fruto dos cortes iniciais, mas, no final de 2016, e no princípio de 2017 voltaram a subir muito. Uma análise da Greenpeace revela-nos porquê: a produção de aço aumentou em 2016, apesar de reduções anteriores de produção, e isto acontece porque o governo central estimulou a procura e os responsáveis locais protegem as suas unidades de produção. (Leia mais acerca deste problema)

O protesto público em relação à poluição garante ao governo central um escudo político para tomar decisões políticas dolorosas, que têm de ser tomadas por razões que nada têm que ver com o ambiente. O excesso de produção nos setores do aço, do cimento, do vidro e da energia, alimentada por altos níveis de dívida, é amplamente reconhecido como uma bomba relógio económica que os líderes do país têm de desativar.

Mas a indústria pesada “é um setor muito difícil de alterar”, porque cria empregos e porque é dominado por poderosas companhias estatais, diz Ma Tianjie, a editora executiva em Pequim, do site independente sediado em Londres, Chinadialogue, um website que se debruça sobre as questões ambientais. “Ter o protesto da classe média urbana sobre a qualidade do ar dá aos líderes muita legitimidade para fazer passar reformas que há muito queriam alcançar.”

VIGIA DOS CIDADÃOS

O que talvez seja mais notável, por parte do governo chinês, nesta guerra contra a poluição é o grau a que o governo baixou a guarda e o nível de transparência sem precedentes que abraçou. A poluição é um problema na China acerca do qual existe um forte debate público.

Com uma rapidez fantástica (e típica dos chineses), o governo construiu uma rede nacional de monitores que rastreiam os níveis de PM2.5 – as pequenas partículas de combustão que penetram profundamente no corpo, causando, não só problemas respiratórios, mas também ataques de coração, derrames e diversos males neurológicos.

Mais surpreendente ainda, o governo tornou pública a informação recolhida por esses monitores. E fez o mesmo com medições tiradas perto das fábricas. Na China, qualquer pessoa com um smartphone pode consultar, em tempo real, a qualidade do ar, ver se quaisquer instalações de determinada fábrica em específico, estão a violar os limites de emissões de poluentes e denunciar prevaricadores às autoridades competentes via redes sociais. O nível de informação é mais alto comparativamente à que é disponibilizada nos Estados Unidos.

É a marca de uma verdadeira mudança da relação entre o povo e o governo da China, diz Ma Jun, cujo Institute of Public and Environmental Affairs foi responsável por desenhar uma aplicação de smartphone com a informação governamental.

“Existe uma hipótese de tentar fazer as coisas de outra maneira, quase como uma forma diferente de governação”, declara. “É uma oportunidade muito rara.”

É claro que o governo ainda é autoritário. Os líderes de Pequim julgam o desempenho dos que estão nas províncias – mas a reescrita dos critérios está a começar a mudar atitudes, diz Xie. No antigo sistema, os responsáveis locais eram avaliados quase exclusivamente pela saúde económica da sua região. Agora, as preocupações ambientais, especificamente a qualidade do ar, têm um peso maior.

Num regime hierárquico, onde tais avaliações podem moldar as carreiras políticas, a mudança chamou a atenção dos burocratas. Os presidentes de câmara que tiverem perdido a luta pela qualidade do ar podem ser chamados ao Ministério de Proteção Ambiental e serem avisados de que têm de aumentar esforços.

Por vezes, os resultados são mais cosméticos do que reais. Os líderes ordenam o encerramento temporário de fábricas por forma a limpar o ar, imediatamente antes de eventos de grande importância como, por exemplo cimeiras internacionais. Fecham fábricas em novembro e dezembro para que a cidade não exceda o seu limite anual de poluição. Estas medidas de última hora, explica Ma Tianjie, do Chinadialogue, só vêm sublinhar a necessidade de ter em conta mais cedo as considerações ambientais no processo de tomada de decisões”.

FLORES PARA TANGSHAN

No ano passado, na celebração do quadragésimo aniversário do terramoto de 1976, Tangshan organizou a Exposição Mundial de Horticultura. A exposição de flores gigante teve lugar numa antiga mina de carvão. O tema foi “Harmonia entre a cidade e natureza” – uma referência tanto à ascensão da cidade a partir das ruínas, quanto também aos seus atuais esforços de limpeza.

Perto do centro da cidade, um trabalhador da indústria do aço com óculos estilosos e cabelo espetado falou sob anonimato, como medo de enfurecer o seu patrão, e queixou-se de que o seu salário diminuiu 20 por cento em cinco anos. Responsabiliza a queda da procura de aço e o impacto das leis ambientais. Mas ainda vive em Tangshan – não é o paraíso, mas o ritmo de vida é confortável e está próxima do mar.

“É pena a poluição”, declara. “Temos poucos dias de céu azul por ano.” Durante a exposição das flores, as siderurgias da cidade diminuíram a produção para reduzir as emissões poluentes.

Dentro da pequena loja de Li Young Min, há fumo no ar que vem da salamandra que funciona a carvão. Wang vai sair para uma reunião na escola do filho. Apesar dos camiões sujos que congestionam os arredores, da siderurgia ali tão próxima e das grandes pilhas de carvão depositadas num terreno ao fundo da rua, Li, que cresceu em Tangshan, diz que não nota muita poluição.

Mas sonha com uma vida diferente para o seu filho. Alguma coisa melhor do que o calor e o trabalho pesado que o seu pai tem de suportar – um trabalho de escritório, apesar de achar que as notas do filho não são suficientes para tal. Talvez no sul, diz-nos, onde os invernos são mais quentes, “com mais árvores e flores, colinas e rios.”

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