Meio Ambiente

Tribos da Amazónia Lutam Pela Sua Sobrevivência

A quarta maior barragem do mundo irá inundar um território ocupado por tribos indígenas há centenas de anos. Thursday, November 9, 2017

Por Daniel Stone
Um grupo de rapazes trepa uma árvore junto ao rio Xingu, na cidade de Altamira, Brasil. Grande parte desta cidade foi inundada quando se encheram os reservatórios da barragem no final de 2015, destruindo por completo alguns bairros, maioritariamente desfavorecidos, junto à margem do rio.

A história dos trópicos foi sempre uma história de fragilidade. Sendo as florestas tropicais os pulmões da Terra, a sua saúde afeta o clima, as condições meteorológicas e a vida de todos os seres humanos.

Então o que acontece quando o desenvolvimento chega à Amazónia? Quando se constroem estradas, quando se cortam árvores e se erguem barragens? O fotógrafo Aaron Vincent Elkaim tem dedicado a sua carreira a contar as histórias de comunidades indígenas e de lugares ameaçados pelo desenvolvimento. Em 2014, fez a sua primeira viagem ao estado do Pará, no norte do Brasil, para ver na primeira pessoa como a construção da barragem hidroelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, iria afetar mais de 25 000 indígenas cujas vidas dependem da terra. (A ler: Em 2016, morreram mais de 200 ambientalistas e ativistas pela defesa seus territórios)

O governo brasileiro planeia construir 40 barragens na região, tendo como objetivo a aceleração do crescimento económico do país.  Elkaim, por outro lado, vê estes planos como uma violenta intrusão na vida dos povos que vivem há séculos naquelas terras e que cuidam delas a pensar nas gerações futuras. “Temos feitos muitos progressos no que toca a reduzir a desflorestação naquela zona,” diz Elkaim. “Para mim, a construção desta barragem não é um símbolo de desenvolvimento e proteção do futuro, mas sim da sua destruição.”

Percorra a Galeria e descubra mais sobre estas tribos, os seus hábitos e a sua luta

ver galeria

Queixando-se de que iriam inundar o seu território, 16 tribos da Amazónia protestaram desde que foi proposta a construção da barragem de Belo Monte, em 1975. O projeto só avançou em 2011, depois de ter sido alterado no sentido de não afetar as áreas onde estas comunidades vivem, apenas alguns terrenos de caça. O início de atividade da barragem está previsto para 2019. Estima-se que produzirá cerca de 11 233 megawatts de energia, tornando-se assim na quarta maior barragem hidroelétrica do mundo. Por sua vez, a energia produzida será utilizada, presumivelmente, para promover mais desenvolvimento na região.

A forma como os povos indígenas serão compensados pela construção da barragem tem sido alvo de várias ações legais, tendo uma destas resultado numa multa incutida ao governo e à Norte Energia (conjunto de empresas responsáveis pelo projeto) no valor de 275 mil dólares, por não terem sido tomadas as devidas precauções para garantir a segurança das populações daquela área. Outras ações legais resultaram em diferentes medidas, incluindo a promessa de que a central hidroelétrica jamais funcionará em toda a sua capacidade, de maneira a que o nível da água não suba tanto.

As pessoas que vivem por perto têm assistido a uma gradual subida do nível da água. Zonas que antes estavam secas estão agora inundadas. Durante várias visitas à barragem, e passando pela zona onde a bacia do rio é mais ampla, o fotógrafo Elkaim encontrou-se com membros da comunidade Munduruku que depositaram pedras no solo a descrever mensagens de protesto. Testemunhou a forma como estas comunidades se estão a adaptar às rápidas mudanças na região: observou um homem a lavar o carro num terreno inundado, e viu um grupo de miúdos a trepar ao topo de uma árvore morta que anteriormente se erguia em solo seco.

O governo tenciona prosseguir com a construção do conjunto de barragens, mostrando-se disponível para negociar alguns benefícios com os manifestantes desde que os planos para as barragens não sejam inteiramente alterados. Alguns territórios foram designados como património de valor cultural, o que obrigou a algumas alterações dos planos de construção iniciais. A Norte Energia tem financiado o realojamento de algumas comunidades indígenas na cidade de Altamira — uma iniciativa que oferece pouco no que respeita a empregabilidade e comunidade. Além disso, Elkaim foi informado de que este tipo de medidas conduz muitas vezes a um cenário de crime e alcoolismo.

Funcionários do governo afirmaram que é possível encontrar um equilibro entre o passado e o futuro, entre a cultura e o desenvolvimento. Mas há coisas que se perdem na corrente. Elkaim continua a regressar a estas comunidades, fotografando a realidade da região com a esperança de que as suas imagens provoquem uma onda de nostalgia e solidariedade para com os povos que a habitam há vários séculos. “A ideia é mostrar e imortalizar o imaginário daquela região,” diz-nos. É essa a esperança daquelas pessoas: que através de uma lente tenham a devida visibilidade.

2014. Membros da comunidade Munduruku caminham sobre a língua de areia no rio Tapajós; preparam-se para mais um protesto. Após de anos de luta, os Munduruku conseguiram convencer o governo a reconhecer oficialmente o seu território tradicional. Esta medida forçou o Ministério do Ambiente do Brasil a suspender a licença ambiental para o complexo hidroelétrico de Tapajós, com capacidade para gerar 12 000 megawatts de energia. Mas a luta, essa, continua, uma vez que há planos para a construção de mais 40 barragens ao longo do rio.

Aaron Vincent Elkaim é membro do Boreal Collective, um coletivo de 12 fotógrafos com sede no Canada. Servem-se do fotojornalismo para sensibilizar as pessoas para assuntos de caráter social, ambiental, cultural e denunciar a injustiça em todo o mundo. Podem segui-lo no Instagram.

Continuar a Ler