Meio Ambiente

A Vida de Quem Decidiu Partir e Viver na Floresta

Conheça um grupo de pessoas nas montanhas da Carolina do Norte que sobrevivem à conta do que pode ser colhido nas zonas circundantes.Thursday, November 9, 2017

Por Daniel Stone
Fotografias Por Mike Belleme
Niki, à esquerda, pinta o rosto de Julia com pigmentos de grés no riacho que passa pela propriedade de Wild Roots na zona ocidental da Carolina do Norte. O riacho é a única fonte de água potável fresca e também o local de banhos dos membros da comunidade de Wild Roots durante o ano inteiro.

Em 2007, um homem e uma mulher entraram num pequeno acampamento na zona de floresta da Carolina do Norte. O acampamento tornou-se no seu lar e o lar numa comunidade.

Assim reza a história dos primórdios da Wild Roots, uma comunidade na floresta na zona ocidental da Carolina do Norte, construída com base em alguns princípios: viver livremente, não desperdiçar e aprender continuamente. Em cerca de 12 hectares, um grupo de pessoas utiliza aquilo que denominam de "competências de terra" para comer, tomar banho e sobreviver. Constroem o que sabem e deixam a floresta ensinar-lhes o que não sabem.
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O membro mais antigo da comunidade Wild Roots, um homem de seu nome Tod que rejeita ser identificado com um apelido, não tem nenhuma crença antiestabelecimento nem medo da sociedade desenvolvida, apenas uma aversão aos mesmos. "Estamos a viver dos excedentes de uma sociedade excedentária ridícula", afirmou Tod ao fotógrafo Mike Belleme, para explicar a razão de os membros da comunidade "mergulharem" ocasionalmente nos contentores de lixo em busca de restos dos supermercados. À volta do acampamento, os membros também colhem bolotas e castanhas, que transformam numa papa.

Belleme visitou a comunidade pela primeira vez em 2009 e encontrou cerca de 12 a 14 pessoas que o receberam de braços abertos, mas com uma curiosa falta de filosofia comum. Ao contrário do que acontecia noutras comunidades que se dedicam ao ambiente ou que se opõem às normas sociais, a Wild Roots não tinha uma visão única: os seus membros diziam que não se sentiam confortáveis em serem rotulados, marginalizados, rejeitados. O que todos tinham em comum, na observação de Belleme, era simplesmente o gosto por aprender.

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Em 2011, Tod, com muito tempo livre na floresta, começou a construir uma cabana com teto de casca de árvore, feita apenas com materiais que fosse encontrando. Aparou cavilhas de madeira, esculpiu vigas de carvalho e retirou a casca de liriodendros. Mas o projeto não tinha de acontecer. Pouco tempo depois, Tod abandonou a cabana. O excesso de humidade na área convidava ao aparecimento de bolor, por isso, Tod passou a outra coisa.

Tod tinha originalmente planeado que o grupo se alimentasse apenas da terra, mas logo se apercebeu de que tal era uma ideia ingénua. A quantidade de animais na zona tinha vindo a diminuir com o desaparecimento da flora nativa. Ocasionalmente, os caçadores doam algumas das suas matanças à comunidade em troca de acesso à área. Mas tais recompensas nem sempre dão lugar a refeições gourmet. Durante uma das viagens de Belleme, o grupo desmanchou um urso para comer a sua carne e, em seguida, cozinhou o seu cérebro, língua e globos oculares num estufado, para ser posteriormente colocado em frascos para durar mais tempo. Belleme provou o cozinhado.

Viver na floresta tende a acarretar as suas desvantagens. Viver sem tecnologia pode ser libertador, mas também isola as pessoas. Uma vez por semana, vários membros do grupo seguem numa carrinha até uma localidade próxima para utilizar os computadores numa biblioteca pública para enviar e-mails à família ou ler as notícias. Por vezes, visitam um talhante e pedem as sobras que iriam para o lixo.

Há quase uma década, a Wild Roots passou de um pequeno grupo para uma comunidade pedagógica, afirma Belleme. Tem o seu website e recebe visitantes, desde que os contactem primeiro e não cheguem doentes. As pessoas ocupam o seu tempo a cozinhar e a trabalhar em serralharia ou carpintaria.

A ausência de hierarquia significa que todos podem aprender ou ensinar, todos podem ter êxito ou falhar. Mas surge uma altura em que o clima testa quem é mais empenhado. Quando o inverno chega, o grupo diminui. Por vezes, a única pessoa que resta é Tod.

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