Meio Ambiente

Alerta: Os Recifes de Coral Poderão Desaparecer em 30 Anos

Os recifes classificados como Património Mundial da Humanidade desaparecerão devido ao stress provocado pelo calor, a menos que o aquecimento global seja reduzido, revela um novo estudo das Nações Unidas.Thursday, November 9, 2017

Por Laura Parker, Craig Welch
ver galeria

Percorra a galeria de fotografias acima para saber mais.

Os recifes de coral do mundo, desde a Grande Barreira de Coral ao largo da Austrália até às ilhas Seychelles ao largo da África Oriental, estão em enorme risco de desaparecer completamente daqui a 50 anos, a menos que as emissões de carbono sejam reduzidas em quantidade suficiente para diminuir o aquecimento dos oceanos, revela um novo estudo da UNESCO.

E as consequências podem ser drásticas para milhões de pessoas.

O declínio dos recifes de coral tem sido bem documentado, recife a recife. Mas o novo estudo é a primeira análise global da vulnerabilidade de todos os sistemas de recife do mundo e cria um cenário muito negro. Das 29 áreas de recife classificadas como Património Mundial da Humanidade, pelo menos 25 experienciarão fenómenos de branqueamento graves duas vezes por década até 2040 — uma frequência que "matará rapidamente a maioria dos corais existentes e evitará uma reprodução com êxito necessária para a recuperação dos corais", concluiu a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Em algumas áreas, tal já está a acontecer.

"Tratam-se de locais espetaculares, muitos dos quais já visitei. Assistir à ocorrência dos danos tem sido desolador", afirma Mark Eakin, um especialista em recifes da NOOA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) e autor importante do novo relatório. "Estamos numa altura onde é fundamental agir. É urgente."

DESCOLORAÇÕES EM MASSA

Até 2100, a maioria dos sistemas de recifes irão desaparecer, a menos que as emissões de carbono sejam reduzidas. Muitos outros irão desaparecer ainda antes. "Estima-se que o aquecimento venha a ultrapassar a capacidade de sobrevivência dos recifes dentro de uma a três décadas para a maioria dos locais classificados como Património Mundial da Humanidade com recifes de coral", afirma o relatório.

Os recifes, muitas vezes descritos como as florestas tropicais dos oceanos, ocupam menos de 1% do leito marinho, mas fornecem habitat para um milhão de espécies, incluindo 1/4 dos peixes do mundo. Também protegem o litoral da erosão devido às tempestades tropicais e atuam como uma barreira contra a subida do nível do mar.

“É assustador pensar nas repercussões da perda global e em grande escala dos recifes", afirma Ruth Gates, diretora do Instituto Havaiano de Biologia Marinha em Kaneohe, Havai. "A redução no que respeita a víveres, a falta de proteção costeira à medida que o recife colapsa e a subsequente erosão dos solos irá tornar alguns locais inabitáveis e as pessoas terão de mudar-se. E isto para não falar do colapso do turismo associado aos recifes."

Nos últimos três anos, 25 recifes —que incluem 3/4 dos sistemas mundiais de recifes - registaram graves fenómenos de branqueamento naquilo que os cientistas descreveram como a pior sequência de descolorações até à data. A Grande Barreira de Coral foi especialmente afetada. Outros recifes que registaram graves descolorações incluem as SeychellesNova Caledónia, 1210 quilómetros a leste da Austrália, EUA, ao largo do Havai e Flórida.

"Os últimos três anos têm sido extremamente deprimentes para mim", afirmou Mark Eakin do NOOA. "Estamos a assistir a danos verdadeiramente catastróficos para muitos sistemas de recifes no mundo inteiro. Os danos na Grande Barreira de Coral são maiores do que tudo o que já vimos nos últimos 20 anos."

As consequências já se estão a fazer sentir por algumas pessoas e irão rapidamente piorar, afirma Scott F. Heron, coautor e colega de Mark Eakin no NOOA. Ilhas de baixa altitude como o Kiribati, um conjunto de 33 atóis de coral no Oceano Pacífico central, já assistiu à inundação das fontes de água potável pela água salgada. As marés mais altas e os recifes que se desmoronam estão a provocar mais temporais. Em breve, a perda do coral, sobretudo quando conjugada com a sobrepesca a nível mundial, resultará em menos peixe e na falta de proteína no local.

"Estes são acontecimentos reais que pessoas reais estão a vivenciar", afirma Heron. "Já conheci estas pessoas. Estiveram em minha casa. Isto está a acontecer."

Heron também realça que, apesar do ceticismo em alguns pontos do mundo sobre as alterações climáticas, até o mais grosseiro dos modelos de há duas décadas já previa o tipo de danos em recifes a que assistimos atualmente.

"Se aquilo que os modelos previam na altura começou a acontecer, mesmo com todos os seus problemas, então, devemos ter boa-fé na ciência das projeções atuais", afirma Heron. "E essas projeções dizem que se não agirmos, irão ocorrer impactos muito mais graves".

TEMPO DE AGIR

A maioria dos locais classificados  como Património Mundial da Humanidade são geridos localmente para controlar os poluentes dos escoamentos agrícolas ou a sobrepesca. Agora, a "ameaça global omnipresente" aos sistemas de recife tornou-se tão grande, afirmam Eakin e Heron, que as proteções locais não são suficientes. Ambos esperam que a sua nova avaliação sombria venha a ajudar as nações mundiais a perceberem que, a menos que se apressem a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, estes locais especiais — e as pessoas que deles dependem — vão sofrer imenso e muito mais cedo do que se esperava.

"Quando alguém precisa de ajuda, a maioria de nós intervém para ajudar. É uma caraterística humana. É isso que nos torna humanos", acrescenta Heron. "Embora as pessoas mais afetadas por estas alterações não sejam necessariamente pessoas que encontramos nas nossas vidas quotidianas, tal não nos demove da nossa responsabilidade de ajudá-las."

Continuar a Ler