Meio Ambiente

A Explicação Para o Deslizamento de Lamas Mortífero que Ocorreu na Serra Leoa

A chuva desencadeou um deslizamento que, possivelmente, se estaria a acumular há várias semanas. Contudo, os danos ambientais poderão ter agravado a destruição.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Sarah Gibbens

Todos os anos, chuvas intensas caem por toda a Serra Leoa. Num conjunto de dados relativos à precipitação anual por queda de chuva, a Serra Leoa ocupa a 12.ª posição a nível global. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que o pequeno país africano tenha recebido mais de 2500 mm de chuva entre 2013 e 2017.

Agora, o país assistiu a uma das mais graves catástrofes naturais em África nos últimos anos. Até à data, estão registadas mais de 500 mortes e mais 600 pessoas ainda desaparecidas.

Águas lamacentas e detritos continuam a correr pelas ruas de Freetown, a capital da Serra Leoa, mas a maioria dos estragos terão sido causados por um deslizamento colossal de lamas, que varreu a cidade nessa segunda-feira de manhã.

Para um país historicamente habituado a chuvas intensas, o nível de destruição suscita várias questões acerca do que poderá ter desencadeado o deslizamento e quais os fatores que o agravaram.

PORQUE É QUE OS DESLIZAMENTOS DE LAMAS SÃO MORTAIS? 

É difícil imaginar como é que algo como a lama se pode tornar mortífera (um deslizamento de lamas tende a movimentar-se de forma semelhante a um rio, enquanto os deslizamentos de terras se referem a detritos terrosos que vão deslizando ao longo de um declive).

Na sua forma mais elementar, os deslizamentos de terras são desencadeados pela gravidade, embora as condições climatéricas possam acelerar e intensificar o movimento. Quando há a queda de chuvas fortes após um período de seca, o solo facilmente fica saturado com água. Esta região da Serra Leoa foi assolada por chuvas mais intensas do que o habitual para esta época do ano, o que significa que, provavelmente, o solo se encontrava sobressaturado. À medida que o solo sobressatura, sucedem os alagamentos e há uma perda de fricção. Quando o terreno acaba por ceder, os deslizamentos de lamas podem, rapidamente, ganhar velocidade, arrastando consigo rochas e rochedos de grandes dimensões, capazes de provocar fortes estragos.

Os deslizamentos são também espoletados pelo degelo ou degelo do pergelissolo (ou permafrost), bem como por terramotos.

Dave Petley, o vice-reitor da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, é o responsável pelo The Landslide Blog (O Blogue dos Deslizamentos de Terras), um site onde estes fenómenos naturais são explicados. Apesar de já ter presenciado inúmeros deslizamentos, Petley ficou perplexo com o deslizamento de lamas na Serra Leoa, afirmando que o efeito mortal foi "invulgar e um pouco desconcertante."

Através da observação de fotos do deslizamento de lamas, Petley determinou que este ocorreu numa região onde o solo se encontrava extremamente desgastado. Pela comparação de fotos que mostravam a progressão do deslizamento, o vice-reitor pôs a hipótese de que este terá sido altamente móvel. Em vídeos, é frequente os deslizamentos de lamas com elevada mobilidade assemelharem-se a cheias repentinas, podendo ser vistos a surgir quase instantaneamente. Contudo, ao contrário das águas de aluvião, a lama pode conter uma maior quantidade de detritos, sendo mais difícil de atravessar.

Causas ambientais?

Ainda que os deslizamentos de lamas possam, de facto, ser fenómenos naturais devastadores, diversos especialistas atribuem também responsabilidades pela intensidade do deslizamento à falta de infraestruturas adequadas e à desflorestação.

Freetown é um dos maiores portos naturais do globo, sendo as suas florestas montanhosas e áreas circundantes habitadas por praticamente um milhão de pessoas.

Um porta-voz da Agência de Proteção Ambiental (APA) da Serra Leoa disse à BBC que esta organização governamental estava a par das eventuais ameaças do declive. A APA do país afirma ter visitado a região duas semanas antes da catástrofe, numa tentativa de reflorestação, mas sem sucesso.

A desflorestação é uma das maiores ameaças a zonas propensas a deslizamentos de lamas. Geralmente, as raízes das árvores são eficazes ancoradouros do solo. Quando estas são eliminadas, há maior probabilidade de a chuva vir a provocar deslizamentos mortíferos.

Numa entrevista ao jornal local Standard Times Press em 2015, Mohamed Bah, diretor-adjunto da APA da Serra Leoa e responsável pelo Secretariado para as Alterações Climáticas, traçou um quadro ameaçador, advertindo para fenómenos como o deslizamento em Freetown.

"Atos irresponsáveis, levados a cabo nas colinas, afetarão grandemente a cidade," disse Bah acerca da desflorestação que estava a decorrer no topo das colinas. O diretor-adjunto da APA referiu os escoamentos obstruídos e a destruição dos mangais como fatores responsáveis pelas inundações e pelos deslizamentos de lamas futuros.

Num relatório de 2015 publicado pela Bohr Industries, mencionava-se a relutância da empresa em prosseguir com a construção em Freetown. Estima-se que, durante os próximos 15 anos, tenham de ser construídas 280 000 habitações por ano, e que 60 % dos atuais residentes vivam em bairros de lata. Este relatório referia ainda "a desflorestação, a construção e a mineração" como possíveis causas para o potenciamento dos deslizamentos de lamas.

Segundo o grupo de vigilância e alerta Global Forest Watch, a Serra Leoa perdeu cerca de 800 000 hectares de coberto florestal na última década, com estas perdas a serem aceleradas em 2015. A guerra civil, que assolou o país entre 1991 e 2002, é outra das causas estudadas da desflorestação.

Equipas de salvamento enviadas pelo governo da Serra Leoa e a Cruz Vermelha continuam a tentar ajudar todos os que foram afetados.

Em declarações ao The Guardian, um funcionário da ONU afirmou que estão a ser usados dados de satélite e mapeamento por drones para prever um possível segundo deslizamento de lamas.

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