Há Três Novos Parques Marinhos que Protegem Uma Biodiversidade Magnífica

Os parques protegem uma área de 751 Mil Km2 no Oceano Pacífico - uma área total duas vezes superior à área ocupada pela Alemanha.terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Três Novas Reservas Marítimas Para Proteger Uma Biodiversidade Magnífica
Três Novas Reservas Marítimas Para Proteger Uma Biodiversidade Magnífica

O Chile e o Niue causaram um grande impacto no mundo da conservação dos oceanos.

Niue, uma pequena ilha nação no Pacífico Sul, com cerca de 1600 habitantes, transformou 40% da sua zona económica exclusiva num parque marinho. Por sua vez, o Chile acrescentou dois novos parques marinhos onde está proibida a pesca e todas as outras atividades de extração.

No total, os três novos parques protegem uma área com cerca de 751 mil km2 no oceano — uma área que corresponde a mais do dobro da dimensão da Alemanha.

Os dois países anunciarão as suas novas áreas marinhas protegidas (AMP) na conferência Our Ocean, que se realiza em Malta na quinta e sexta-feira. As três reservas são cientificamente apoiadas pelo projeto Pristine Seas da National Geographic Society.

PEQUENA ILHA DÁ UM ENORME PRESENTE AO MUNDO

A reserva de Niue engloba a própria ilha, vários montes submarinos e recifes em alto mar e o Recife Beveridge, um atol desabitado e semissubmerso. A ação protege uma área no oceano com cerca de 126 mil km2 — mais de cerca de 77 mil km2 por cada homem, mulher e criança que vivem atualmente na ilha.

Este feito é ainda mais impressionante devido à dimensão de Niue e à diminuição consistente do número de habitantes da mesma. Tal como as Ilhas Cook, também de dimensão pequena, que protegeram mais de 181 mil km2 de oceano, Niue não tem atualmente representação nas Nações Unidas. A Nova Zelândia representa ambos os países no palco global.

"É um feito enorme para uma pequena ilha em desenvolvimento dar um contributo tremendo e tangível para a conservação dos oceanos", afirma Brendon Pasisi, diretor do projeto NOW (Niue Ocean Wide, uma iniciativa publico-privada de sustentabilidade em Niue.

Em Niue, decidiu-se proteger estas águas perante as preocupações existentes sobre a vulnerabilidade extrema do seu ecossistema e modo de vida. Os recifes de coral em todo o Pacífico central e ocidental estão em crise, à medida que as alterações climáticas dão origem a águas mais quentes e ácidas. A pesca excessiva também assolou os recursos haliêuticos em mar aberto, incluindo o atum selvagem. Os recifes da ilha também estão ainda a recuperar do Heta, um ciclone de categoria cinco que, em 2004, causou graves danos em Niue.

Por sugestão do governo de Niue e de Jessica Cramp, exploradora emergente da National Geographic, uma equipa composta pelo projeto Pristine Seas, NOW e o grupo filantropo Oceans 5 explorou as águas da ilha em setembro de 2016.

Liderada por Paul Rose, a expedição de 18 dias revelou uma vida marinha deslumbrante, incluindo 300 espécies de peixes, a pouco conhecida baleia-de-bico-de-Blainville e três espécies de tartarugas-marinhas ameaçadas a nível mundial. Estes dados ajudaram Niue a decidir que águas deveriam ser protegidas.

“Encontramos algumas das maiores densidades de tubarões de recife a nível mundial", afirma Alan Friedlander, biólogo da Universidade do Havai e cientista-chefe do projeto Pristine Seas. "As populações de tubarões desceram em mais de 90% a nível global, pelo que esta nova área marinha protegida (AMP) é um importante refúgio para estas espécies altamente ameaçadas."

"Ficámos surpreendidos com o que encontrámos no Recife Beveridge — foram mais os tubarões filmados pelo meu BRUVS (sistemas de vídeo submarino) no Recife Beveridge do que aqueles que foram filmados em qualquer outro local no mundo até à data", afirma Cramp, que se juntou à expedição para catalogar os tubarões e raias de Niue.

PEDAÇO DE OCEANO DO TAMANHO DE FRANÇA POUPADO À PESCA

No outro lado do Pacífico, o Chile revelou duas novas reservas que protegem uma área de cerca de 751 mil km2 do oceano da pesca e outras atividades de extração — uma área total que perfaz praticamente a da de França.

“O Chile é um país de pesca, e a maioria dos pesqueiros que existem são totalmente explorados ou sobre-explorados, mas o atual governo percebeu que não existe futuro neste setor sem uma proteção significativa", a Enric Sala, explorador-residente da National Geographic e diretor executivo do projeto Pristine Seas.

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Uma das novas reservas protege uma área do oceano constituída por mais de 116 mil km2 à volta das ilhas Diego Ramírez, um pequeno arquipélago que se ergue no meio das águas tempestuosas ao largo do Cabo Horn da América do Sul.

As suas águas albergam florestas de algas gigantes e uma mistura de espécies de clima temperado e espécies da
Antártica, incluindo focas, leões-marinhos e baleias. As ilhas também funcionam como importantes locais de nidificação para o pinguim-de-penacho-amarelo-do-norte, o albatroz-de-sobrancelha e cerca de 80% da população mundial de petreis-azuis.

Com cerca de 484 km2, o novo parque marinho nas ilhas Juan Fernández no Chile é o maior do seu género na América do Sul, e quase todas as espécies de peixes da área são únicas da região. Além disso, os pescadores que vivem nas ilhas Juan Fernández há muito que são elogiados pelos seus pesqueiros de lagosta bem geridos — um estilo de vida que os locais esperam que o parque marinho nas proximidades venha ajudar a manter.

"A comunidade piscatória de Juan Fernández tornou-se num modelo global para a conservação marinha", afirmou, numa declaração, Felipe Paredes, um líder local de Juan Fernández. "Este enorme parque marinho dar-nos-á abrigo e sustento para sempre."

O CHILE CONTRIBUI PARA A ONDA DE CONSERVAÇÃO

Desde 2010, o Chile estabeleceu uma área com mais de 154 mil km2 como sendo parques marinhos, onde todas as atividades de extração estão proibidas, sendo esta uma área maior que a área ocupada pelo Egito. E, em março passado, o Chile foi notícia em todo o mundo ao estabelecer que cerca de 4 milhões de hectares corresponderiam a um novo parque nacional.

O anúncio de hoje surge após o Chile ter divulgado a criação de um parque marinho à volta da ilha da Páscoa, território chileno, no quarto Congresso Internacional de Zonas Marinhas Protegidas, que teve lugar em setembro.

De seu nome Rapa Nui Rahui, a extensão de oceano em forma de amendoim que ocupa uma área de 720 mil km2, alberga pelo menos 142 espécies marinhas que não existem em mais nenhum local da Terra. Tem uma dimensão aproximadamente idêntica à da do Chile.

“Este processo tem sido um dos mais abrangentes de que tenho conhecimento", afirma Matt Rand, diretor do projeto Pew Bertarelli Ocean Legacy, que consultou relativamente à reserva. “Foram muitas e longas as noites que acompanhámos com cerveza conversas com pescadores arreliados e muito céticos, e trabalhámos na ilha durante muito tempo, trazendo sempre uma análise científica para a conversa.”

O Chile e a comunidade indígena Rapa Nui tinham estado em negociações formais sobre a reserva desde finais de 2015. A 5 de setembro, o povo Rapa Nui votou num referendo para avançar com a reserva.

Os líderes locais enfatizam que a reserva será gerida pelo Chile em parceria com o povo Rapa Nui. Ao contrário dos parques marinhos chilenos em Diego Ramírez e Juan Fernández, a pesca será permitida na maior parte da área da reserva Rapa Nui Rahui — mas só por parte dos pescadores artesanais Rapa Nui.

Sala, do projeto Pristine Seas, chama a atenção para o facto de até mesmo a pesca artesanal local dentro das reservas marinhas como a Rapa Nui Rahui poder ser afetada. Refere um estudo de 2017, no qual foi coautor, que demonstra que as reservas marinhas de pesca proibida que banem totalmente as atividades de extração preservam significativamente mais biomassa nos ecossistemas marinhos do que as que exercem proteções apenas parciais.

Os locais defendem que o estabelecimento desta área reservada protegerá tanto as águas da Ilha da Páscoa como o estilo de vida dos Rapa Nui.

"O nosso povo vive do oceano e para o oceano", afirma Sebastián Yancovic Pakarati, membro da Mesa del Mar, uma coligação centrada na conservação de líderes de negócios, pescadores e organizações locais Rapa Nui. "(...) Esta oportunidade que temos atualmente é a melhor e mais fácil forma de assumir o controlo do nosso próprio território."

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