Meio Ambiente

As Emissões de Carbono Tinham Estabilizado - Agora Estão Novamente a Aumentar

Existem várias razões, mas a principal é que a China está a queimar mais carvão, de novo. Quarta-feira, 3 Janeiro

Por Craig Welch

Durante algum tempo, pareceu que o mundo podia estar a fazer uma transição.

Uma equipa internacional de cientistas anunciou que as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera causadas por humanos não atingiram, de facto, nenhum pico, mas, depois de três anos sem se registar um aumento, foi detetada uma subida.

Em 2017, as emissões globais de CO2 provenientes da combustão de combustíveis fósseis e da indústria aumentaram cerca de 2%, segundo projeções dos investigadores, atingindo o valor recorde de 37 mil milhões de toneladas métricas. Estas emissões tinham aumentado apenas 0,25% entre 2014 e 2016. Alterações na utilização do terreno, como a desflorestação, vêm acrescentar cerca de quatro mil milhões de toneladas métricas de CO2 em 2017, o que fará com que as emissões globais atinjam o valor estimado de 41 mil milhões de toneladas métricas.

O ressurgimento encurta ainda mais a janela temporal dos esforços globais para não permitir um aumento da temperatura superior a dois graus Celsius (3,6 graus Fahrenheit) — um limite que os cientistas cada vez mais acreditam ser importante para a evitar os efeitos mais catastróficos das alterações climáticas.

"O que está realmente a conduzir esta tendência global é este aumento na China”, declara Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia, e a autora principal de um dos muitos estudos sobre as novas emissões que foi disponibilizado hoje. Um aumento inesperado da combustão de carvão, na China – que se deve, em parte, à seca que se sentiu no verão, que diminuiu o caudal dos rios do país e, consequentemente, a produção de energia hidroelétrica.

NÃO SÓ OS CHINESES

Mas esta mudança na China teve um motivo para acontecer. As emissões, neste país, aumentaram ao mesmo tempo que os Estados Unidos e a União Europeia viram as suas emissões diminuírem mais lentamente do que o esperado.

Nos Estados Unidos, os preços de gás natural mais elevados originaram um ligeiro aumento da combustão de carvão, pela primeira vez em cinco anos, e a utilização de petróleo também aumentou. Como resultado, as emissões que tinham vindo a decair cerca de 1,2 % por ano, caíram menos de meio por cento. Na Comunidade Europeia, as emissões caíram menos de 0,25%, depois de uma década de quedas anuais que ultrapassavam os 2% ao ano.

Por outro lado, espera-se que as emissões da Índia, que têm aumentado de forma consistente, cerca de seis por cento ao ano, à medida que o país se industrializa e faz chegar rapidamente a eletricidade às zonas rurais, se registem apenas em dois pontos percentuais, no ano corrente. E estas boas notícias são inquietantes, porque é quase certo que esta diminuição não irá durar.

Com o registo dos cinco anos mais quentes da história, todos depois de 2010, a grande questão é se este novo registo de crescimento das emissões é um acontecimento único ou a norma.

“É difícil dizer se o ano de 2017 é um soluço numa trajetória de crescimento que tem um pico e depois desce – ou se é o retorno aos altos números”, questiona-se Le Quéré.

Em 2015, durante a cimeira do clima de Paris, 195 nações, incluindo os Estados Unidos, concordaram voluntariamente em fazer o que fosse preciso para manter o aumento da temperatura global numa janela de 2 graus Celsius – enquanto reconheciam que uma meta ainda melhor seria manter esse aumento da temperatura abaixo de um grau e meio. Desde então, os Estados Unidos, liderados pelo presidente Donald Trump, anunciaram a sua retirada do Acordo de Paris.

Os cientistas não esperavam que as emissões globais tivessem atingido o seu limite máximo. Por exemplo, só na Índia ainda existem milhares de pessoas que vivem sem eletricidade. Mas havia a esperança de que o rápido afastamento da China do carvão, para combater a poluição do ar que está a matar milhares de cidadãos, pudesse apressar a transição para as energias renováveis.

E se Le Quéré diz esperar que 2017 não tenha significado grandes consequências, um outro estudo onde também trabalhou com o climatólogo da Universidade de Stanford Robert Jackson sugere que as más notícias em relação ao clima podem, de facto, continuar.

Os 22 países responsáveis por 20% das emissões globais viram os seus níveis de saída de CO2 baixar à medida que o seu produto interno bruto aumentou na última década. Mas tanto o Banco Mundial como o Fundo Monetário Internacional fazem previsões de aumentos globais do PIB em 2018, para níveis que não são registados desde 2011. Parece provável que atividade económica a essa escala dê origem a mais emissões, diz Jackson.

Uma razão: apesar de uma explosão global das energias solar e eólica, desde o ano 2000 “80% das infraestruturas que já estão construídas em todo o mundo ainda operam movidas a combustíveis fósseis”, afirma Jackson. “Somos mais eficientes do ponto de vista energético, mas ainda somos tão carbono-intensivos como éramos em 1990.”

Existem algumas tendências positivas. As emissões estão a diminuir no México e em outras partes da América Latina. A China limitou a utilização de carvão no inverno e anunciou um compromisso para abolir gradualmente os automóveis movidos a gasolina, gasóleo e gás.

"Descarbonizar o setor dos transportes é provavelmente a coisa mais difícil que temos de fazer, e, se isso acontecer, será um grande passo”, afirma Jackson.

Os novos estudos sugerem ser pouco provável que, num futuro próximo o crescimento das emissões regresse aos valores que se mantiveram durante grande parte dos anos 2000, de três por cento ao ano.

Mas os cientistas também dizem que isso está dependente das ações levadas a cabo pelos países num futuro próximo.

"Neste momento, parece que os governos se tornaram um pouco complacentes”, afirma Le Quéré.

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