Meio Ambiente

Enorme Banco de Esperma de Coral Criado Para Salvar os Recifes

No advento dos recentes fenómenos de descoloração em massa, os cientistas criam um enorme banco de esperma para garantir a sobrevivência de uma das espécies mais importantes dos oceanos. Quarta-feira, 3 Janeiro

Por John Pickrell

Na Austrália, à luz da lua e das estrelas, os cientistas recolheram um dos tesouros mais valiosos dos oceanos: amostras de esperma dos corais da Grande Barreira de Coral.

Numa expedição à Ilha Heron com a duração de três semanas, em meados de novembro, equipas de cientistas recolheram cerca de 171 biliões de espermatozoides de 31 colónias de corais, representando oito espécies de corais-pétreos. Estas amostras foram imediatamente congeladas e guardadas nas câmaras do maior banco de esperma de coral do mundo, na Taronga Conservation Society, no Western Plains Zoo, em New South Wales, Austrália.

 
O objetivo destes cientistas é recolher e conservar o esperma de todas as 400 espécies de corais que constituem a famosa barreira que se estende ao longo de cerca de 2250 quilómetros, afirma Mary Hagedorn, bióloga marinha do Smithsonian Institute, pioneira na técnica de congelamento do esperma dos corais.

Contudo, este projeto surge como uma corrida contra o próprio tempo. É necessário recolher tantas amostras quanto possível antes que as populações de cada espécie que constitui o recife comecem a decrescer e a diversidade genética a diminuir. No rescaldo dos verões atipicamente quentes de 2016 e 2017, grande parte da secção norte da Grande Barreira de Coral permanece já como uma ruína.

“Neste momento, o nosso maior obstáculo,” afirma Hagedorn, radicalizado no Havai, “é que não conseguimos treinar pessoas e agir tão depressa como gostaríamos.”

ROMANCE AO LUAR

Os corais que formam recifes são pequenas colónias de animais com tentáculos que se protegem desenvolvendo carapaças muito duras. Estas estruturas muito duras, compostas maioritariamente por cálcio, são aquilo a que comummente chamamos recifes de coral. Uma espécie de floresta tropical dos oceanos, os recifes de coral são pontos altos de biodiversidade, sendo que muito animais marinhos dependem deles para encontrar comida e abrigo.

Os corais são muito sensíveis a mudanças de temperatura. À medida que a temperatura média dos oceanos aumenta, por causa da atividade humana, consideráveis aglomerados de corais morrem em todo o mundo, deixando para trás apenas os esqueletos esbranquiçados que outrora os protegiam dos predadores. Se este fenómeno, conhecido como descoloração em massa, se tornar ainda mais frequente e intenso, tal como previsto no modelo das alterações climáticas, os recifes de coral, como os conhecemos, poderão tornar-se numa coisa do passado.

É esta a razão pela qual os investigadores da Taronga Conservation Society e do Smithsonian Conservation Biology Institute se têm dedicado à construção de um banco de esperma. Ao longo de seis épocas de desova, estes cientistas já recolheram triliões de espermatozoides de vários indivíduos, cobrindo a diversidade genética de 16 espécies de corais.

Recolher e congelar o esperma dos corais não é fácil. Os corais da Grande Barreira de Coral desovam em períodos específicos da noite e, normalmente, isso acontece apenas ao longo de uma semana em todo o ano, geralmente em novembro e depois de uma lua cheia.

“Reservámos os voos com vários meses de antecedência, porque sabíamos que isto iria acontecer num momento muito específico”, explica-nos Rebecca Hobbs, bióloga do Taronga, especializada em reprodução e uma das responsáveis pela expedição.

Recolher o esperma dos corais em pleno oceano é mesmo muito difícil, por isso os cientistas colocaram alguns corais em tanques cheios de água do mar instalados a céu aberto. Expostos à lua e às estrelas, os corais respondem às pistas que a natureza lhes dá como se estivessem no recife, em pleno oceano. Quando chega a hora de uma determinada espécie se reproduzir, os corais libertam inúmeros pares de óvulos e espermatozoides.

“Recolhemos e separamos os pares de óvulos e espermatozoides, e limpamos o esperma,” explicou-nos Hagedorn. “Congelamo-lo, e depois descongelamo-lo novamente para verificar se ainda é passível de fertilizar os óvulos.”

Atualmente, os investigadores estão apenas a congelar o esperma — os óvulos são consideravelmente maiores, e é difícil congelá-los e posteriormente descongelá-los preservando as suas características. Ainda assim, a equipa liderada por Hagedorn está a desenvolver tecnologias para congelar os óvulos e, possivelmente, os embriões também. De acordo com um comunicado na revista Scientific Reports, esta equipa de investigadores conseguiu fecundar óvulos recentes com esperma que havia sido congelado há já vários anos, tendo a o processo resultado num embrião saudável.

INVESTIR NO FUTURO

Teoricamente, uma vez conservado em azoto líquido a -195ºC, o esperma permanece num estado de animação suspensa e pode durar centenas de anos.

“A importância deste projeto de criopreservação reside no facto de que, assim, estamos a garantir que temos um grande leque de esperma de corais saudáveis devidamente preservado caso um dia se verifique uma perda ainda mais considerável de biodiversidade nos oceanos”, afirma Peter Harrison, diretor do Marine Ecology Research Centre da Australia’s Southern Cross University, que ajudou a equipa ao longo da expedição que teve lugar este ano na Ilha de Heron.

Hobbs disse-nos que os corais da região sul do recife ainda são relativamente saudáveis, permanecendo quase intactos, e é por isso que é importante que estes cientistas continuem a desenvolver esforços no sentido de preservar a Grande Barreira de Coral. Nos últimos anos, recolheram esperma da zona central da barreira, junto a Townsville, com a ajuda do Australian Institute of Marine Science. Entretanto, a descoloração já causou sérios danos aos corais desta região.

“Muita da diversidade genética já foi perdida, restando-nos apenas os últimos indivíduos de algumas populações”, afirma Harris. Por todo o mundo, os recifes têm vindo a perder corais a uma velocidade superior àquela com que os conseguem substituir, e é por isso mesmo, acrescenta Harris, que os bancos de esperma são tão importantes.

“Se tivermos esperma suficiente nos nossos bancos para assegurar a biodiversidade, podemos combater a extinção dos corais, garantindo a diversidade das populações no futuro”, diz Hagedorn. “Mesmo que só nos restem três ou quatro indivíduos, poderemos assegurar a diversidade da espécie, se tivermos uma grande diversidade conservada nos espermatozoides congelados. Os espermatozoides que temos nos bancos, apesar de agora estarem congelados, terão um grande impacto na revitalização daquelas populações no futuro.”

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