Meio Ambiente

75% das Terras do Planeta Apresentam Degradação do Solo

Um novo relatório alerta para os danos ambientais que ameaçam 3,2 mil milhões de pessoas. Ainda assim, as soluções estão ao nosso alcance. Segunda-feira, 16 Abril

Por Stephen Leahy

Mais de 75% das terras do planeta apresentam uma considerável degradação do solo, comprometendo o bem-estar de 3,2 mil milhões de pessoas, segundo uma avaliação exaustiva e factual, a primeira efetuada à escala global. Estas terras, que ora se tornaram áreas desertificadas ou estão poluídas ou foram objeto de desflorestação e convertidas à produção agrícola, são também as principais causas da extinção de espécies.

Se a tendência se mantiver, estima-se que 95% das terras do planeta apresentem uma considerável degradação do solo em 2050. Tal levaria, eventualmente, ao êxodo de centenas de milhares de pessoas, à medida que fosse sendo atingida a rutura da produção alimentar em diversos lugares, alerta o relatório.

“A deterioração dos solos, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas são três faces diferentes do um só desafio: o impacto nocivo das nossas escolhas sobre a saúde do nosso ambiente natural,” realçou Sir Robert Watson, presidente da Plataforma Intergovernamental nas Nações Unidas sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas, na sigla inglesa IPBES, que elaborou o relatório, divulgado em Medellín, na Colômbia.

O trabalho da IPBES assemelha-se ao do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, mas centrado na proteção da biodiversidade – uma avaliação científica da condição da vida não-humana, que constitui o sistema de suporte de vida do planeta. A avaliação da degradação dos solos prolongou-se por três anos e envolveu mais de 100 especialistas de 45 países.

A rápida expansão e a gestão não sustentável de áreas de cultivo e de pasto são os principais fatores responsáveis pela deterioração dos solos, conduzindo a uma perda significativa de biodiversidade e com impactos na segurança alimentar, na purificação da água, no aprovisionamento de energia e noutros aportes da natureza essenciais ao homem. Esta situação atingiu “níveis críticos” em várias partes do mundo, declarou Watson numa entrevista.

Causas Subjacentes

As áreas pantanosas foram as mais atingidas, com perdas na ordem dos 87% à escala global nos últimos 300 anos e aproximadamente 54% desde o início do século passado. No sudeste asiático e na região do Congo, em África, continua a assistir-se à conversão de florestas de turfa em plantações de óleo de palma.

Segundo o relatório, os estilos de vida marcados por um elevado consumo na maioria dos países desenvolvidos, a par do aumento do consumo nas economias emergentes, são as principais causas associadas à degradação dos solos. O elevado e crescente consumo per capita, agravado pelo crescimento contínuo da população em diversas partes do mundo, está a empurrar a expansão agrícola, a extração de recursos naturais e minerais e a urbanização para níveis insustentáveis.

“Sabemos disto há mais de 20 anos, mas a situação agrava-se de dia para dia,” afirmou Luca Montanarell, cientista italiano que estuda os solos e corresponsável pela avaliação.

A degradação dos solos, raramente, é considerada um problema urgente pela maioria dos governos, ainda que muitos tenham subscrito um acordo internacional para alcançar a neutralidade da degradação dos solos em 2030. “Temos de encontrar um equilíbrio estável entre o nosso estilo de vida e os impactos que causamos na natureza,” diz Montanarella numa entrevista em Medellín.

Pôr fim à degradação dos solos e recuperar os terrenos empobrecidos seria percorrer um terço do caminho para manter o aquecimento global abaixo dos 2C, a meta climática a atingir, segundo os cientistas, para evitar consequências mais devastadoras. A desflorestação por si só responde por 10% das emissões feitas pelo homem.

Sobram Soluções

Para regiões em desenvolvimento, como em certas partes da Ásia e África, o custo da inação face à degradação dos solos é, no mínimo, três vezes mais elevado do que o custo da ação. E os benefícios da recuperação dos solos são dez vezes mais elevados do que os custos, segundo o relatório.

Acabar com os subsídios de produção nos setores da agricultura, pesca, energia e outros contribuiria, de forma significativa, para aliviar a pressão sobre a natureza. Aproximadamente 25% de África deslocou a produção de gado e ovelhas, simplesmente porque o ambiente se tornou demasiado seco e pouco produtivo para que a atividade fosse rentável, afirmou Robert Scholes, um ecologista sul africano e corresponsável pela avaliação.

“Estas terras retornam à sua condição de origem, para a qual estão melhor adaptadas,” explicou Scholes. “O mesmo está a acontecer na Austrália.”

São várias as abordagens comprovadas para reverter estas tendências, incluindo o planeamento urbanístico, a replantação de espécies nativas, o desenvolvimento de infraestruturas ecológicas, a recuperação de solos contaminados e impermeabilizados, por exemplo por baixo do asfalto, o tratamento de águas residuais e a recuperação de canais fluviais. A gestão do solo deve ser feita à escala da paisagem, na qual as necessidades de afetação de áreas agrícolas, industriais e urbanas possam ser equilibradas numa perspetiva holística, afirmou Scholes.

É também importante facilitar o acesso à informação sobre os impactos da transação de bens, acrescenta. Muitos países prósperos externalizam os impactos ambientais das suas escolhas, importando de terceiros grandes quantidades de alimentos, recursos e produtos. A União Europeia, por exemplo, importa 30 a 40% dos seus bens alimentares.

“Este relatório permitiu à comunidade global de especialistas lançar um alerta sincero e urgente, com opções claras para combater os terríveis danos ambientais,” rematou Watson.

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