Meio Ambiente

As Cidades Emitem 60% Mais Carbono do que se Pensava

Estudo revela que os urbanistas não contabilizaram as emissões de gases de efeito estufa de um elemento chave.Tuesday, April 17, 2018

Por Stephen Leahy
Caixas de fruta e vegetais pousam numa bancada no Mercado Abastecedor de Hunts Point, em Nova Iorque, o maior centro de distribuição do género no mundo. Novos estudos sugerem que as cidades devem procurar contabilizar o carbono incluído nos produtos que importam.

A pegada de carbono de algumas das maiores cidades do mundo é 60% superior à estimada anteriormente, se contemplados todos os produtos e serviços que uma cidade consome, segundo um novo estudo.

O relatório foi divulgado na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, em Edmonton, no Canadá, e estimava as emissões de carbono para bens alimentares, artigos de vestuário, equipamento eletrónico, viagens aéreas, materiais de construção, entre outros, consumidos pela população residente, mas produzidos fora dos limites da cidade.

As cidades emitem 70% do dióxido de carbono mundial e é muito provável que esta percentagem seja ainda mais elevada, se incluídas as emissões decorrentes do consumo, afirma o autor do relatório, Michael Doust, diretor do programa C40 Cities, uma rede de cidades de várias partes do globo, empenhadas em abordar as questões relacionadas com as alterações climáticas.

“Estamos a esquecer-nos do reverso da moeda, se apenas medimos as emissões associadas à produção de alimentos, energia ou outros bens e serviços,” afirma Doust numa entrevista em Edmonton. “Identificar as emissões de consumo e o local onde ocorrem permite às cidades e aos seus habitantes ajustar as suas decisões em função da necessidade de reduzir as emissões de carbono.”

“Cidades de consumo” prósperas, como Londres, Paris, Nova Iorque, Toronto ou Sidney, hoje esvaziadas dos grandes polos industriais, reduziram, significativamente, as respetivas emissões locais. No entanto, quando são incluídas as emissões associadas ao consumo de bens e serviços, as emissões destas cidades disparam, surgindo entre as mais elevadas do mundo por pessoa, segundo o relatório. Enquanto isso, “cidades produtoras” na
Índia, no Paquistão ou no Bangladesh apresentam elevados índices de poluição industrial e de emissões de carbono decorrentes do fabrico de produtos, que se destinam à venda e consumo na Europa e na América do Norte.

O relatório, Emissões de Gases de Efeito Estufa Associadas Ao Consumo das Cidades C40, examinou as emissões de gases de efeito estufa associadas ao consumo de bens e serviços pelos habitantes de 79 cidades, no âmbito da C40 Cities, incluindo bens alimentares, artigos de vestuário, equipamento eletrónico, viagens aéreas, serviços de distribuição e indústrias de construção.

“Continuamos a caminhar na direção errada no que diz respeito às alterações climáticas,” afirma Mark Watts, diretor executivo da C40 Cities. As emissões de carbono à escala planetária aumentaram 60% desde o Acordo Internacional de Kyoto em 1997 para a redução das emissões de gases de efeito estufa. “As energias renováveis e os sistemas de transportes públicos não serão suficientes para reverter o processo,” defende Watts. “Temos de reduzir o consumo.”

“Este novo estudo permitirá aos agentes políticos locais compreender melhor o verdadeiro impacto das respetivas cidades nas alterações climáticas globais e, por conseguinte, assumir como nunca um papel de maior liderança no planeamento e implementação de ações de combate às alterações climáticas,” acrescentou.

Externalização da Produção?

“Os bens e serviços que adquirimos devem fazer parte do nosso esforço para reduzir as emissões de gases. Não podemos, simplesmente, externalizá-los a outras regiões,” afirma Don Iveson, o presidente da câmara de Edmonton. Iveson disse que a contabilização baseada no consumo é essencial para que se conheça a verdadeira pegada de carbono de uma cidade. “Comprar de forma inteligente, adquirir bens e serviços locais e reduzir o desperdício são algumas das medidas que podem ser adotadas para reduzir as emissões que decorrem do consumo.”

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Matt Gray, responsável pela sustentabilidade da cidade de Cleveland, em Ohio, acolhe com satisfação esta nova abordagem. Com o antigo método de contabilização, as cidades industriais como Cleveland surgiam, frequentemente, no fim da tabela entre as cidades menos sustentáveis, sublinha. Já as cidades com economias baseadas em serviços e que consomem os bens produzidos em Cleveland figuravam entre as mais sustentáveis. O consumo de recursos não era um fator considerado no Índice de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Cidades Norte-Americanas, o que empurrou Cleveland para o fundo da tabela de classificação. E nem o facto de Cleveland ocupar uma posição cimeira na tabela nacional da produção alimentar regional foi considerado um fator no referido índice, afirmou Gray.

Tendo por base a nova contabilização das emissões associadas ao consumo, a cidade de Paris está a dirigir as promoções turísticas a países, cujos viajantes possam deslocar-se à cidade luz de comboio, num esforço para reduzir as emissões decorrentes das viagens aéreas. As entidades parisienses estão também a incentivar os habitantes a mudar as respetivas dietas alimentares, preferindo uma alimentação vegetariana em detrimento das carnes que implicam níveis mais elevados de emissão de carbono. A cidade de Estocolmo pediu a todos os construtores civis que estimassem as emissões incluídas nos materiais de construção. O simples gesto de olhar para os números já permitiu optar pelo uso de materiais com emissões mais baixas, afirmou Doust. E influiu nas decisões urbanísticas sobre a reforma de antigos imóveis ou a construção de novos edifícios.

Este relatório mostra que as cidades ainda dispõem de uma ampla margem para reduzir as emissões globais, se incluírem o consumo na contabilização das emissões de gases com efeito de estufa, afirma.

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