Meio Ambiente

A Grande Ilha de Lixo do Pacífico Não É Aquilo Que Se Pensa

Nem tudo são garrafas e palhinhas – a massa de lixo compõe-se, sobretudo, de equipamentos de pesca largados ao abandono. Segunda-feira, 9 Abril

Por Laura Parker

A Grande Ilha de Lixo do Pacífico é o maior amontoado de lixo flutuante no mundo e também o mais conhecido. Situa-se entre o Havai e a Califórnia e é, frequentemente, descrita como sendo “maior do que o Texas”, muito embora não possua um único metro quadrado de superfície onde pôr os pés. Não pode ser vista do espaço, como, muitas vezes, se alega.

A ausência de terra firme não impediu que dois publicitários elevassem esta massa de lixo ao estatuto de lugar. Chamaram-na de nação das Ilhas do Lixo, registaram o antigo vice-presidente Al Gore como o primeiro cidadão e, no outono passado, entregaram nas Nações Unidas uma petição para que fosse reconhecida como tal. A manobra publicitária perpetuou o mito.

Esta massa de lixo foi descoberta em 1997 por Charles Moore, um velejador que navegou no meio de uma salgalhada de garrafas de plástico flutuantes e outros detritos no caminho de regresso a casa, em Los Angeles. A designação foi-lhe atribuída por Curtis Ebbesmeyer, um oceanógrafo de Seattle conhecido pela sua perícia na identificação de correntes oceânicas e no estudo do movimento de cargas perdidas no mar, incluindo patos de borracha para brincar no banho e sapatilhas da Nike. A massa de lixo é, atualmente, o alvo de uma campanha de limpeza, no valor de 32 milhões de dólares, lançada por um adolescente holandês, Boyan Slat, hoje com 23 anos, e presidente da Ocean Cleanup, a organização que fundou para levar a cabo a tarefa. Para além desses detalhes, pouco se sabia sobre os conteúdos específicos desta massa de lixo, até hoje.

O Que Realmente Existe Na Ilha

Os microplásticos compõem 94% dos cerca de 1,8 biliões de resíduos plásticos que se estima que existam na ilha. Mas isso representa apenas 8% do peso total. Tal como a realidade indica, das 79 000 toneladas de plástico que compõem a massa de lixo, a maioria é equipamento de pesca deixado ao abandono e não as garrafas ou embalagens de plástico que atraem as manchetes dos jornais.

Um estudo mais exaustivo, desenvolvido pela equipa de cientistas de Slat, publicado na revista online Scientific Reports, concluiu que a massa de lixo é quatro a dezasseis vezes mais densa do que a estimada anteriormente. O estudo também concluiu que as redes de pesca representam 46% do lixo, sendo a restante maioria composta por outros equipamentos da indústria de pesca, incluindo cordas, tubos para criação de ostras, armadilhas para enguias, caixas de pesca e cestos. Os cientistas estimam que 20% dos detritos provêm do tsunami que atingiu o Japão em 2011.

Laurent Lebreton, um oceanógrafo da Ocean Cleanup e o principal autor do estudo, afirma que a equipa de investigação estava a considerar avaliar os detritos de maior dimensão.

“Eu sabia que iria encontrar muito equipamento de pesca, mas 46% é uma percentagem inesperadamente elevada,” diz. “Inicialmente, pensámos que a percentagem de equipamento de pesca se situaria na ordem dos 20%. Esse será o valor aceite para os detritos marinhos à escala global – 20% com origem na atividade piscatória e 80% provenientes de terra.

As redes-fantasma, um termo criado para descrever as redes esquecidas no mar, intencional ou acidentalmente, andam à deriva no oceano, aprisionando baleias, focas e tartarugas. Estima-se que, anualmente, cerca de 100 000 seres marinhos sejam vítimas de estrangulamento, asfixia ou ferimentos causados por plásticos.

A Ocean Cleanup está, atualmente, a desenvolver um sistema para retirar grande parte destes equipamentos de pesca que coabitam as águas do oceano, com planos para que seja lançado ainda no final deste ano.

“É curioso observar que, pelo menos metade dos detritos encontrados não são plásticos decorrentes do consumo, que ocupam o palco do debate atual, mas sim equipamentos de pesca,” afirma George Leonard, o cientista principal da Ocean Conservancy. “Este estudo é a confirmação de que os equipamentos de pesca deixados no mar são uma das causas de morte de um grupo diversificado de animais e temos de alargar o debate sobre os plásticos para assegurarmos que esta parte do problema é resolvida.”

O especialista em detritos marinhos, Marcus Eriksen, cofundador do 5 Gyres Institute, adverte que o novo estudo se baseia apenas em observações e pesquisas com um alcance limitado, sendo, por isso, difícil de estimar, com precisão, a dimensão total da massa de lixo. Os dados são, contudo, importantes ao revelarem a real extensão da acumulação de equipamentos de pesca, sublinha.

Um Mar de Plástico?

A publicação do estudo sobre a massa de lixo coincidiu com a divulgação de um novo relatório no Reino Unido, Foresight Future of the Sea, que concluiu que a poluição por plásticos no oceano poderá triplicar em 2050, a menos que seja concertada uma resposta em larga escala que impeça o plástico de alcançar o oceano. O relatório declarou a poluição por plásticos uma das principais ameaças ambientais dos mares, a par da subida do nível das águas do mar e do aquecimento dos oceanos.

O estudo incluiu o levantamento de dados por via aérea, realizado em dois momentos, em outubro de 2016, com registo de 7000 imagens, e 672 manobras de arrasto da superfície oceânica, efetuadas entre julho e setembro de 2015, por 18 embarcações.

As manobras de arrasto da superfície contaram o resto da história.

Cinquenta objetos de plástico recolhidos apresentavam a data de fabrico legível: uma de 1977, sete dos anos 80, dezassete dos anos 90, vinte e quatro da década de 2000 e um de 2010. Os investigadores também encontraram 386 objetos com palavras percetíveis ou frases em nove idiomas diferentes.

A escrita num terço dos objetos recolhidos era japonesa e no outro terço chinesa. O país de fabrico era legível em 41 objetos, tendo sido produzidos em 12 nações diferentes.

O estudo também concluiu que a poluição por plásticos na área da Grande Ilha de Lixo do Pacífico está “a aumentar exponencialmente e a um ritmo mais rápido do que nas águas circundantes.”

Outros não estão tão seguros de que a conclusão indique uma mudança radical na distribuição dos detritos marinhos. Acredita-se que grande parte destes detritos do planeta esteja concentrada nas zonas costeiras e não no meio dos oceanos.

Leonard diz-se impressionado com o alcance do estudo. “São dados científicos sólidos,” afirma. “Mas, ao mesmo tempo, neste domínio, quanto mais procuramos, mais plástico encontramos.”

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